{"id":4684,"date":"2024-11-11T08:00:41","date_gmt":"2024-11-11T08:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/veduta2024\/?p=4684"},"modified":"2024-12-11T14:53:05","modified_gmt":"2024-12-11T14:53:05","slug":"ser-cristao-novo-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/ser-cristao-novo-em-portugal\/","title":{"rendered":"Ser crist\u00e3o-novo em Portugal: entre a mem\u00f3ria e o esquecimento"},"content":{"rendered":"<p>Relembre-se o contexto da transforma\u00e7\u00e3o dos judeus em crist\u00e3os-novos.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Em finais de 1496, o rei D. Manuel I promulgou um \u00e9dito de expuls\u00e3o, que obrigava os judeus do reino a converter-se ou a abandonar o territ\u00f3rio portugu\u00eas. Nos dois anos seguintes, seguir-se-ia uma vaga de batismos for\u00e7ados para muitos, mas as cenas de viol\u00eancia sucederam-se para os que se tinham agregado no terreno das traseiras do pa\u00e7o dos Estaus, em Lisboa, esperando embarcar para fora do Reino (Soyer 2007). A expuls\u00e3o obedecia \u00e0s vicissitudes da pol\u00edtica matrimonial conjunta que desenvolvia com Fernando de Arag\u00e3o e Isabel de Castela, os Reis Cat\u00f3licos. Isabel, a primog\u00e9nita destes, colocara como condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> a sua expuls\u00e3o para casar com o rei. Parece ter sido uma exig\u00eancia pessoal da princesa, que assentava como uma luva nas estrat\u00e9gias de exclus\u00e3o das minorias religiosas desenvolvidas pelos seus pais atrav\u00e9s da expuls\u00e3o dos judeus dos reinos de Castela e Arag\u00e3o em 1492. A princesa, vi\u00fava do malogrado herdeiro do trono portugu\u00eas, parece nunca ter ultrapassado o choque da morte do pr\u00edncipe D. Afonso. \u00c9 reportada por Pedro M\u00e1rtir de Angler\u00eda, italiano a viver na corte dos Reis Cat\u00f3licos, como n\u00e3o tendo voltado a comer \u00e0 mesa, entre outras pr\u00e1ticas penitenciais que debilitaram a sua sa\u00fade. Como se sabe, morreria horas depois de dar \u00e0 luz D. Miguel da Paz em Sarago\u00e7a, seu filho e de D. Manuel I.<\/p>\n<p class=\"indent\">A historiografia \u00e9 consensual em afirmar que o rei portugu\u00eas desenvolveu uma pol\u00edtica oscilante face aos judeus, cuja sa\u00edda evitou a todo o custo, acabando por promulgar um alvar\u00e1 em que os isentava de persegui\u00e7\u00f5es religiosas na sequ\u00eancia do batismo for\u00e7ado a que estes foram sujeitos. Durante vinte anos, n\u00e3o seriam perseguidos por delitos de f\u00e9. Nessas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o admira que muitos antigos judeus tenham conservado a sua religi\u00e3o hebraica. Com a instala\u00e7\u00e3o da Inquisi\u00e7\u00e3o a partir de 1536 seriam objeto de persegui\u00e7\u00e3o, e, posteriormente, com a sedimenta\u00e7\u00e3o da limpeza de sangue, discriminados face aos crist\u00e3os velhos (Bethencourt 2020). Os candidatos a ingressar nas ordens religiosas, na universidade de Coimbra, e aos of\u00edcios da coroa, passariam a fazer prova de limpeza de sangue. Cada institui\u00e7\u00e3o promulgou a obrigatoriedade dessas \u201cprovan\u00e7as\u201d ou \u201chabilita\u00e7\u00f5es\u201d em datas diversificadas, o que levou \u00e0 exclus\u00e3o jur\u00eddica gradual dos crist\u00e3os-novos da maior parte das ocupa\u00e7\u00f5es e of\u00edcios p\u00fablicos (Olival 2004; R\u00eago 2011).<\/p>\n<p class=\"indent\">As opini\u00f5es dos historiadores dividem-se no que respeita \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o judaica depois de 1497: para R\u00e9vah (1962) muitos judeus teriam mantido a sua religi\u00e3o em segredo, enquanto Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Saraiva considerava que as acusa\u00e7\u00f5es de juda\u00edsmo elaboradas pelos inquisidores seriam destitu\u00eddas de verosimilhan\u00e7a, por serem repetitivas e padronizadas (Saraiva 2019). Um importante artigo de Robert Rowland (2010) veio dar for\u00e7a a esta \u00faltima tese, uma vez que o seu autor argumentou que os casamentos mistos entre crist\u00e3os novos e velhos aumentaram o n\u00famero de pessoas com origens hebraicas. O livro de Nathan Wachtel, <em>A F\u00e9 na Lembran\u00e7a<\/em> (2003), chamou a aten\u00e7\u00e3o para a desagrega\u00e7\u00e3o do culto judaico, que n\u00e3o podia manter-se num contexto de persegui\u00e7\u00e3o, embora a descend\u00eancia das antigas fam\u00edlias judaicas conservasse uma mem\u00f3ria vaga, por vezes imprecisa, mas intensa, dos h\u00e1bitos culturais das comunidades a que os seus antepassados tinham pertencido. Nesse contexto, caberia sobretudo \u00e0s mulheres, pelo seu papel na educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, a transmiss\u00e3o dessas lembran\u00e7as, embora num contexto de aus\u00eancia de culto organizado, uma vez que j\u00e1 n\u00e3o havia rabis para ler a Torah ou implementar as pr\u00e1ticas judaicas.<\/p>\n<p class=\"indent\">O criptojuda\u00edsmo firmar-se-ia na fam\u00edlia e nas mulheres, e desenvolver-se-ia em segredo, mas n\u00e3o \u00e9 certo que todas as antigas fam\u00edlias judaicas o conservassem, porque muitas optaram pela assimila\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades crist\u00e3s-velhas. Ainda, estas duas atitudes podiam coexistir no interior de uma mesma parentela. A incorpora\u00e7\u00e3o, contudo, deparou com obst\u00e1culos, entre os quais a limpeza de sangue, de que adiante falaremos. A Inquisi\u00e7\u00e3o, criada a partir de 1536, perseguiu os crist\u00e3os-novos acusando-os de observar em segredo a lei de Mois\u00e9s (embora o pudessem ser tamb\u00e9m dos outros delitos da sua jurisdi\u00e7\u00e3o). Cada institui\u00e7\u00e3o procurou certificar-se de que n\u00e3o admitia pessoas de sangue judeu nas suas fileiras, dando origem a uma multiplicidade de datas, que, ainda para mais, nem sempre foram seguidas por uma implementa\u00e7\u00e3o total e imediata. Foi o caso das Miseric\u00f3rdias, que proibiram a admiss\u00e3o de membros crist\u00e3os-novos no compromisso de 1577, mas cuja a\u00e7\u00e3o em prol da segrega\u00e7\u00e3o se desenvolvia antes dessa data. Contudo, ainda em meados do s\u00e9culo XVII estas irmandades admitiam crist\u00e3os-novos nas suas fileiras, sobretudo m\u00e9dicos, porque faziam falta \u00e0 cura de doentes no hospital.<\/p>\n<p class=\"indent\">A segrega\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os-novos atrav\u00e9s da limpeza de sangue \u00e9 respons\u00e1vel pela sua quase completa exclus\u00e3o de todos os of\u00edcios p\u00fablicos: as Universidades n\u00e3o os queriam deixar entrar, as ordens religiosas foram uma a uma segregando-os. Entre elas, cabe referir o caso dos jesu\u00edtas, em que o seu fundador, In\u00e1cio de Loiola, ele pr\u00f3prio crist\u00e3o-novo, procurou impedir a proibi\u00e7\u00e3o de entrada de crist\u00e3os-novos. O segundo geral da Companhia de Jesus, Diego Lainez tamb\u00e9m era crist\u00e3o-novo, e esta ordem foi das \u00faltimas a barrar os crist\u00e3os-novos das suas fileiras (Israel 2023). A exclus\u00e3o de quase todas as profiss\u00f5es fez com que os crist\u00e3os-novos se dedicassem ao com\u00e9rcio, pequeno e grande, praticamente a \u00fanica atividade que podiam praticar sem ser sujeitos a provas de limpeza de sangue.<\/p>\n<p class=\"indent\">Para desenvolver as suas atividades comerciais, sobretudo nos meios do com\u00e9rcio mar\u00edtimo, os crist\u00e3os-novos desenvolveram redes familiares a n\u00edvel planet\u00e1rio. Havia crist\u00e3os-novos em Bord\u00e9us, Antu\u00e9rpia, Amesterd\u00e3o, Hamburgo. Instalaram-se tamb\u00e9m em Madrid e Sevilha, onde obtinham junto das institui\u00e7\u00f5es da coroa as indispens\u00e1veis licen\u00e7as para transportar escravizados africanos para a Am\u00e9rica Espanhola (Vila Vilar 1977). Fixaram-se tamb\u00e9m nos vice-reinos do Peru e da Nova Espanha. Estabeleceram-se assim nos imp\u00e9rios ib\u00e9ricos, desde o Brasil at\u00e9 ao Jap\u00e3o, pelo que se implementaram dispositivos persecut\u00f3rios, desde tribunais do Santo Of\u00edcio, visitas inquisitoriais ou nomea\u00e7\u00e3o de comiss\u00e1rios, a presen\u00e7a de cada um destes variando de acordo com a cidade considerada.<\/p>\n<p class=\"indent\">As persegui\u00e7\u00f5es tiveram como um dos seus resultados a extrema mobilidade dos crist\u00e3os-novos, que parece superior \u00e0 dos crist\u00e3os velhos. Por muitos motivos, entre as quais a fuga \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es ou as pol\u00edticas matrimoniais ligadas aos neg\u00f3cios. Era frequente uma mesma fam\u00edlia ter membros dispersos pelos reinos ib\u00e9ricos, pelos imp\u00e9rios e pela Europa, misturando parentes muito ricos com remediados. Os crist\u00e3os-novos manifestaram uma tend\u00eancia para efetuarem casamentos consangu\u00edneos, -embora estes tamb\u00e9m fossem comuns entre crist\u00e3os-velhos-, o que os obrigava a procurarem parceiros matrimoniais em lugares distantes. Em Amesterd\u00e3o, a comunidade sefardita concedia dotes de casamento que angariavam noivos e noivas bastante longe, porque os neg\u00f3cios eram sobretudo familiares, e tornava-se necess\u00e1rio assegurar agentes em diferentes pontos do globo.<\/p>\n<p class=\"indent\">Fora destes meios dos grandes neg\u00f3cios, estudados recentemente por Francisco Bethencourt (2024), os crist\u00e3os-novos que ficaram em territ\u00f3rio portugu\u00eas sobreviviam de forma prec\u00e1ria: limpavam a mancha de sangue atrav\u00e9s da fraude geneal\u00f3gica, subornavam agentes da autoridade, faziam conluios com testemunhas, ou permaneciam solteiros para evitar confrontarem-se com a fama de crist\u00e3-novice. Creio que a mem\u00f3ria social fosse muito mais profunda no per\u00edodo moderno do que hoje. As pessoas projetavam as suas recorda\u00e7\u00f5es para tempos muito recuados, correspondendo a duzentos anos e mais (da mesma forma que operava a \u201cf\u00e9 na lembran\u00e7a\u201d de que falou Wachtel, e eram capazes, de se lembrar das fam\u00edlias com ascend\u00eancia judaica. Creio que isso tamb\u00e9m tinha a ver com lugares, fam\u00edlias que conservavam os mesmos locais de resid\u00eancia ao longo do tempo, embora muitos dos seus membros emigrassem. Hoje em dia, o m\u00e1ximo que recuamos \u00e9 geralmente aos bisav\u00f3s, por vezes os trisav\u00f3s, mas nessa altura as pessoas sabiam, por mem\u00f3ria oral que se prolongava no tempo, quem eram as fam\u00edlias com \u201cmancha\u201d.<\/p>\n<p class=\"indent\">A historiografia sobre as comunidades crist\u00e3s tem muitos cultores na Europa e na Am\u00e9rica, em grande parte associada a historiadores de origem judaica. Todavia, a identifica\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os-novos \u00e9 muitas vezes imprecisa, porque estes s\u00e3o identificados de forma conjunta, sem trabalhar sobre um leque de fontes documentais que poderia informar com mais precis\u00e3o sobre a descend\u00eancia dos primitivos judeus. No que toca ao estudo dos negociantes, muitos desses trabalhos procedem como se n\u00e3o houvesse crist\u00e3os-velhos entre os mercadores de grosso trato, englobando-os no mesmo grupo, at\u00e9 porque para espanh\u00f3is e outros europeus dos s\u00e9culos XVI e XVII, a \u201cgente de na\u00e7\u00e3o\u201d podia designar os portugueses em geral, crist\u00e3os velhos e novos, embora o termo se aplicasse com maior justeza aos crist\u00e3os-novos (Studnicki-Gizbert 2007).<\/p>\n<p class=\"indent\">Esse trabalho de pesquisa pode ser feito a partir dos registos paroquiais, embora estes sejam posteriores aos batismos for\u00e7ados de 1497. Os batismos compuls\u00f3rios de ent\u00e3o obrigaram os judeus e judias a obliterar os seus nomes, trocando-os por apelidos crist\u00e3os. Mais ainda, desconhecem-se os crit\u00e9rios de escolha dos apelidos que tomaram a partir dessa data. S\u00f3 depois de 1564, com a promulga\u00e7\u00e3o dos decretos tridentinos em Portugal, os registos paroquiais passaram a ser obrigat\u00f3rios. Esse hiato documental dificulta o apuramento do in\u00edcio das linhagens crist\u00e3s-novas, agravado pelo facto de muitos das par\u00f3quias s\u00f3 terem cumprido essa determina\u00e7\u00e3o conciliar muito tarde, a par de prov\u00e1veis perdas documentais que algumas freguesias possam ter sofrido. Todavia, os processos das Inquisi\u00e7\u00f5es de Lisboa, Coimbra e \u00c9vora (em n\u00famero de quarenta e cinco mil entre 1536 e 1767), inclu\u00edam uma indaga\u00e7\u00e3o geneal\u00f3gica sobre a fam\u00edlia dos crist\u00e3os-novos acusados, e a partir dessas informa\u00e7\u00f5es podemos cruz\u00e1-las em alguns casos com os registos paroquiais.<\/p>\n<p class=\"indent\">Tamb\u00e9m podemos usar como fontes as provan\u00e7as ou habilita\u00e7\u00f5es em que cada pessoa se candidatava a uma institui\u00e7\u00e3o, correspondentes a inqu\u00e9ritos onde a limpeza de sangue era atestada por testemunhas residentes nos lugares de origem ou de morada dos requerentes. Temos ainda, toda a documenta\u00e7\u00e3o, em geral notarial, em que estas pessoas participaram (escrituras de dote, d\u00edvida, procura\u00e7\u00f5es, contratos comerciais, testamentos). Embora muitas fontes documentais estejam agora dispon\u00edveis por via digital, o cruzamento entre estas constitui um trabalho \u00e1rduo, e poucos o empreenderam at\u00e9 hoje a n\u00edvel de uma localidade, ficando-se por fam\u00edlias espec\u00edficas.<\/p>\n<p class=\"indent\">Uma das recentes tend\u00eancias historiogr\u00e1ficas consiste em colocar a identifica\u00e7\u00e3o de pessoas e o estudo das suas trajet\u00f3rias no centro da investiga\u00e7\u00e3o, o que permitir\u00e1 trazer dados novos. S\u00f3 este tipo de estudos permitir\u00e1 esclarecer estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia destas fam\u00edlias, bem como uma compara\u00e7\u00e3o, no caso das comunidades mercantis, entre o comportamento entre negociantes crist\u00e3os-novos e crist\u00e3os-velhos. Hoje a historiografia tenta fazer justi\u00e7a aos oprimidos da Hist\u00f3ria, e o estudo dos escravizados, e das minorias, por outro, tem recebido aten\u00e7\u00e3o preferencial. Os crist\u00e3os-novos constituem uma delas. Reconhecemos desde Foucault a import\u00e2ncia dos micro poderes, em que as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em determinadas configura\u00e7\u00f5es s\u00e3o essenciais para compreender processos hist\u00f3ricos. A aniquila\u00e7\u00e3o ou assimila\u00e7\u00e3o de muitos crist\u00e3os-novos parece ter estado dependente de momentos espec\u00edficos, em que um conjunto de circunst\u00e2ncias ditava o seu desenlace. Epis\u00f3dios como uma discuss\u00e3o, uma desaven\u00e7a p\u00fablica entre pessoas, simples inveja, ou competi\u00e7\u00e3o por recursos, podiam ditar as den\u00fancias \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o. Em contrapartida, para assegurar alguma sobreviv\u00eancia, talvez prec\u00e1ria, era importante aproveitar momentos favor\u00e1veis: a possibilidade de subornar testemunhas num processo de provan\u00e7a; influenciar o trabalho de um genealogista; aproveitar uma ocasi\u00e3o favor\u00e1vel para fazer um casamento com um crist\u00e3o-velho; ser solicitado para fazer um empr\u00e9stimo de dinheiro e pedir favores em contrapartida. O que motivou o sucesso dos crist\u00e3os-novos cujas estrat\u00e9gias de integra\u00e7\u00e3o individuais foram bem sucedidas?<\/p>\n<p class=\"indent\">O livro de Stuart Schwartz, intitulado <em>All can be saved: religious tolerance and salvation in the Iberian Atlantic world<\/em>, de 2010, sugere que muitas pessoas consideravam que qualquer um se podia salvar na sua f\u00e9. Para este autor, a toler\u00e2ncia existia nesta sociedade, ainda que nem sempre, em simult\u00e2neo com os referidos dispositivos persecut\u00f3rios. O autor recenseou numerosos depoimentos segundo os quais as pessoas consideravam, \u00e0 revelia da doutrina ortodoxa cat\u00f3lica, que podia haver salva\u00e7\u00e3o fora da igreja de Roma. Ent\u00e3o, podemos perguntar: porque \u00e9 que havia tantas den\u00fancias contra crist\u00e3os-novos? A resposta pode residir na luta por recursos econ\u00f3micos, pol\u00edticos e sociais que despoletava a conflitualidade destas sociedades. Para ser perseguido n\u00e3o bastava ter origem judaica: era necess\u00e1rio que algu\u00e9m acionasse os dispositivos de persegui\u00e7\u00e3o. Em muitos casos, a comunidade local preferia n\u00e3o o fazer. Como \u00e9 que se explica que alguns s\u00f3 fossem perseguidos depois de uma perman\u00eancia de d\u00e9cadas em determinada localidade, e outros nunca o tivessem sido? A resposta talvez resida em estudar casos concretos, n\u00e3o apenas em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias pessoais de cada visado, mas tamb\u00e9m das configura\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e pol\u00edticas locais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relembre-se o contexto da transforma\u00e7\u00e3o dos judeus em crist\u00e3os-novos.[1] Em finais de 1496, o rei D. Manuel I promulgou um \u00e9dito de expuls\u00e3o, que obrigava os judeus do reino a converter-se ou a abandonar o territ\u00f3rio portugu\u00eas. 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