{"id":4674,"date":"2024-11-11T13:00:29","date_gmt":"2024-11-11T13:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/veduta2024\/?p=4674"},"modified":"2024-12-22T22:08:04","modified_gmt":"2024-12-22T22:08:04","slug":"os-verdadeiros-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/os-verdadeiros-guimaraes\/","title":{"rendered":"Os \u201cverdadeiros\u201d Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p>A origem do principal tronco da fam\u00edlia de apelido Guimar\u00e3es, continua, nos dias de hoje, envolta em mist\u00e9rio. Teve in\u00edcio em Martinho de Guimar\u00e3es, um oficial do arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra e do cabido da mesma cidade, membro da elite do governo municipal desde 1479, como homem bom<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Contudo, este tronco, sobre o qual adiante nos debru\u00e7aremos em maior pormenor, est\u00e1 longe de ser o \u00fanico na difus\u00e3o do apelido Guimar\u00e3es pelo pa\u00eds e pelo mundo. Muito antes de Martinho de Guimar\u00e3es, j\u00e1 outros indiv\u00edduos carregavam o mesmo apelido, quer na vila de Guimar\u00e3es, quer em outros locais do Reino.<\/p>\n<p class=\"indent\">Um dos mais antigos que se documentam pela cidade de Guimar\u00e3es refere-se ao c\u00f3nego Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, abade de Travass\u00f3s, que faz o seu testamento a 18 de mar\u00e7o de 1367 (Era de 1405), no qual deixa \u00e0 igreja de Santa Maria da Oliveira e seu cabido o lugar de Riba de Selho em Ferment\u00f5es (Santa Eul\u00e1lia), e o lugar da Amorosa, meeiro a Azur\u00e9m (S\u00e3o Pedro) e a Ferment\u00f5es (Santa Eul\u00e1lia), com obriga\u00e7\u00e3o de sete missas rezadas pelo anivers\u00e1rio do referido c\u00f3nego<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Talvez se refira ao mesmo c\u00f3nego que possu\u00eda umas casas na Rua da Sapateira, a que o livro da fazenda do cabido, faz refer\u00eancia s\u00e9culo e meio ap\u00f3s ter testado.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abItem casas em que morou Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es com o escambo de Fern\u00e3o Vaz da Cunha polas casas de Dona Branqua de censo paga a mulher de Afonso Martins e se nom pagar h\u00e1 de haver o cabido esta pensom pelas casas que fez Jo\u00e3o Vaz o Crespo em que ele morou porque estas som as casas em que ele dito Afonso Martins vivia e se os nom ouver por elas aos daver pelos bens da mulher de Afonso Martins ora as traz a mulher de Gon\u00e7alo Nunes genro do dito Jo\u00e3o e paga por S\u00e3o Miguel LX VII reais\u00bb<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"indent\">Num documento de posse de casas na Rua da Judiaria da vila de Guimar\u00e3es, datado de 26-jul-1426, nomeiam-se os testamenteiros de Jo\u00e3o Garcia, mestre de pedraria, respons\u00e1vel por importantes interven\u00e7\u00f5es na igreja de Nossa Senhora da Oliveira; s\u00e3o eles a esposa do defunto, Constan\u00e7a Anes e Frei Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, doutor, frade do Mosteiro de S\u00e3o Francisco<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 29 de abril de 1440, D. Afonso V perdoa a justi\u00e7a r\u00e9gia e a pris\u00e3o a Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, por raptar Beatriz Vaz, filha de Jo\u00e3o Vasques, siseiro na cidade de Braga, guardando \u00e0s partes o direito de o demandar civilmente por danos, perdas e interesses, sem que para isso seja preso, na sequ\u00eancia do perd\u00e3o geral outorgado para povoar alguns lugares<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 18 de mar\u00e7o de 1443, D. Afonso V confirma privil\u00e9gio a Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, tanoeiro, morador na cidade de Lisboa, isentando-o de ser tutor e curador, de ser fiador de qualquer pessoa, de servir por mar e terra com o concelho, salvo com Nuno Vasques de Castelo Branco, de qualquer encargo concelhio, bem como do direito de pousada<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 15 de janeiro de 1470, D. Afonso V privilegia Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, [?] r\u00e9gio, morador na vila de Santar\u00e9m, isentando de serem tomadas suas bestas para cargas r\u00e9gias, do pr\u00edncipe, dos infantes ou de quaisquer outras pessoas<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 23 de abril de 1481, D. Afonso V nomeia no cargo de recebedor r\u00e9gio da sisa da fruta de Lisboa, a Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, em substitui\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Teixeira, que fora destitu\u00eddo do cargo por cometer muitos erros<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Talvez o mesmo que a 02 de janeiro de 1507 \u00e9 nomeado na provis\u00e3o por que o rei ordena ao almoxarife da Alf\u00e2ndega de Lisboa que d\u00ea 2.000 r\u00e9is a Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es, medidor da dita alf\u00e2ndega<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Pelo mesmo per\u00edodo, Al\u00e3o documenta em Lisboa um Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es, de quem inicia um t\u00edtulo Guimar\u00e3es, na sua Pedatura Lusitana: \u00abLouren\u00e7o de Guimar\u00e3es foi um homem de baixa sorte<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> natural de Guimar\u00e3es donde tomou o apelido. Foi criado de Paio Rodrigues. Contador mor de Lisboa, e foi Escriv\u00e3o da Fazenda del-Rei D. Afonso 5\u00ba.\u00bb<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Entre os seus filhos documenta-se um Pedro Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es. No Livro do Armeiro mor documenta-se um bras\u00e3o passado a um Pedro Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es, possivelmente o mesmo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4734\" aria-describedby=\"caption-attachment-4734\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4734 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-1.gif\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"783\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4734\" class=\"wp-caption-text\">Testemunho de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es, ourives que agora serve de prebendeiro<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"indent\">Como se pode constatar, elencaram-se aqui um conjunto significativo de indiv\u00edduos anteriores, coevos e posteriores a Martinho de Guimar\u00e3es, que difundiam o mesmo apelido por diversas regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"indent\">De notar que a ado\u00e7\u00e3o do apelido \u201cGuimar\u00e3es\u201d n\u00e3o se circunscreve a indiv\u00edduos naturais da vila de Guimar\u00e3es e seu termo, que se movimentaram no espa\u00e7o nacional e transnacional. Sendo Guimar\u00e3es uma das principais vilas do Reino, sede de uma imensa comarca<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> com in\u00fameras par\u00f3quias e coutos densamente povoados, muitos dos seus naturais lan\u00e7aram-se na epopeia ultramarina. J\u00e1 nas terras que os recebiam, estes homens optavam por adotar como apelido o nome da sede da sua comarca, Guimar\u00e3es. Disto se conclui que n\u00e3o \u00e9 t\u00e1cito que um indiv\u00edduo, ou seu antepassado, com o apelido de Guimar\u00e3es, sejam naturais da cidade de Guimar\u00e3es, ou seu termo.<\/p>\n<p class=\"indent\">Na viragem do s\u00e9culo XVI identificamos entre os c\u00f3negos da Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, um com o apelido Guimar\u00e3es. Trata-se do poderoso c\u00f3nego Sebasti\u00e3o de Guimar\u00e3es, que dar\u00e1 origem ao tronco dos Guimar\u00e3es Ferraz da Vila. Por sua alma, o Cabido rezava no m\u00eas de janeiro duas missas, para as quais deixou \u00e0 institui\u00e7\u00e3o sessenta reais de senso, impostos na Quebrada de Gosende e do casal de Subacela, da freguesia de S\u00e3o Jorge de Vizela<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>. Era cl\u00e9rigo de Missa a 27 de abril de 1509 quando testemunha um prazo realizado pelo Cabido<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>. Em 05 de julho de 1514<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> encontramo-lo j\u00e1 como c\u00f3nego do poderoso Cabido da Real Colegiada de Guimar\u00e3es. Em 01 de janeiro de 1540<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> ainda integrava aquele \u00f3rg\u00e3o colegial, como se constata de um prazo que o Cabido faz de umas casas \u00e0 Porta do Postigo. O mesmo em 28 de abril de 1552<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 18 de agosto de 1529, na capela de Nossa Senhora do Pranto, estando reunido o cabido dos frades de S\u00e3o Domingos, apareceu o c\u00f3nego Sebasti\u00e3o de Guimar\u00e3es e declarou que ele tinha por t\u00edtulo de prazo do dito Mosteiro de S\u00e3o Domingos \u00ab(\u2026) duas casas que est\u00e3o em a Rua de Gatos que partem de uma parte com casas do concelho desta vila e outras quatro casas t\u00e9rreas e uma delas \u00e9 sobradada que est\u00e3o na dita Rua de Gatos com suas hortas e quintais assim e da maneira que est\u00e3o demarcadas (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. Vem o referido c\u00f3nego renunciar o seu prazo, condicionalmente, para que seja feita renova\u00e7\u00e3o do mesmo em seu genro, Gon\u00e7alo Anes Pinto e sua mulher, filha do c\u00f3nego, In\u00eas Cordeira.<\/p>\n<p class=\"indent\">De Gon\u00e7alo Anes Pinto e sua mulher In\u00eas Correia, estamos em crer que \u00e9 filha Paula de Guimar\u00e3es, casada com Crist\u00f3v\u00e3o Ferraz, filho de um c\u00f3nego de apelido Ferraz e de Catarina Lopes, mulher solteira, natural da Rua de Santa Maria. Crist\u00f3v\u00e3o Ferraz nasceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, ca. 1510. Foi nomeado escudeiro-fidalgo a 17 de dezembro de 1564, quando testemunha dote de casamento de Catarina Vaz com Gon\u00e7alo Fernandes Escaramenta. Em 10 de dezembro de 1567 encontrava-se preso na cadeia da correi\u00e7\u00e3o, onde passa procura\u00e7\u00e3o a seu cunhado Gon\u00e7alo Vaz Guedes morador na vila de Mes\u00e3o Frio, sendo nomeado como cavaleiro-fidalgo. J\u00e1 era casado a 06 de abril de 1566, data em que sua esposa outorga uma fian\u00e7a que d\u00e1 a Gil Vaz prebendeiro do cabido. Era vereador do senado vimaranense a 27 de janeiro de 1576, como se v\u00ea por procura\u00e7\u00e3o passada pela c\u00e2mara a Gon\u00e7alo Vieira e Est\u00eav\u00e3o Mendes mercadores e Cosme Vaz tosador para os representarem em todas as causas e demandas que trouxerem na Corte d\u2019el rei. A 27 de agosto de 1585 era o vereador mais velho do senado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>I \u2013 PAULA DE GUIMAR\u00c3ES casada com CRIST\u00d3V\u00c3O FERRAZ,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Tiveram:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">1(II) CATARINA DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ, q.s.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">II \u2013 CATARINA DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ. Nasceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, ca. 1558, a\u00ed falecida a 19-jun-1603. Casou na freguesia de sua naturalidade <em>ca.<\/em> 1594 com VALENTIM DE BARROS, nascido na Rua da Sapateira, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, ca. 1530 e faleceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es a 06-jan-1608.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Tiveram:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">1(III) PEDRO FERRAZ DE BARROS. Nasceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, batizado a 17-jun-1595<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>. Foram padrinhos o Doutor Gon\u00e7alo da Silva e Ana Machado mulher de Gaspar de Carvalho. Casou em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto, ca. 1620 com JOANA VAZ DE CAMPOS, senhora herdeira da quinta do Pinheiro da Vinha Nova.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Tiveram:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">1(IV) ANT\u00d3NIO FERRAZ DE BARROS, Reitor de Moura, segundo Gaio, nasceu cerca 1618.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">2(IV) JER\u00d3NIMA, freira no Mosteiro de Santa Clara em Guimar\u00e3es, segundo Gaio, nasceu cerca 1620.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">3(IV) MARIANA DOS GUIMAR\u00c3ES. Nasceu em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto, onde foi batizada a 08-fev-1622<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>. Foram padrinhos o Licenciado Miguel Rebelo e Ant\u00f3nia Ferraz, mulher do licenciado Paulo Vaz.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">4(IV) BALTAZAR. Nasceu em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto, batizado de licen\u00e7a pelo padre Frei Calisto de Faria a 14-fev-1625<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> e foram padrinhos Jo\u00e3o Rebelo Leite e Jos\u00e9 Novais.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">5(IV) FREI VALENTIM, frade de S\u00e3o Bento. Nasceu em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto, batizado a 22-nov-1625<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> e foram padrinhos Baltazar Borges da Vide e Maria Borges da Vide, filha de Guiomar de Campos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">6(IV) MARTINHO. Nasceu em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto, batizado a 04-jun-1630<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>. Foram padrinhos Lu\u00eds Peixoto da Silva, ouvidor e Isabel Ferreira, mulher de Ant\u00f3nio Gomes Cardoso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">7(IV) ESCOL\u00c1STICA, freira no Mosteiro de Santa Clara. Nasceu em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto, batizada a 02-jan-1635<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a> pelo reverendo padre Frei Paulo do Ros\u00e1rio, abade deste mosteiro. Foram padrinhos Jacinto Labor\u00e3o e Lu\u00edsa Borges, tia da batizada.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">8(IV) GUIOMAR DE BARROS FERRAZ, Nasceu em Refojos (S\u00e3o Miguel), Cabeceiras de Basto a 27-out-1637<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a> e foi batizada a 4 de novembro pelo padre Dom abade do Mosteiro de S\u00e3o Miguel de Refojos de Basto, Frei Baltazar da Apresenta\u00e7\u00e3o a 4 de novembro. Foram padrinhos o Doutor Rui Gomes Golias, mestre escola de Guimar\u00e3es. Casou, idem, a 02-dez-1663<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a> com JO\u00c3O MACHADO DE GUIMAR\u00c3ES.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">2(III) ANT\u00c3O. Nasceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, batizado a 22-jan-1597<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>, foram padrinhos o c\u00f3nego Pedro Ferraz e Guiomar de Aguiar mulher de Francisco Rebelo, comendador de Unh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">3(III) PAULA DOS GUIMAR\u00c3ES, q.s.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">4(III) C\u00d3NEGO CRIST\u00d3V\u00c3O DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ nasceu na quinta de Cima de Vila, Sedielos, Peso da R\u00e9gua, Vila Real, batizado a 11-Set-1599<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>, foram padrinhos Gon\u00e7alo Pereira, da quinta da Portela e Maria d\u2019Olival. Comiss\u00e1rio do Santo Of\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">5(III) MARGARIDA nasceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, batizado a 13-jan-1601<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>, e foram padrinhos Jorge do Vale e Catarina Golias, mulher de Manuel da Cunha de Mesquita. Foi freira em Santa Clara.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">III \u2013 PAULA DOS GUIMAR\u00c3ES. Nasceu na Rua de Santa Maria, Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, batizado a 24-Jun-1598, com o nome de pia de Paulina. Casou, idem, <em>ca.<\/em> 1619 com o LICENCIADO CRIST\u00d3V\u00c3O NOGUEIRA, filho de Jer\u00f3nimo Gon\u00e7alves, rico mercador na vila de Guimar\u00e3es e de sua mulher Beatriz Nogueira, neto materno de Domingos Gon\u00e7alves, rico mercador da pra\u00e7a vimaranense e de sua mulher Helena Nogueira, moradores na Rua Nova do Muro, sobrinho materno do licenciado Jo\u00e3o Nogueira.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Tiveram:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">1(IV) C\u00d3NEGO JO\u00c3O DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ. Nasceu em S\u00e3o Paio, Guimar\u00e3es, batizado pelo padre Francisco Esteves Nogueira, a 23-nov-1620<a href=\"#_edn30\" name=\"_ednref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a>. Foram padrinhos o c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o Ferraz e Cec\u00edlia Nogueira.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">2(IV) GON\u00c7ALO. Nasceu em S\u00e3o Paio, Guimar\u00e3es, batizado pelo padre Francisco Esteves Nogueira a 17-jan-1622<a href=\"#_edn31\" name=\"_ednref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>, foram padrinhos Pedro Vieira da Maia e Margarida Nogueira.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">3(IV) BEATRIZ DOS GUIMAR\u00c3ES, q.s.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">4(IV) FRANCISCO. Nasceu em S\u00e3o Paio, Guimar\u00e3es, batizado pelo padre Pedro Mendes de Freitas a 02-ago-1624<a href=\"#_edn32\" name=\"_ednref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>, foram padrinhos Manuel Rebelo Marinho e Crist\u00f3v\u00e3o Machado Riconado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">IV \u2013 BEATRIZ DOS GUIMAR\u00c3ES. Nasceu em S\u00e3o Paio, Guimar\u00e3es <em>ca.<\/em> 1623. Casou idem, a 05-jan-1661 com o DOUTOR ANT\u00d3NIO DE MORAIS<a href=\"#_edn33\" name=\"_ednref33\"><sup>[33]<\/sup><\/a>, m\u00e9dico, natural de Freamunde, falecido na Oliveira (Santa Maria), Guimar\u00e3es, a 09-abr-1674<a href=\"#_edn34\" name=\"_ednref34\"><sup>[34]<\/sup><\/a>, filho de Tom\u00e9 de Morais e de sua mulher e de sua mulher Catarina Gomes, morador no lugar de Freamunde da freguesia de S\u00e3o Salvador de Freamunde do termo do Porto. Neto paterno de Tom\u00e9 Ferreira e de sua mulher Senhorinha Fernandes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Tiveram:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">1(V) C\u00d3NEGO MARTINHO DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ. Nasceu no Toural, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, Guimar\u00e3es, batizado pelo reverendo c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o Ferraz a 19-nov-1661<a href=\"#_edn35\" name=\"_ednref35\"><sup>[35]<\/sup><\/a>, foi padrinho Frei Martinho Pereira de E\u00e7a, cavaleiro da Ordem de S\u00e3o Jo\u00e3o de Malta. Sucedeu na conezia de seu tio Jo\u00e3o dos Guimar\u00e3es Ferraz.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">2(V) PAULA DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ, q.s.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">V \u2013 PAULA DOS GUIMAR\u00c3ES FERRAZ. Nasceu no Toural, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, Guimar\u00e3es, batizado pelo reverendo c\u00f3nego Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es a 17-03-1664<a href=\"#_edn36\" name=\"_ednref36\"><sup>[36]<\/sup><\/a>. Casou em S\u00e3o Sebasti\u00e3o Guimar\u00e3es, <em>ca.<\/em> 1678 com ALEXANDRE DO VALE PEIXOTO, nascido na quinta do Carvalho d\u2019Arca, Polvoreira (S\u00e3o Pedro), Guimar\u00e3es a 08-maio-1631<a href=\"#_edn37\" name=\"_ednref37\"><sup>[37]<\/sup><\/a>. Foram padrinhos Andr\u00e9 Vaz e sua mulher Ana Machado Vilas-Boas da cidade de Braga, a\u00ed faleceu a 10-Jan-1700<a href=\"#_edn38\" name=\"_ednref38\"><sup>[38]<\/sup><\/a>, filho de Ant\u00f3nio do Vale e de sua mulher Vit\u00f3ria Vaz de Vilas Boas. Segue gera\u00e7\u00e3o na quinta de Carvalho d\u2019Arca em Polvoreira e nos Brand\u00e3o do Porto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"indent\">Firmada esta sequ\u00eancia geneal\u00f3gica da descend\u00eancia do C\u00f3nego Sebasti\u00e3o de Guimar\u00e3es, resta afirmar que entre estes diferentes ramos n\u00e3o foi poss\u00edvel aferir qualquer liga\u00e7\u00e3o ao tronco dos ditos \u201cverdadeiros Guimar\u00e3es\u201d, descendentes de Martinho de Guimar\u00e3es. Uma not\u00edcia, por\u00e9m, merece particular destaque. Em 20 de junho de 1648 o Doutor Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es Golias, escrevendo de Estocolmo refere a morte de um familiar \u00ab(&#8230;) Nosso parente, o padre frei Ant\u00e3o de Guimar\u00e3es, faleceu-se dia de S. Matias, no mosteiro de Aveiro, (\u2026)\u00bb\u201d. Na possibilidade deste Ant\u00e3o ser o Ant\u00e3o, filho de Valentim de Barros e de Catarina de Guimar\u00e3es, nascido em 1597, conclui-se que a linha de Sebasti\u00e3o de Guimar\u00e3es entroncar\u00e1 na de Martinho de Guimar\u00e3es, uma vez que o Doutor Jo\u00e3o de Guimar\u00e3es Golias, descendia deste.<\/p>\n<p class=\"indent\">Ap\u00f3s a identifica\u00e7\u00e3o de diversas linhas Guimar\u00e3es que entre os s\u00e9culos XIV-XVI se identificam pelo reino, centremos a nossa aten\u00e7\u00e3o na principal linha, a qual costuma ser identificada como a dos \u201cverdadeiros Guimar\u00e3es\u201d, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 perfus\u00e3o de outras linhas que ao longo dos s\u00e9culos se foram afirmando e que carregavam o mesmo apelido pelas circunst\u00e2ncias que aqui j\u00e1 referimos.<\/p>\n<p class=\"indent\">Este tronco familiar, descendente de Martinho de Guimar\u00e3es, \u00e9 identificado nos principais Nobili\u00e1rios do Reino. Mas, como falamos de Guimar\u00e3es, consultamos a obra de uma das suas maiores genealogistas, Dona Maria Adelaide Pereira de Morais, que no seu artigo \u201cDesceram do monte, atravessaram o mar (Castros de Guimar\u00e3es e seu termo)\u201d analisa o tronco de Martinho de Guimar\u00e3es. Neste trabalho a autora faz um percurso pelos principais nobili\u00e1rios e genealogistas que tratam da fam\u00edlia ou de seus membros. Inicia por um dos principais pilares onde assenta a genealogia familiar e a ligam ao sangue real, a l\u00e1pide do t\u00famulo de In\u00eas de Guimar\u00e3es tendo por base Felgueiras Gaio<a href=\"#_edn39\" name=\"_ednref39\"><sup>[39]<\/sup><\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>\u00abAdiantam-se primeiro com uma l\u00e1pide: a do t\u00famulo de In\u00eas dos Guimar\u00e3es na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimar\u00e3es. A\u00ed se afirma: \u00abAqui jaz Ignez de Castro de Guimar\u00e3es m.er do L.do Jo\u00e3o de Valladares, bisneta de Martinho de G.es f.\u00ba de Dom Fernando da Guerra bispo del Rey D. P.\u00ba o Cru e da Sr.a D. In\u00eas de Castro e Valadares morreo a 8 de setembro de 1634\u00bb. Deduz o Gayo \u00abde cujo o Letreiro se colhe a certeza da felia\u00e7\u00e3o de seu vis av\u00f4. N.\u00ba 1, nest tt.\u00ba de Guimar\u00e3es\u00bb. Entusiasmado com a varonia real, d\u00e1 princ\u00edpio a esta fam\u00edlia\u00bb.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"indent\">Continuando a sua an\u00e1lise, a autora refere que Gaio se confunde logo nas primeiras conjeturas, o que asseveramos. Come\u00e7a pois com Martinho de Castro Guimar\u00e3es \u00abq huns dizem ser criado do Arcebispo D. Fernando da Guerra, outros f.o de Luiz Annes Conego de Guimaraens e ab.e de S. Cosme de Garfe, e era o d.\u00ba Martinho dos G.es, por sua may parente do d.\u00ba Arcebispo D. Fernando da Guerra q o ouve em D. Joana da Cunha, solt.a da cidade de Braga\u2026\u00bb. Diz mais \u00ab\u2026 o qual D. Fernando da Guerra era f.\u00ba de D. Pedro da Guerra e de D. Teresa, f. \u00aa do Conde Jo\u00e3o Fz Andeiro, e neto do Infante D. Jo\u00e3o f. \u00ba do Rey D. Pedro e D. Ignez de Castro\u2026\u00bb. Remata a autora nesta \u00faltima cita\u00e7\u00e3o que \u00abN\u00e3o foi D. Teresa, primeira mulher de D. Pedro da Guerra, a m\u00e3e de D. Fernando da Guerra. O not\u00e1vel Arcebispo \u00e9 filho de uma outra rela\u00e7\u00e3o ou casamento. Foi sua m\u00e3e D. Maria Anes como se prova de um documento da chancelaria de D. Afonso V<a href=\"#_edn40\" name=\"_ednref40\"><sup>[40]<\/sup><\/a>, falecida a 08-abr-1440. como mais adiante se dir\u00e1, demonstrado num recente estudo\u00bb, citando o trabalho do Professor Jos\u00e9 Marques<a href=\"#_edn41\" name=\"_ednref41\"><sup>[41]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Consultando Al\u00e3o de Morais<a href=\"#_edn42\" name=\"_ednref42\"><sup>[42]<\/sup><\/a>, a mesma autora regista uma origem bastante diferente da anterior. Para aquele autor, o t\u00edtulo dos Guimar\u00e3es inicia-se em Lu\u00eds Eanes, cl\u00e9rigo, c\u00f3nego da Colegiada de Guimar\u00e3es e abade de Garfe, e que teve bastardo a Martinho de Guimar\u00e3es. No contraponto de Gaio e Al\u00e3o, Maria Adelaide de Moraes n\u00e3o avan\u00e7a qualquer conjetura. Declara desconhecer qual das origens \u00e9 a correta. Interroga-se, contudo, relativamente ao poss\u00edvel mito da varonia real<a href=\"#_edn43\" name=\"_ednref43\"><sup>[43]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">O padre Torcato Peixoto de Azevedo, herdeiro dos saberes geneal\u00f3gicos de Andr\u00e9 Afonso Peixoto, al\u00e9m de estudioso da documenta\u00e7\u00e3o da Colegiada, inicia o t\u00edtulo dos Guimar\u00e3es com a tradi\u00e7\u00e3o familiar que faz Martinho de Guimar\u00e3es descender do Conde D. Pedro. Por\u00e9m, n\u00e3o deixa de contrapor a fonte documental nos seguintes termos: \u00ab(\u2026) achamos que Martinho de Guimar\u00e3es foi filho de Lu\u00eds Anes c\u00f3nego da colegiada de Guimar\u00e3es, abade de Garfe como se v\u00ea de uns autos c\u00edveis que est\u00e3o no cart\u00f3rio da Colegiada, entre partes Bartolomeu Afonso contra Gon\u00e7alo Pires dos Salgueiros da freguesia de Garfe (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn44\" name=\"_ednref44\"><sup>[44]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Nesta afirma\u00e7\u00e3o do Padre Torcato Peixoto de Azevedo se fundou Al\u00e3o no seu t\u00edtulo dos Guimar\u00e3es e tamb\u00e9m Gaio, quando faz men\u00e7\u00e3o ao c\u00f3nego Lu\u00eds Anes.<\/p>\n<p class=\"indent\">Na aus\u00eancia da senten\u00e7a para que possamos validar esta refer\u00eancia, resta empossar o seu autor de autoridade bastante para a creditarmos e, deste modo, fundarmos em Lu\u00eds Anes a filia\u00e7\u00e3o de Martinho de Guimar\u00e3es. Contudo, pelo que conhecemos da sua obra, o padre Torcato Peixoto de Azevedo, n\u00e3o \u00e9 isento de lapsos. Na aus\u00eancia de uma data e de elementos mais precisos, a cita\u00e7\u00e3o surge demasiado vaga, pelo menos, o suficiente para a questionarmos.<\/p>\n<p class=\"indent\">Para lhe infundirmos maior cr\u00e9dito torna-se fundamental averiguar quem foi o c\u00f3nego Lu\u00eds Anes, tentando reunir o maior n\u00famero de dados poss\u00edveis relativamente ao seu percurso e contrapondo as suas balizas temporais \u00e0s do putativo filho, Martinho de Guimar\u00e3es de modo a encontrar, desde logo, correspond\u00eancias cronol\u00f3gicas que se alinhem na liga\u00e7\u00e3o de paternidade asseverada. Mas isso faremos mais adiante. De momento torna-se fundamental questionar, quem foi, pois, Martinho de Guimar\u00e3es?<\/p>\n<p class=\"indent\">Tendo por base os trabalhos do professor Jos\u00e9 Marques, nomeadamente \u201cA Arquidiocese de Braga no s\u00e9culo XV\u201d \u00e9 poss\u00edvel documentar que Martinho de Guimar\u00e3es \u00e9 amanuense para o testamento de D. Fernando da Guerra, por volta de 1462<a href=\"#_edn45\" name=\"_ednref45\"><sup>[45]<\/sup><\/a>. Em 18 de junho de 1464<a href=\"#_edn46\" name=\"_ednref46\"><sup>[46]<\/sup><\/a> o Cabido da Colegiada, pelos c\u00f3negos Jo\u00e3o Resende, arcediago de Neiva e mestre escola, Pedro Anes, capel\u00e3o, Nicolau Eanes, Jorge Afonso e outros fazem prazo do casal de Infias, na freguesia de S\u00e3o V\u00edtor em Braga a Martim de Guimar\u00e3es, tabeli\u00e3o em Braga, com a renda de dois maravedis de moeda antiga. Segundo Domingos Afonso de Ara\u00fajo, em 26 de janeiro de 1465 realiza uma escritura de escambo da quinta da C\u00e2mara em Moure<a href=\"#_edn47\" name=\"_ednref47\"><sup>[47]<\/sup><\/a>. Em 20 de abril de 1467 \u00e9 escriv\u00e3o substituto de Jo\u00e3o Rodrigues <em>ad casum<\/em><a href=\"#_edn48\" name=\"_ednref48\"><sup>[48]<\/sup><\/a><em>,<\/em> em 16 de setembro do mesmo ano \u00e9 identificado como \u201cescriv\u00e3o que foi do arcebispo\u201d continuando no exerc\u00edcio por determina\u00e7\u00e3o do Cabido durante a S\u00e9 Vacante<a href=\"#_edn49\" name=\"_ednref49\"><sup>[49]<\/sup><\/a>. Seis anos depois, em 24 de janeiro de 1473 serve de tabeli\u00e3o geral e escriv\u00e3o do cabido, cargo que ainda exercia em 09 de outubro de 1492<a href=\"#_edn50\" name=\"_ednref50\"><sup>[50]<\/sup><\/a>. Tamb\u00e9m a ele se refere o livro dos foros do Cabido de 1481. Documenta-se como juiz ordin\u00e1rio de 1494 a 1499. Com um percurso ativo de 37 anos, considerando que seria j\u00e1 maior de 25 anos em 1462, podemos recuar o seu nascimento anterior a 1437.<\/p>\n<p class=\"indent\">O genea Portugal<a href=\"#_edn51\" name=\"_ednref51\"><sup>[51]<\/sup><\/a> e a base de dados do Raglaure, apresentam uma data precisa para o nascimento de Martinho de Guimar\u00e3es a 11 de novembro de 1426, mas ignoramos a sua proveni\u00eancia. Carlos Silva, um conhecido e regular membro do grupo, adianta uma poss\u00edvel cortesia de Lu\u00eds Soveral Varella, posteriormente confirmado pelo pr\u00f3prio<a href=\"#_edn52\" name=\"_ednref52\"><sup>[52]<\/sup><\/a>. Ignoramos qual a fonte da informa\u00e7\u00e3o, todavia, esta data encaixa perfeitamente na leitura realizada.<\/p>\n<p class=\"indent\">No mesmo f\u00f3rum, Manuel Abranches Soveral, depois de vincar a ilegitimidade de D. Fernando da Guerra, aponta um conjunto de raz\u00f5es que evidenciam a impossibilidade de Martinho de Guimar\u00e3es ser filho do Arcebispo que citamos<a href=\"#_edn53\" name=\"_ednref53\"><sup>[53]<\/sup><\/a>:<\/p>\n<ul>\n<li>o Arcebispo n\u00e3o s\u00f3 chama sobrinho a Lopo de Almeida,<br \/>\ncomo lhe doa os seus bens.<\/li>\n<li>n\u00e3o passam bens do Arcebispo para Martinho<br \/>\ndos Guimar\u00e3es nem aquele lhe chama filho.<\/li>\n<li>n\u00e3o colhe o argumento de que o n\u00e3o fez por se tratar de uma<br \/>\nliga\u00e7\u00e3o ileg\u00edtima. 1\u00ba porque n\u00e3o \u00e9 esse o comportamento<br \/>\nhabitual na \u00e9poca. 2\u00ba porque o pr\u00f3prio arcebispo era bastardo,<br \/>\nbem assim como seu pai. 3\u00ba porque a liga\u00e7\u00e3o com Lopo de Almeida<br \/>\ntamb\u00e9m \u00e9 ileg\u00edtima, pois \u00e9 filho de sua meia-irm\u00e3.<\/li>\n<\/ul>\n<p class=\"indent\">Seguidamente, este mesmo autor prop\u00f5e uma hip\u00f3tese de filia\u00e7\u00e3o de Martinho de Guimar\u00e3es que citamos \u00abTendo em conta tudo o que ficou dito, bem como a l\u00e1pide, muito posterior, onde se afirma que Martinho era filho do arcebispo, julgo que h\u00e1 de facto um parentesco entre eles, mas por via da m\u00e3e do arcebispo. Com efeito, essa Maria Anes, ainda muito nova, cerca de 1385, teria tido um \u201ccaso\u201d com D. Pedro da Guerra, do qual nasceu pelo menos o arcebispo, que j\u00e1 era bispo do Porto em 1418. Esta Maria Anes, j\u00e1 m\u00e3e do futuro arcebispo, teria ent\u00e3o casado com algu\u00e9m, como era habitual nestes casos. Deste casamento nasceu Beatriz Anes, que casou antes de 1420. Mas \u00e9 poss\u00edvel que Maria Anes tivesse do seu casamento, al\u00e9m de Beatriz Anes, um filho que podia ser pai de Martinho dos Guimar\u00e3es, que ter\u00e1 nascido cerca de 1426. Esta hip\u00f3tese implicaria que o tal marido de Maria Anes fosse \u201cdos Guimar\u00e3es\u201d. Ou seja: o av\u00f4 materno do 1\u00ba conde de Abrantes seria esse \u201cdos Guimar\u00e3es\u201d. Donde Martinho seria seu primo direito e tamb\u00e9m sobrinho do arcebispo\u00bb<a href=\"#_edn54\" name=\"_ednref54\"><sup>[54]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Esta hip\u00f3tese foi constru\u00edda sobre o pressuposto de que existiria um parentesco entre Martinho de Guimar\u00e3es e o Arcebispo D. Fernando da Guerra, o que em nenhum momento foi provado. Como bem refere Carlos Silva no mesmo f\u00f3rum \u201cmembro da casa do Arcebispo n\u00e3o quer dizer parente do Arcebispo\u201d. Como tal, parece-nos um pouco for\u00e7ada esta hip\u00f3tese, tendo apenas como objetivo encontrar l\u00f3gica num parentesco que nada nos indica que existisse, a n\u00e3o ser a l\u00e1pide de In\u00eas de Guimar\u00e3es, que, sabemos, muito posterior.<\/p>\n<p class=\"indent\">Segue-se na mesma discuss\u00e3o Lu\u00eds Soveral Varella que confirma ser o autor dos dados partilhados no GenePortugal, cuja origem atribui a um trabalho conjunto dos genealogistas Eug\u00e9nio Andrea da Cunha e Freitas, Rui Moreira de S\u00e1 e Guerra e Jos\u00e9 Delfim Brochado de Souza-Soares publicado em \u00abEstudos Hist\u00f3ricos e Geneal\u00f3gicos\u00bb, Braga, 1974. Destaca este autor as duas grandes teorias acerca da filia\u00e7\u00e3o de Martinho de Guimar\u00e3es:<\/p>\n<p>\u00ab(&#8230;) Umas genealogistas indicam o arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra e D. Joana da Cunha como Pais de Martinho dos Guimar\u00e3es. Outros querem-no filho de Lu\u00eds Anes, c\u00f3nego de Guimar\u00e3es e abade de S. Cosme de Garfe e de uma senhora aparentada com o referido arcebispo (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn55\" name=\"_ednref55\"><sup>[55]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Ap\u00f3s estabelecer um conjunto de considera\u00e7\u00f5es Lu\u00eds Soveral Varella, dirigindo-se a Carlos Silva refere: \u00abCreia que quero tanto como voc\u00ea saber a verdade dos factos. Mas parece que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil hoje ter garantias absolutas do que se foi h\u00e1 mais de 500 anos atr\u00e1s j\u00e1 que n\u00e3o existem (ou pelo menos n\u00e3o se conhecem para j\u00e1) documentos inequ\u00edvocos de que Martinho era ou n\u00e3o era filho do arcebispo D. Fernando da Guerra. Ou melhor, h\u00e1 um &#8220;documento&#8221;, e para j\u00e1 \u00fanico, que \u00e9 a sepultura da sua bisneta em que se diz expressamente que ele \u00e9 filho de D. Fernando da Guerra. Esta afirma\u00e7\u00e3o, que pressup\u00f5e de imediato a sua ascend\u00eancia Real, num &#8220;instrumento&#8221; p\u00fablico, completamente p\u00fablico e acess\u00edvel, parece-me demasiado &#8220;atrevido&#8221; \u00e0 \u00e9poca para se tratar de uma falsidade.<\/p>\n<p class=\"indent\">De qualquer forma, parece continuar a existir &#8220;defensores&#8221; de uma e de outra causa. Uns, de que eu fa\u00e7o parte, apresentam este argumento para al\u00e9m das dedu\u00e7\u00f5es supra. Do outro lado das opini\u00f5es, apresente-se documento t\u00e3o veros\u00edmil como esse, para al\u00e9m das dedu\u00e7\u00f5es, ou prove-se a sua falsidade. At\u00e9 l\u00e1, parece-me de aceitar com a maior das garantias a filia\u00e7\u00e3o de Martinho dos Guimar\u00e3es no arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra\u00bb<a href=\"#_edn56\" name=\"_ednref56\"><sup>[56]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Destacamos dentre as v\u00e1rias considera\u00e7\u00f5es deste autor uma refer\u00eancia de particular import\u00e2ncia. A alus\u00e3o aos apontamentos de Val\u00e9rio Pinto de S\u00e1 onde se l\u00ea que nuns autos c\u00edveis existentes no Cart\u00f3rio da Colegiada de Guimar\u00e3es, entre o autor Bartolomeu Afonso e r\u00e9u Gon\u00e7alo Pires, de Salgueiros, em Garfe, constava que Martinho dos Guimar\u00e3es era filho de Lu\u00eds Anes.\u00a0Por certo, Val\u00e9rio Pinto de S\u00e1 (1682-1759) teve acesso ao nobili\u00e1rio do Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705) de onde extraiu esta informa\u00e7\u00e3o, partilhada posteriormente por Al\u00e3o de Morais e Gaio. Todavia, Lu\u00eds Soveral Varella facilmente descarta esta refer\u00eancia sob o seguinte argumento: \u00abFr\u00e1gil argumento foi chamado \u00e0 cola\u00e7\u00e3o. Ignora-se a \u00e9poca da pend\u00eancia desse processo, no entanto, constitui simples quest\u00e3o dirimida entre partes, as quais faziam alega\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 defesa dos respetivos interesses. Transparece que a quest\u00e3o dirimia direitos reais, de reivindica\u00e7\u00e3o de direitos de propriedade, naja rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia com prova produzida e cuja efic\u00e1cia de caso julgado prevalecesse \u201cerga-omnes\u201d. Em suma, n\u00e3o constitui documento hist\u00f3rico direto\u00bb<a href=\"#_edn57\" name=\"_ednref57\"><sup>[57]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Temos, pois, dois elementos que nos merecem particular aten\u00e7\u00e3o: o primeiro a \u201caparente\u201d impossibilidade de o t\u00famulo de In\u00eas de Guimar\u00e3es constituir uma falsidade; o segundo, a afirma\u00e7\u00e3o do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, com base num documento jur\u00eddico, constituir uma imprecis\u00e3o, imputada a um autor que, sabemos, analisou melhor que ningu\u00e9m os documentos da Colegiada, uma boa parte hoje desaparecida. O Padre Torcato Peixoto de Azevedo conhecia bem a inscri\u00e7\u00e3o tumular de In\u00eas de Guimar\u00e3es, mas, ainda assim, n\u00e3o hesitou p\u00f4-lo em causa ao citar esta refer\u00eancia documental. Estaria ele consciente de que, num local sagrado, se propalava uma falsidade deliberada? Reconheceria nesta l\u00e1pide um qualquer intento menos honroso de fortalecimento de uma linhagem?<\/p>\n<p class=\"indent\">Para abordar estas quest\u00f5es, dividiremos a nossa an\u00e1lise por etapas. Primeiro, examinaremos o n\u00facleo familiar de In\u00eas de Guimar\u00e3es a partir da genealogia manuscrita mais antiga <em>dos Guimar\u00e3es<\/em>, datada de cerca de 1620<a href=\"#_edn58\" name=\"_ednref58\"><sup>[58]<\/sup><\/a>. Nesta an\u00e1lise, procuraremos situar a fam\u00edlia no contexto social vimaranense, identificando poss\u00edveis raz\u00f5es que justificassem o recurso a m\u00e9todos il\u00edcitos para a afirma\u00e7\u00e3o da linhagem. Ap\u00f3s essa an\u00e1lise, tentaremos estabelecer uma cronologia para o c\u00f3nego Lu\u00eds Anes.<\/p>\n<p class=\"indent\">Conclu\u00eddas essas etapas, destacaremos poss\u00edveis evid\u00eancias ou contradi\u00e7\u00f5es que possam, de alguma forma, fortalecer ou enfraquecer as teorias acerca da origem de Martinho dos Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"indent\">A primeira Genealogia manuscrita dos Guimar\u00e3es<\/p>\n<p class=\"indent\">A primeira genealogia dos Guimar\u00e3es foi escrita ainda em vida de In\u00eas de Guimar\u00e3es, e lendo-a n\u00e3o transparece qualquer liga\u00e7\u00e3o a D. Fernando da Guerra como constar\u00e1 da inscri\u00e7\u00e3o do seu t\u00famulo.<\/p>\n<p class=\"indent\">Transcreve-se o in\u00edcio da mesma genealogia:<\/p>\n<blockquote><p>Descend\u00eancia dos verdadeiros Guimar\u00e3es<\/p>\n<p>Martinho dos Guimar\u00e3es foi sobrinho do Arcebispo de Bragua Dom Lu\u00eds que o trouxe consiguo quando sucedeo no arcebispado e o casou na dita cidade com a mais nobre e riqua molher que ao tal tempo avia nella a quoal se chamava Leonor Fernandes Chamissa filha de Fern\u00e3o Louren\u00e7o da Mina a quem por excel\u00eancia chamavam a senhora dos ch\u00e3os della houve os filhos e filhas seguintes<\/p>\n<p>1) Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es p 1<br \/>\n2) Pedro de Guimar\u00e3es p 9<br \/>\n3) Diogo de Guimar\u00e3es p 11<br \/>\n4) O Doutor Afonso de Guimar\u00e3es p 12<br \/>\n5) Fern\u00e3o de Guimar\u00e3es p 13<br \/>\n6) Isabel Martins p14<br \/>\n7) In\u00eas Martins p 15<br \/>\n8) Branca Martins p 21<br \/>\n9) Branqua dos Guimar\u00e3es, p 22<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"indent\">Em substitui\u00e7\u00e3o de D. Fernando, fala-se do seu antecessor D. Lu\u00eds Pires, de quem se diz Martinho de Guimar\u00e3es era sobrinho. Ao estabelecermos uma exegese da fonte, constatamos que D. Lu\u00eds tomou posse a 08 de fevereiro de 1468. Como ficou provado documentalmente, Martinho de Guimar\u00e3es j\u00e1 servia a casa do seu antecessor D. Fernando da Guerra continuando a servir o seu D. Lu\u00eds Pires. Perante esta incongru\u00eancia, somos levados a considerar um poss\u00edvel lapso do autor ao fornecer esta informa\u00e7\u00e3o, pretendendo o mesmo referir-se n\u00e3o a D. Lu\u00eds, mas ao seu antecessor, D. Fernando da Guerra, a quem coube trazer para sua casa D. Martinho de Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p class=\"indent\">Deste modo, o grau de parentesco atribu\u00eddo, de tio-sobrinho, seria entre D. Fernando da Guerra e Martinho de Guimar\u00e3es. Face a esta conclus\u00e3o, ganha for\u00e7a a hip\u00f3tese proposta por Manuel Abranches Soveral, que, conjetura que ap\u00f3s engravidar solteira de D. Pedro da Guerra e ter D. Fernando da Guerra, Maria Anes havia casado e teve, al\u00e9m de Beatriz Anes, que casou com Diogo Fernandes de Almeida, um outro filho que podia ser pai de Martinho dos Guimar\u00e3es.\u00a0Nesta conjetura, firma-se a rela\u00e7\u00e3o familiar tio-sobrinho expressa na primeira genealogia dos Guimar\u00e3es, pese embora o erro claro na identifica\u00e7\u00e3o do arcebispo<a href=\"#_edn59\" name=\"_ednref59\"><sup>[59]<\/sup><\/a>. Segundo esta hip\u00f3tese, o parentesco n\u00e3o era por D. Pedro da Guerra, e como tal pela casa real, mas antes pela mulher com que este se relacionou. Na continuidade da explica\u00e7\u00e3o dada por este autor, constata-se a coer\u00eancia de alguns dos argumentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4693\" aria-describedby=\"caption-attachment-4693\" style=\"width: 1584px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4693 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1584\" height=\"1240\" srcset=\"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-2.jpg 1584w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-2-300x235.jpg 300w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-2-1024x802.jpg 1024w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-2-768x601.jpg 768w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-2-1536x1202.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1584px) 100vw, 1584px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4693\" class=\"wp-caption-text\">Bras\u00e3o de Armas atribu\u00eddo a Pedro Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A fam\u00edlia de In\u00eas dos Guimar\u00e3es<\/h2>\n<p>In\u00eas dos Guimar\u00e3es era filha do c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o de Guimar\u00e3es, filho de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es e de sua manceba Margarida Lu\u00eds, origin\u00e1ria de um agregado de oficiais mec\u00e2nicos. Este facto estabelecia entre ambos um claro fosso social. Al\u00e9m disso, imputava-se \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de Margarida Lu\u00eds uma \u201cimpureza\u201d no sangue, o que obstava de forma significativa a qualquer tentativa de afirma\u00e7\u00e3o social dos seus descendentes. Os filhos de Isabel de Guimar\u00e3es, pese embora a posi\u00e7\u00e3o social que ocupavam na vila, entre a sua nobreza, tiveram de lidar com esta situa\u00e7\u00e3o, tentando a todo o custo esconder a sua origem, e silenciar quem quer que ousasse torn\u00e1-la p\u00fablica. Nos jogos de poder, esta origem era frequentemente ventilada no sentido de prejudicar a gera\u00e7\u00e3o nas suas pretens\u00f5es, nomeadamente no acesso aos cargos p\u00fablicos e da hierarquia religiosa.<\/p>\n<p class=\"indent\">\u00c9 poss\u00edvel documentar alguns destes jogos de poder. Uma senten\u00e7a requerida pelo Arcipreste Ant\u00f3nio de Meira, resultante dos embargos colocados \u00e0 sua <em>inquiri\u00e7\u00e3o de genere<\/em><a href=\"#_edn60\" name=\"_ednref60\"><sup>[60]<\/sup><\/a> perpassa alguns dos \u00f3dios existentes entre os Meira de Poveiras e os Valadares, filhos de In\u00eas de Guimar\u00e3es. O per\u00edodo em quest\u00e3o \u00e9 bastante sens\u00edvel no que toca aos equil\u00edbrios de poder. Os crist\u00e3os-novos dominavam o cabido vimaranense e a publica\u00e7\u00e3o em Guimar\u00e3es do Breve <em>Exponi nobis<\/em> de 12 de julho de 1636, com que o Papa Urbano VIII que imp\u00f4s a necessidade de habilita\u00e7\u00e3o <em>de Genere<\/em> para os futuros c\u00f3negos, caiu como uma bomba entre a clerezia. O arcipreste Baltazar de Meira pretendeu que sucedesse no seu benef\u00edcio o sobrinho, Ant\u00f3nio de Meira Peixoto, tendo para tal alcan\u00e7ado bula papal. Correndo na vila a inquiri\u00e7\u00e3o, obrigat\u00f3ria em fun\u00e7\u00e3o do novo breve, saiu p\u00fablica voz de que este novo provido era crist\u00e3o-novo. Embargada a inquiri\u00e7\u00e3o, o requerente partiu para a justi\u00e7a e impetrou uma senten\u00e7a de prova em contr\u00e1rio. \u00c9 esta senten\u00e7a que nos d\u00e1 nota dos testemunhos da inquiri\u00e7\u00e3o original. Entre estes, figuram o c\u00f3nego Miguel de Valadares, seu irm\u00e3o, Francisco Rebelo de Valadares e nas contraditas um outro irm\u00e3o, Pedro de Valadares, todos filhos de In\u00eas de Guimar\u00e3es e do Licenciado Jo\u00e3o de Valadares. Das mesmas contraditas extrai-se a preocupa\u00e7\u00e3o do c\u00f3nego em demonstrar que a limpeza de sangue dos depoentes os inabilitava a testemunhar de <em>genere<\/em>, ao colocar em causa a sua condi\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os-velhos.<\/p>\n<p class=\"indent\">Datou a senten\u00e7a de 14 de janeiro de 1641 e dela \u00e9 poss\u00edvel extrair as seguintes refer\u00eancias: \u00ab(\u2026) Miguel de Valadares folhas sessenta e nove e seu irm\u00e3o Fern\u00e3o Rebelo de Valadares, folhas noventa e sete verso, que falsa e temerariamente juraram o contr\u00e1rio eram inimigos capitais dele apelante e padeciam os defeitos e contraditas que abaixo se articulam (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn61\" name=\"_ednref61\"><sup>[61]<\/sup><\/a>. Do referido articulado consta o seguinte acerca dos filhos de In\u00eas de Guimar\u00e3es\u2026.<\/p>\n<blockquote><p>\u00ab(\u2026) e quanto \u00e0s testemunhas da inquiri\u00e7\u00e3o provaria que o c\u00f3nego Miguel de Valadares primeira testemunha da dita inquiri\u00e7\u00e3o folhas noventa e seis era inimigo capital do reverendo arcipreste Br\u00e1s de Meira tio dele apelante e se n\u00e3o falavam nem de barrete por o dito arcipreste lhe n\u00e3o dar seu voto quando se p\u00f4s a conezia em que estava provido e se acrescentara a este odio inimizade por o dito arcipreste dizer lhe negara o dito voto por estar regular por morte de tr\u00eas homens um que ele mesmo matara e outros dois que ele mandara matar por seus filhos, os quais, por esta mesma morte, foram sentenciados \u00e0 forca na al\u00e7ada que o m\u00eas passado estivera em Braga; \/\/ e que provaria que al\u00e9m do \u00f3dio capital que o dito Miguel de Valadares tinha ao dito arcipreste, tio do apelante, o tinha tamb\u00e9m ao mesmo apelante, porquanto chamado o Toural da dita vila dissera publicamente que era mais honrado que ele e lhe chamara de judeu mouro e que era neto de uma Margarida Lu\u00eds manceba do c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o de Guimar\u00e3es feiticeira que por tal fora acusada<a href=\"#_edn62\" name=\"_ednref62\"><sup>[62]<\/sup><\/a> pelas ruas p\u00fablicas da mesma vila; e provaria que o apelante dissera tamb\u00e9m publicamente que Pedro de Valadares, irm\u00e3o inteiro de Miguel de Valadares, sendo opositor em Coimbra a uma Beca do Col\u00e9gio Real de S\u00e3o Paulo o inabilitaram por se achar nas suas inquiri\u00e7\u00f5es que se vieram a tirar \u00e0 dita vila de Guimar\u00e3es pelo Doutor Lu\u00eds Pereira de Castro, parente da m\u00e3e do apelante, que a dita sua av\u00f3 Margarida Lu\u00eds era filha de uma judia cozinheira da cidade de Braga e que seu bisav\u00f4 chamado Pedro Anes fora pedreiro e tinha ra\u00e7a de mulato e lhe chamavam de alcunha o <em>Cabe\u00e7a de Pau<\/em> nome que ainda conservam o dito Miguel de Valadares e seus irm\u00e3os e provaria que nas ditas inquiri\u00e7\u00f5es, testemunhas muitos parentes do pai dele apelante, pelas mais raz\u00f5es todas acima a atr\u00e1s dadas de Miguel de Valadares e seu irm\u00e3o e parentes, lhe ficaram com grande \u00f3dio e inimizade capital; e provaria que a segunda testemunha da inquiri\u00e7\u00e3o, folhas sete verso, o c\u00f3nego Francisco Rebelo de Valadares, irm\u00e3o inteiro do dito Miguel de Valadares e pelas sobreditas raz\u00f5es ficava sendo tamb\u00e9m inimigo capital do apelante e juntamente porque Ant\u00f3nio de Valadares seu irm\u00e3o tivera d\u00favidas e pend\u00eancias com parentes do apelante e com pessoas casadas com suas parentas as quais brigas vieram alcaides e houvera acusa\u00e7\u00f5es criminais de que conforme o direito resultava \u00f3dio capital<a href=\"#_edn63\" name=\"_ednref63\"><sup>[63]<\/sup><\/a> e provaria que Manuel de Melo da Silva folhas trinta e quatro era cunhado dos ditos Miguel de Valadares e Francisco Rebelo de Valadares casado com uma sua [irm\u00e3] inteira e assim ficava tamb\u00e9m sendo inimigo capital do apelante porquanto as sobreditas causas da inimizade tocavam igualmente a sua mulher irm\u00e3 dos sobreditos al\u00e9m do que era pessoa de pouco cr\u00e9dito de que se fazia galhofa em toda a casa de jogo da dita vila assim p\u00fablica como particular e lhe chamavam a carta de dois paus cara de Manuel de Melo e que fora condenado por usur\u00e1rio p\u00fablico na devassa que tirou o arcebispo de Braga na dita vila de Guimar\u00e3es e fazia tudo o que queriam os ditos seus cunhados; provaria que tanto era verdade que o dito Miguel de Valadares e Francisco Rebelo de Valadares e o dito Manuel de Melo seu cunhado testemunharam como inimigos capitais do apelante o dito reverendo arcipreste seu tio que juraram que ele tinha tamb\u00e9m ra\u00e7a de crist\u00e3o novo por parte de seu pai Br\u00e1s de Meira Peixoto coisa que nenhuma das outras testemunhas jurava e sendo contr\u00e1rio do que tinha jurado seu pai o Licenciado Jo\u00e3o de Valadares o qual em uma inquiri\u00e7\u00e3o que tirou Heitor de Meira seu av\u00f4 jurara que ele era crist\u00e3o velho que conhecera todos os av\u00f3s os quais eram crist\u00e3os velhos assim os ditos seus filhos ficavam jurando falso manifestamente em dizer que sabiam o sobredito por tradi\u00e7\u00e3o antiga de seus pais (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn64\" name=\"_ednref64\"><sup>[64]<\/sup><\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"indent\">Como se v\u00ea, a limpeza da gera\u00e7\u00e3o dos Valadares, pela manceba do c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o de Guimar\u00e3es, n\u00e3o estava isenta de m\u00e1cula e a fam\u00edlia labutava para se afirmar socialmente no seio dos jogos de poder da vila de Guimar\u00e3es. O c\u00f3nego Miguel de Valadares e o padre Ant\u00f3nio de Valadares, abade de Rio Mau, eram homens de temperamento notoriamente irasc\u00edvel, envolvidos nas disputas de poder e cujo comportamento impetuoso facilmente ultrapassava os limites socialmente aceit\u00e1veis. A acusa\u00e7\u00e3o de homic\u00eddio imputada a Miguel de Valadares e a seus filhos, evidenciava a intensidade de seu car\u00e1ter e a propens\u00e3o a agir fora das normas sociais e morais da \u00e9poca. Esta \u00edndole belicosa e audaciosa parece coadunar-se com a capacidade de articular intrigas e manipula\u00e7\u00f5es, como o engenho de uma mentira bem elaborada.<\/p>\n<p class=\"indent\">Neste sentido, a encomenda de uma l\u00e1pide funer\u00e1ria para o t\u00famulo da m\u00e3e, na qual teriam forjado uma genealogia fict\u00edcia n\u00e3o parece uma realidade descabida. Este artif\u00edcio deliberado jogaria a favor da afirma\u00e7\u00e3o social da gera\u00e7\u00e3o, garantindo que a linhagem real lhes conferia prest\u00edgio social e influ\u00eancia pol\u00edtica. Num per\u00edodo em que o sangue e a ancestralidade eram determinantes para a afirma\u00e7\u00e3o social, a busca por um passado glorioso vinculado \u00e0 realeza, conferia um enorme poder \u00e0 fam\u00edlia que o possu\u00edsse. Tal objetivo funcionava como uma estrat\u00e9gia consciente de auto legitima\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o social. Dessa forma, os Valadares Guimar\u00e3es, criaram uma mentira, transformada em patrim\u00f3nio simb\u00f3lico da gera\u00e7\u00e3o e usada como uma ferramenta de influ\u00eancia e poder.<\/p>\n<p class=\"indent\">In\u00eas de Guimar\u00e3es e seu marido, o Licenciado Jo\u00e3o de Valadares, casaram com dote de casamento celebrado a 28 de setembro de 1557<a href=\"#_edn65\" name=\"_ednref65\"><sup>[65]<\/sup><\/a>. A escritura foi realizada na quinta de Carcavelos, em Nespereira (Santa Eulalia), propriedade dos pais do noivo, Sim\u00e3o Rebelo, cavaleiro fidalgo e sua esposa Margarida da Silva.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abNos casais da Quinta de Carcavelos que est\u00e1 cita na freguesia de Santa Eul\u00e1lia de Nespereira que s\u00e3o de Sim\u00e3o Rebelo cavaleiro fidalgo morador na dita vila estando a\u00ed o reverendo senhor Crist\u00f3v\u00e3o de Guimar\u00e3es c\u00f3nego em Nossa Senhora da Oliveira e logo por ele foi dito que ele com a ajuda de Nosso Senhor estava contratado de casar sua filha In\u00eas de Guimar\u00e3es com Jo\u00e3o de Valadares filho do dito Sim\u00e3o Rebelo que presente estava e que casando lhe dotava # mil cruzados os quais mil cruzados lhe h\u00e1-de dar desta escritura a tr\u00eas anos # e em come\u00e7o de pago lhe h\u00e1-de dar da\u00ed a tr\u00eas semanas cinquenta mil reis e nesta contia de mil cruzados entrar\u00e1 a valeia [valia] das casas que est\u00e3o na Rua de Santa Maria que ele Crist\u00f3v\u00e3o de Guimar\u00e3es tem prazo do cabido de Nossa Senhora da Oliveira e eles esposados haveram na vida ou vidas que os ele poder nomear a qual sua filha a nomeia em segunda vida e logo desiste ele c\u00f3nego da vida que ele tem e lhas d\u00e1 em dote e casamento [\u2026]\u00bb<a href=\"#_edn66\" name=\"_ednref66\"><sup>[66]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p class=\"indent\">Para cumprimento do referido dote, o c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o de Guimar\u00e3es hipotecava a sua quinta de Varziela sita na freguesia de S\u00e3o Miguel do Inferno, bem como a fazenda e casal que tem em Braga, de herdade de d\u00edzimo a Deus, herdados por falecimento de seu pai e m\u00e3e.<\/p>\n<p class=\"indent\">O pai do esposado dota a seu filho o casal das Quint\u00e3s, propriedade de Nossa Senhora da Oliveira, que traz por prazo e no qual \u00e9 a primeira vida, nomeando a segunda no esposado, e o casal de Carcavelos, propriedade do Mosteiro da Costa, no qual \u00e9 a segunda vida, nomeando a terceira no esposado, al\u00e9m de umas lavras reguengas que andam juntas com os ditos casais. Reservava para si o usos e frutos das ditas propriedades em sua vida.<\/p>\n<p class=\"indent\">O casal In\u00eas de Guimar\u00e3es e o Licenciado<a href=\"#_edn67\" name=\"_ednref67\"><sup>[67]<\/sup><\/a> Jo\u00e3o de Valadares tiveram os seguintes filhos segundo a genealogia manuscrita da fam\u00edlia:<\/p>\n<ol>\n<li>O Doutor Miguel de Valadares, desembargador na rela\u00e7\u00e3o de Braga.<\/li>\n<li>O L.do Francisco Rebelo de Valadares, abade de S\u00e3o Salvador de Del\u00e3es termo da vila de Barcelos. Formado em C\u00e2nones pela Universidade de Coimbra<a href=\"#_edn68\" name=\"_ednref68\"><sup>[68]<\/sup><\/a>.<\/li>\n<li>Jer\u00f3nimo de Valadares, abade de S\u00e3o Miguel de Carreiras, al\u00e9m de Braga.<\/li>\n<li>Sim\u00e3o Rebelo que faleceu na \u00cdndia no cerco que Cunhale<a href=\"#_edn69\" name=\"_ednref69\"><sup>[69]<\/sup><\/a>.<\/li>\n<li>L.do Pedro de Valadares, bacharel em c\u00e2nones<a href=\"#_edn70\" name=\"_ednref70\"><sup>[70]<\/sup><\/a>, solteiro.<\/li>\n<li>Ant\u00f3nio de Valadares abade de Rio Mau em Penela al\u00e9m de Braga<a href=\"#_edn71\" name=\"_ednref71\"><sup>[71]<\/sup><\/a>.<\/li>\n<li>Francisca de Valadares que morreu estando recebida com Paulo Pinto morador na cidade de Braga, mas n\u00e3o tiveram ajuntamento por ser recebido por procura\u00e7\u00f5es e morreu logo.<\/li>\n<li>Catarina de Valadares solteira, donzela, ([acrescento posterior] casou com Manuel de Melo da Silva n\u00e3o teve filhos.<\/li>\n<li>Maria de Valadares ainda donzela solteira ([acrescento posterior] casou com o Doutor Jo\u00e3o de Freitas Coutinho que morreu provedor de santar\u00e9m, sem filhos).<\/li>\n<\/ol>\n<p class=\"indent\">Curioso documentar o percurso de Miguel de Valadares. Licenciou-se pela Universidade de Coimbra, a sua matr\u00edcula n\u00e3o sobreviveu, ao contr\u00e1rio da dos irm\u00e3os, mas faz-se certo por declara\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio ao testemunhar na dilig\u00eancia de habilita\u00e7\u00e3o para o Santo Of\u00edcio do Doutor Pedro Be\u00e7a de Faria, onde declara ao segundo interrogat\u00f3rio \u00ab(\u2026) que conhece muito bem ao Licenciado Pedro de Be\u00e7a por ser seu condisc\u00edpulo na Universidade de Coimbra e nesta vila e em Braga tratar muitas vezes com ele (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn72\" name=\"_ednref72\"><sup>[72]<\/sup><\/a>. Ap\u00f3s se licenciar advogou nos audit\u00f3rios da vila de Guimar\u00e3es. Ainda advogava em 29 de dezembro de 1619, declarando ter mais de cinquenta anos. Do mesmo documento sabe-se que tratou com Pedro Be\u00e7a de Faria na cidade de Braga, pelo que se sup\u00f5e que a\u00ed residiu. \u00c9 poss\u00edvel que a esta data tenha j\u00e1 exercido o cargo de desembargador da Rela\u00e7\u00e3o daquela cidade, que alguns autores lhe documentam. De notar que eram de Braga os antepassados de sua av\u00f3 materna, Margarida Lu\u00eds. Ao que tudo indica deve ter casado nesta cidade, ou nela houve filhos naturais e, a dado momento, abandonou esta magistratura retornando a Guimar\u00e3es para advogar. Certo \u00e9 que por alvar\u00e1 de nomea\u00e7\u00e3o por concurso, em 04 de mar\u00e7o de 1639 o Doutor Miguel de Valadares assume a conezia Magistral<a href=\"#_edn73\" name=\"_ednref73\"><sup>[73]<\/sup><\/a>. Ignoramos at\u00e9 que ponto o assassinato que lhe imputam teve alguma rela\u00e7\u00e3o com esta inflex\u00e3o no percurso profissional e se, tal assassinato, ter\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o com a sua luta para esconder as origens familiares maternas.<\/p>\n<p class=\"indent\">O certo \u00e9 que assumindo a conezia, n\u00e3o demorou a fazer inimizades, nomeadamente a do arcipreste Baltazar de Meira que lhe recusou o seu voto. Em 20 de dezembro de 1640<a href=\"#_edn74\" name=\"_ednref74\"><sup>[74]<\/sup><\/a>, em sede tabeli\u00f3nica faz uma obriga\u00e7\u00e3o ao Cabido na qual desiste de todos os direitos que tinha dos frutos e pens\u00f5es dos benef\u00edcios que lhe pudessem pertencer. Infelizmente, o documento n\u00e3o refere qualquer contrapartida associada a esta atitude, mas fica a hip\u00f3tese de ter existido.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em Guimar\u00e3es, o c\u00f3nego Miguel de Valadares, como primog\u00e9nito, assumiu o papel de principal esteio familiar, junto de quem sua m\u00e3e viveu at\u00e9 falecer a 06 de setembro de 1634. Foi tamb\u00e9m o principal arquiteto das estrat\u00e9gias destinadas a silenciar a m\u00e1cula p\u00fablica que pairava sobre a sua gera\u00e7\u00e3o, a qual j\u00e1 havia custado a seu irm\u00e3o, Pedro de Valadares, a perda de uma beca na Universidade de Coimbra. Embora desconhecendo em pleno o seu percurso, fica a certeza de que estaria longe de incorporar os valores de honra atribu\u00edveis aos grandes do reino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4694\" aria-describedby=\"caption-attachment-4694\" style=\"width: 1584px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4694 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1584\" height=\"1240\" srcset=\"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-3.jpg 1584w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-3-300x235.jpg 300w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-3-1024x802.jpg 1024w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-3-768x601.jpg 768w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1-3-1536x1202.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1584px) 100vw, 1584px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4694\" class=\"wp-caption-text\">Bras\u00e3o de Armas da fam\u00edlia Valadares<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Cronologia do c\u00f3nego Lu\u00eds Anes\/Eanes<\/h2>\n<p>Pouco se conhece relativamente ao c\u00f3nego Lu\u00eds Anes. \u00c9 poss\u00edvel, contudo, documentar a sua presen\u00e7a em Cabido em momentos de realiza\u00e7\u00e3o de prazos da institui\u00e7\u00e3o. A refer\u00eancia mais recuada pertence \u00e0 chancelaria r\u00e9gia. A 11 de mar\u00e7o de 1459, D. Afonso V doa a Gil de Castro, cavaleiro da casa real, parte de umas casas na Rua de Santa Maria, que pertenceram a Lu\u00eds Eanes e a Afonso Eanes, c\u00f3negos em Guimar\u00e3es, que as perderam por as ter comprado sem licen\u00e7a r\u00e9gia, sendo a outra metade doada por esmola aos Cativos de T\u00e2nger<a href=\"#_edn75\" name=\"_ednref75\"><sup>[75]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Cinco dias depois, a 16 de mar\u00e7o de 1459<a href=\"#_edn76\" name=\"_ednref76\"><sup>[76]<\/sup><\/a> encontramos o c\u00f3nego Lu\u00eds Anes reunido em Cabido, a assistir \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um prazo de casas na Rua de Santa Maria. Exatamente do mesmo dia um outro documento que nos oferece a primeira refer\u00eancia familiar do c\u00f3nego Lu\u00eds Anes. Desta feita, o c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes, renuncia umas casas que lhe foram legadas em testamento pelo seu tio, o chantre Pedro Afonso<a href=\"#_edn77\" name=\"_ednref77\"><sup>[77]<\/sup><\/a>, o velho, por distin\u00e7\u00e3o do chantre novo, hom\u00f3nimo, que se transformar\u00e1 num dos mais ricos e poderosos homens de Guimar\u00e3es no final de quatrocentos.<\/p>\n<p class=\"indent\">Seis anos depois, a 07 de abril de 1465, assiste \u00e0 doa\u00e7\u00e3o ao Cabido de umas casas na Rua do Gado<a href=\"#_edn78\" name=\"_ednref78\"><sup>[78]<\/sup><\/a>. Em 05 de setembro do mesmo ano est\u00e1 presente em cabido, aquando da realiza\u00e7\u00e3o do prazo de umas casas pr\u00f3ximas da Torre Velha, feitas a Gon\u00e7alo Anes do Canto, sapateiro<a href=\"#_edn79\" name=\"_ednref79\"><sup>[79]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 03 de agosto de 1479 o c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes reunido em cabido com seus parceiros, assiste ao chantre Pedro Afonso, o novo, a dar conta dos legados deixados pelo capel\u00e3o Pedro Anes ao Cabido, duas casas \u00e0 Porta da Torre Velha e duas casas na Rua de Santa Maria<a href=\"#_edn80\" name=\"_ednref80\"><sup>[80]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 25 de outubro de 1485<a href=\"#_edn81\" name=\"_ednref81\"><sup>[81]<\/sup><\/a> assiste \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um prazo no lugar das Privadas, no Campo da Feira. Em 17 de agosto de 1493<a href=\"#_edn82\" name=\"_ednref82\"><sup>[82]<\/sup><\/a> integra o cabido aquando da realiza\u00e7\u00e3o de outro prazo, no Campo da Feira, o da Ramada.<\/p>\n<p class=\"indent\">Uma das \u00faltimas refer\u00eancias ao c\u00f3nego data de 15 de abril de1500<a href=\"#_edn83\" name=\"_ednref83\"><sup>[83]<\/sup><\/a>, quando em cabido assiste \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do prazo de umas casas na Rua de Santa Maria.<\/p>\n<p class=\"indent\">Sendo o c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes que se documenta, o abade de Garfe, dado como pai de Martinho de Guimar\u00e3es pelo Padre Torcato Peixoto de Azevedo, imp\u00f5e-se uma evidente impossibilidade cronol\u00f3gica. Martinho de Guimar\u00e3es e o c\u00f3nego Lu\u00eds Anes s\u00e3o contempor\u00e2neos e t\u00eam per\u00edodos de exerc\u00edcio profissional quase id\u00eanticos. Martinho de Guimar\u00e3es serviu o arcebispo e o Cabido de 1462 a 1499, o c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes serviu o cabido entre 1459-1500. O nascimento de Lu\u00eds Anes apontar\u00e1 para data aproximada do nascimento de Martinho de Guimar\u00e3es, pelo que n\u00e3o poderia ser pai daquele.<\/p>\n<p class=\"indent\">Antes deste per\u00edodo, de 1453 a 1457, documenta-se como abade de Garfe, Gon\u00e7alo Afonso, que possu\u00eda propriedades na Rua de Santa Maria<a href=\"#_edn84\" name=\"_ednref84\"><sup>[84]<\/sup><\/a>. Sobre este c\u00f3nego fala-nos o professor Jos\u00e9 Marques, como personagem principal num epis\u00f3dio complexo e violento, que originou importantes confrontos entre os poderes da Colegiada. Em meados de 1456, o chantre Pedro Afonso, celebra uma permuta com Gon\u00e7alo Afonso, abade de Garfe. Segundo os termos dessa permuta o chantre cedia o seu chantrado a Gon\u00e7alo Afonso e este renunciava em Pedro Afonso a sua conezia e a igreja de Garfe. Esta permuta foi confirmada pelo arcebispo de Braga <em>jure devolutiv<\/em>o. O prior e o seu vig\u00e1rio-geral aprovaram-no tacitamente e Gon\u00e7alo Afonso chegou a ser reconhecido como chantre por alguns capitulares. A maioria dos c\u00f3negos, contudo, op\u00f4s-se de forma determinada a esta permuta, pois achavam indigno da referida ocupa\u00e7\u00e3o o abade de Garfe. Apenas aos c\u00f3negos competia a escolha e confirma\u00e7\u00e3o do chantre e a maioria recusavam-no. Impugnaram a confirma\u00e7\u00e3o do Arcebispo e apelaram a Roma. Irasc\u00edvel e furioso eram alguns dos adjetivos que lhe associavam. Havia j\u00e1 ferido e espancado Fern\u00e3o Pires, cl\u00e9rigo coreiro e Gon\u00e7alo \u00c1lvares abade de S\u00e3o Cipriano de Tabuadelo, e estando excomungado, continuou a comungar e a ministrar os of\u00edcios divinos<a href=\"#_edn85\" name=\"_ednref85\"><sup>[85]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Existiu antes de Gon\u00e7alo Afonso, outro abade de Garfe de nome Lu\u00eds Eanes pai de Martinho de Guimar\u00e3es? Nesta impossibilidade, seria Gon\u00e7alo Afonso o pai de Martinho de Guimar\u00e3es? Enganar-se-ia o Padre Torcato Peixoto de Azevedo a identificar o abade de Garfe? Deixamos estas interroga\u00e7\u00f5es para que de futuro possam fundar novas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p class=\"indent\">Duas das principais teorias acerca da origem de Martinho de Guimar\u00e3es, parecem \u00e0 luz do que foi exposto, sofrer um abalo significativo na sua consist\u00eancia. Expusemos a possibilidade de a l\u00e1pide tumular de In\u00eas de Guimar\u00e3es constituir uma fraude, e o facto do c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes, cronologicamente, n\u00e3o poder ser pai de Martinho de Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Em face disto, o que nos resta?<\/h2>\n<p>Que parece existir alguma rela\u00e7\u00e3o familiar entre este c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes (1456-1500) e Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es dado como filho de Martinho de Guimar\u00e3es, \u00e9 ineg\u00e1vel, pois este herda as suas casas na Rua de Santa Maria. Para Domingos Afonso de Ara\u00fajo, este parentesco era por afinidade, uma vez que Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es casou com Catarina Anes, sobrinha do c\u00f3nego Lu\u00eds Eanes, filha de Pedro Eanes, seu irm\u00e3o. Hip\u00f3tese que nos parece perfeitamente veros\u00edmil. Segundo o mesmo autor, foi devido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o deste c\u00f3nego junto do cabido, que Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es alcan\u00e7ou o rendoso cargo de prebendeiro.<\/p>\n<p class=\"indent\">Acontece, por\u00e9m, que analisando o percurso de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es, que a genealogia familiar elenca como primog\u00e9nito de Martinho de Guimar\u00e3es, deparamos com uma clara diferen\u00e7a socio-estatut\u00e1ria entre pai e filho que n\u00e3o se coaduna com uma filia\u00e7\u00e3o leg\u00edtima. Martinho de Guimar\u00e3es era uma clientela da casa do Arcebispo, integrando a nobreza da cidade de Braga e servindo como tabeli\u00e3o geral e escriv\u00e3o do Cabido. J\u00e1 Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es, futuro prebendeiro do Cabido, antes do o ser, documenta-se como ourives<a href=\"#_edn86\" name=\"_ednref86\"><sup>[86]<\/sup><\/a>, ou seja, um oficial mec\u00e2nico. Para continuarmos a sustentar a filia\u00e7\u00e3o de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es em Martinho de Guimar\u00e3es, face a esta constata\u00e7\u00e3o, teremos que considerar uma poss\u00edvel ilegitimidade, pois s\u00f3 assim se explica o desn\u00edvel socioprofissional. Outra possibilidade a considerar ser\u00e1 a de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es, prebendeiro, n\u00e3o ser filho de Martinho de Guimar\u00e3es, pese embora se documentar um Louren\u00e7o Martins, filho de Martinho de Guimar\u00e3es, a tomar ordens sacras em 1485. Todavia, perante esta \u00faltima hip\u00f3tese, como explicar as propriedades em Braga herdadas pela gera\u00e7\u00e3o de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es?!<\/p>\n<p class=\"indent\">\u00c9 poss\u00edvel que Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es nascesse de uma rela\u00e7\u00e3o fortuita de Martinho de Guimar\u00e3es, aquando da sua juventude ainda em Guimar\u00e3es. Com a sa\u00edda de seu pai da vila ao servi\u00e7o do s\u00e9quito de D. Fernando da Guerra, a crian\u00e7a permaneceu em Guimar\u00e3es ao cuidado da m\u00e3e e de parentes pr\u00f3ximos. O facto de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es ter propriedades em Braga, firma uma liga\u00e7\u00e3o deste com aquela cidade, possivelmente recebidas da heran\u00e7a de seu pai. Estas propriedades ser\u00e3o administradas pela sua vi\u00fava Catarina Anes, como se documenta.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 13 de outubro de 1539 nas moradas da \u201cmuito honrada senhora Catarina Anes, dona vi\u00fava, mulher que foi de Louren\u00e7o de Guimar\u00e3es que deus tem por ela foi dito que era verdade que ela tinha um seu casal de herdade sito na freguesia de S\u00e3o Vitor termo de Braga junto de Santa Maria a qual tinha dado a metade a Sebasti\u00e3o Giraldes que presente estava outrossim morador na dita freguesia [\u2026] o tinha dado por arrendamento a um Trist\u00e3o Fernandes e sua mulher Maria Giraldes (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn87\" name=\"_ednref87\"><sup>[87]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Suceder\u00e1 nelas seu filho, o c\u00f3nego Crist\u00f3v\u00e3o dos Guimar\u00e3es que, por sua vez, as dota a sua filha In\u00eas de Guimar\u00e3es para casar com Jo\u00e3o de Valadares.<\/p>\n<p class=\"indent\">Relativamente \u00e0 filia\u00e7\u00e3o de Martinho de Guimar\u00e3es, a inc\u00f3gnita perdura. Seria seu pai Gon\u00e7alo Afonso o irasc\u00edvel e odioso c\u00f3nego que viu vedada a possibilidade de assumir o Chantrado? Seria este, se n\u00e3o pai, parente do escriv\u00e3o do Arcebispo Martinho de Guimar\u00e3es. Como \u00faltima nota evocamos uma vez mais o prazo de Infias, em Braga, propriedade do Cabido de Guimar\u00e3es, o qual em 18 de junho de 1464<a href=\"#_edn88\" name=\"_ednref88\"><sup>[88]<\/sup><\/a> \u00e9 encabe\u00e7ado por Martim de Guimar\u00e3es. Ignoramos se sucedeu numa das vidas do prazo a seus maiores. a um seu maior. O facto \u00e9 que o prazo da mesma propriedade havia sido realizado trinta e sete anos antes, a 30 de agosto de 1428<a href=\"#_edn89\" name=\"_ednref89\"><sup>[89]<\/sup><\/a> a uma Lu\u00edsa Esteves, vi\u00fava que foi de Jo\u00e3o Afonso de S\u00e3o V\u00edtor. Seriam estes ao pais de Martinho de Guimar\u00e3es?! Hip\u00f3tese vaga, contudo, de n\u00e3o excluir at\u00e9 novos informes ajudem a clarificar a ascend\u00eancia de Martinho de Guimar\u00e3es, tronco dos ditos \u201cVerdadeiros Guimar\u00e3es\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A origem do principal tronco da fam\u00edlia de apelido Guimar\u00e3es, continua, nos dias de hoje, envolta em mist\u00e9rio. Teve in\u00edcio em Martinho de Guimar\u00e3es, um oficial do arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra e do cabido da mesma cidade, membro da elite do governo municipal desde 1479, como homem bom[1]. 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