{"id":4688,"date":"2024-11-11T06:00:34","date_gmt":"2024-11-11T06:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/veduta2024\/?p=4688"},"modified":"2024-12-22T22:09:56","modified_gmt":"2024-12-22T22:09:56","slug":"os-escravos-em-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/os-escravos-em-guimaraes\/","title":{"rendered":"Os escravos em Guimar\u00e3es: achegas para o seu estudo"},"content":{"rendered":"<p>A escravatura \u00e9 t\u00e3o antiga quando as sociedades humanas. Por Guimar\u00e3es as not\u00edcias de escravos remontam ao final da Idade M\u00e9dia, no entanto \u00e9 certo que por aqui os houve desde os tempos mais recusados. Durante a Reconquista, os mouros, presas de guerra, eram feitos escravos, do mesmo modo que os crist\u00e3os vimaranenses, foram escravizados nos assaltos que os \u201cgentios\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> fizeram \u00e0 vila e que conduziram \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o do castelo de Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p class=\"indent\">O per\u00edodo da massifica\u00e7\u00e3o da escravatura em Guimar\u00e3es coincide com a expans\u00e3o portuguesa e o aumento dos fluxos comerciais entre a Europa, \u00c1frica, Oriente e o Brasil. Inicialmente, os escravos vinham da \u00c1frica mu\u00e7ulmana com a conquista de Ceuta e outras cidades norte-africanas. Mais tarde, aquando da explora\u00e7\u00e3o da costa ocidental deste continente, os escravos subsarianos suplantam a escravatura moura. Em todos estes momentos as gentes de Guimar\u00e3es est\u00e3o presentes. Os vimaranenses envolveram-se, desde os seus prim\u00f3rdios, no movimento expansionista. Como resultado, tamb\u00e9m Guimar\u00e3es viu o seu mercado comercializar as presas de guerra. S\u00e3o conhecidas as fa\u00e7anhas dos contingentes vimaranenses na conquista de Ceuta, e documentam-se v\u00e1rios naturais que ao longo do s\u00e9culo XVI e XVII serviram naquela pra\u00e7a norte africana<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, assim como em T\u00e2nger<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> e noutras, envolvendo-se nos fluxos comerciais com a metr\u00f3pole<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Esta realidade demonstra o alinhamento de Guimar\u00e3es com os esfor\u00e7os da empresa expansionista. Muitos destes aventureiros inseriam-se nos fluxos comerciais mantendo contactos com mercadores da terra, fazendo circular mercadorias entre os seus espa\u00e7os e a metr\u00f3pole. Entre estas mercadorias os escravos mouros tamb\u00e9m se comercializavam.<\/p>\n<p class=\"indent\">J\u00e1 da odisseia africana al\u00e9m do Saara, tamb\u00e9m os houve, chegados \u00e0 vila ricos fruto do seu envolvimento no tr\u00e1fico negreiros ao longo da sua costa ocidental. Estamos em crer que um destes homens foi Valentim de Barros, cuja hist\u00f3ria sintetizamos num outro trabalho<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Valentim de Barros era primog\u00e9nito de Salvador Gon\u00e7alves, alfaiate e de Margarida de Barros. Em 1568 era \u201c<em>criado do Doutor Jo\u00e3o de Valadares desembargador d\u2019el rei Nosso Senhor\u201d<\/em>, morador na cidade de Lisboa<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. N\u00e3o sabemos se em nome pr\u00f3prio, ou de seu amo, partiu para \u00c1frica, seguindo as pisadas de seus tios que integraram o tr\u00e1fego comercial da rota do Cabo. Um chamado irresist\u00edvel que seria raz\u00e3o bastante para a sua partida ainda no final da d\u00e9cada de 60 in\u00edcio da de 70. Os notariais de Guimar\u00e3es apenas voltam a ecoar o nome deste Valentim de Barros em 1580, quando sua m\u00e3e, Margarida Gon\u00e7alves, dona vi\u00fava, faz uma procura\u00e7\u00e3o a seus filhos Jer\u00f3nimo de Barros e Domingos de Barros para <em>\u201creceber e cobrar em suas m\u00e3os quinze mil reis que v\u00eam da Mina de seu filho Valentim de Barros\u201d<\/em>. Como se v\u00ea pela escritura andava por estes anos pela \u00c1frica Ocidental.<\/p>\n<p class=\"indent\">O retorno definitivo a Guimar\u00e3es deu-se por volta de 1592. J\u00e1 distante dos tempos em que servira como criado, exibia agora o t\u00edtulo de cavaleiro-fidalgo e trazia consigo avultadas somas, investidas nas atividades econ\u00f3micas da vila<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. O servi\u00e7o prestado \u00e0 Coroa nas armas garantiu-lhe o foro de cavaleiro fidalgo, mas, considerando o seu envolvimento com a regi\u00e3o da Mina, \u00e9 quase certo que parte da sua fortuna se deveu tamb\u00e9m ao lucrativo com\u00e9rcio de escravos.<\/p>\n<p class=\"indent\">A merc\u00ea de cavaleiro fidalgo garantiu-lhe uma nova posi\u00e7\u00e3o na sociedade vimaranense, abrindo-lhe as portas dos estratos mais elevados da sociedade. Simultaneamente, refor\u00e7ou atrav\u00e9s de investimentos, as liga\u00e7\u00f5es aos mercadores e oficiais da vila, contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento da economia local.<\/p>\n<p class=\"indent\">Identificamos, assim, um fluxo cont\u00ednuo entre os territ\u00f3rios ultramarinos e Guimar\u00e3es, alimentado pelos seus naturais, que, direta ou indiretamente, se envolviam no com\u00e9rcio de escravos. Mesmo aqueles que n\u00e3o participavam nele ativamente, poderiam benefici\u00e1-lo ao legar por meio de heran\u00e7as um ou outro escravo.<\/p>\n<p class=\"indent\">Este cen\u00e1rio reflete a faceta escravocrata de parte da elite vimaranense. Mas, e a realidade contr\u00e1ria? E o vimaranense feito escravo? Tal situa\u00e7\u00e3o, embora menos conhecida, pode ser documentada. Muitos foram os cativos em terras mouras, fruto das constantes escaramu\u00e7as no Norte de \u00c1frica. Por\u00e9m, o risco da escravid\u00e3o n\u00e3o se limitava a essas regi\u00f5es. A navega\u00e7\u00e3o representava tamb\u00e9m uma amea\u00e7a constante. As costas portuguesas eram frequentemente assaltadas por cors\u00e1rios franceses, ingleses e, a partir do s\u00e9culo XVII, holandeses, al\u00e9m de piratas mu\u00e7ulmanos que perpetuavam os circuitos predat\u00f3rios desde a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p class=\"indent\">A hist\u00f3ria que passamos a relatar, embora situada na primeira metade do s\u00e9culo XVII, reflete tais perigos&#8230;<\/p>\n<p class=\"indent\">Domingos de Castro, natural do casal do Castro, freguesia de Serzedelo (Santa Cristina), nascido no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, cerca de 1608 e filho de Baltazar Louren\u00e7o e de sua mulher Vit\u00f3ria Gon\u00e7alves, partiu ainda jovem para o Brasil. O desenrolar dos acontecimentos retoma-se nas suas pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es perante a mesa do Santo Of\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p class=\"indent\">\u00ab(\u2026) Disse que indo de Portugal o ano de 1623, em abril a vinte e cinco dele e tem feito onze anos e dous meses da barra do Porto para as partes do Brasil a ganhar sua vida, sendo solteiro, de quinze anos de idade, foi tomado poucas l\u00e9guas da costa por um navio de Turcos em que vinha capit\u00e3o hum homem por nome <em>Calafates\u00e3o<\/em>, com outros companheiros que com ele iam no dito navio e os levaram a Argel e tentando o dito seu amo o converter e fazer turco a ele confitente, e intentando isto por muitos medos; assim de regales e cometimentos de fazenda, como ao depois de trabalhos grandes, e quando o viu que o n\u00e3o podia reduzir ao que pretendia, lhe disse que o havia de vender, por onde n\u00e3o tivesse liberdade como em feito fez, e o mandou para a Turquia, aonde foi em um navio, e a\u00ed foi vendido segunda vez a um capit\u00e3o de uma gal\u00e9 <em>AAmet Baxet<\/em> e servindo ao dito seu senhor oito anos ao remo sendo for\u00e7ado e vendo um turco criado do dito seu senhor por nome <em>Autidas<\/em>, que ele confitente, n\u00e3o podia suportar t\u00e3o grande trabalho lhe aconselhou, que se fizesse turco que ele o tiraria da gal\u00e9, e ele confitente movido do trabalho que padeceu oito anos e desejo que tinha de se ver em terra de crist\u00e3os [\u2026] se fez ent\u00e3o turco dizendo ao seu senhor que o queria ser contanto que o tirasse da gal\u00e9 e assim o fez o dito seu senhor e logo o circuncisaram e levantando o dedo para cima disse as palavras costumadas da lei de Maom\u00e9, que querem dizer em portugu\u00eas \u201cDeus um s\u00f3 verdadeiro, e Mafom\u00e1 seu profeta sobre todos e tomou o h\u00e1bito de turco, mas ele confitente tudo o sobredito fez e disse pela boca e sempre no cora\u00e7\u00e3o teve a f\u00e9 de Cristo Nosso Senhor, e nele se n\u00e3o apostou nunca dela e todos os dias rezava cinco padres nossos e cinco ave-marias \u00e0s chagas de Cristo Nosso Senhor que o n\u00e3o desamparasse e lhe abrisse caminho para se ver em terra de crist\u00e3os, e lhe pedisse perd\u00e3o de sua culpa, e andando neste estado tr\u00eas anos vindo em um navio a Argel de Turcos, se embarcou nas gal\u00e9s de Argel, por tomarem terra de crist\u00e3os, [\u2026] e chegando \u00e0 terra a que chama Cope no reino de Granada se meteu ele pela terra dentro com os mais soldados turcos para fazerem aguada, e vindo uma serra\u00e7\u00e3o de n\u00e9voa grande se escondeu apartando-se da companhia e se meteu pela terra dentro por vir deliberado a isso, [\u2026] \u00e0 cidade de Vera<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> do dito reino e se apresentou ao capit\u00e3o dela e logo se quis apresentar aos senhores inquisidores de Granada mas como era portugu\u00eas, o quis antes fazer nesta inquisi\u00e7\u00e3o e assi se veio caminhando, e tanto que aqui chegou se apresentou logo na mesa como fez confessando sua culpa e pedindo perd\u00e3o a Nosso Senhor e miseric\u00f3rdia a esta mesa (\u2026)\u00bb<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p class=\"indent\">O servi\u00e7o dos escravos nas gal\u00e9s e nas minas constitu\u00eda um dos trabalhos mais \u00e1rduos e desumanos pass\u00edveis de imaginar. O corpo e a resist\u00eancia f\u00edsica eram levados ao extremo, devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es extenuantes e \u00e0 total falta de salubridade. Domingos de Castro, ap\u00f3s oito longos anos de servid\u00e3o nestas embarca\u00e7\u00f5es, sentiu as suas for\u00e7as esva\u00edrem-se e o corpo ceder sob o peso do cansa\u00e7o. \u00c0 beira do colapso f\u00edsico e mental, e vendo a sua sobreviv\u00eancia amea\u00e7ada, acabou por ceder \u00e0 convers\u00e3o ao islamismo.<\/p>\n<p class=\"indent\">Este relato extraordin\u00e1rio oferece-nos uma vis\u00e3o impactante sobre escravatura, pelos olhos e viv\u00eancia de um natural.\u00a0 Simultaneamente, sintetiza uma realidade frequentemente esquecida: a priva\u00e7\u00e3o de liberdade \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o distingue cores nem credos.<\/p>\n<p class=\"indent\">Pelo que se escreveu at\u00e9 ao momento, \u00e9 poss\u00edvel concluir que a escravatura, dos prim\u00f3rdios da nacionalidade ao in\u00edcio da expans\u00e3o ultramarina, assumiu uma realidade multifacetada. Grande parte dos escravos que circulavam no reino eram, \u00e0 \u00e9poca, brancos. Apenas ap\u00f3s a consolida\u00e7\u00e3o de redes comerciais, sustentadas em pra\u00e7as forte na costa ocidental africana, \u00e9 que o mercado nacional passou a ser inundado por escravos negros, com os portugueses a assumir um papel central no tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico. Entre estes comerciantes de escravos, n\u00e3o faltam os naturais de Guimar\u00e3es que enriquecem \u00e0 custa deste lucrativo com\u00e9rcio<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">Estabelecido este enquadramento passaremos a analisar a escravatura no espa\u00e7o da vila de Guimar\u00e3es. \u00c9 importante esclarecer, desde j\u00e1, que este artigo n\u00e3o pretende ser uma hist\u00f3ria da escravatura em Guimar\u00e3es; muito mesmos qualquer an\u00e1lise sistem\u00e1tica desta complexa realidade. Os dados que reunimos t\u00eam origem em fontes diversas, com preval\u00eancia para o fundo notarial. S\u00e3o, todavia, dados limitados e dispersos que, por si s\u00f3, est\u00e3o longe de representar o todo do fen\u00f3meno analisado. Acreditamos que a realidade da escravatura na vila de Guimar\u00e3es seria muito mais vasta do que o fragmento aqui apresentado. Ainda assim, constituem um ponto de partida. Se este artigo servir para algo, que seja para abrir caminho a futuras an\u00e1lises deste fen\u00f3meno. Embora estudada a n\u00edvel nacional, com importantes refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas, a escravatura n\u00e3o mereceu ainda a devida aten\u00e7\u00e3o dos olhares locais.<\/p>\n<p class=\"indent\">Tal como no resto do pa\u00eds, a chegada de escravos a Guimar\u00e3es deve ter-se intensificado apenas a partir da segunda metade do s\u00e9culo XV, sendo j\u00e1 documentados na vila como propriedade dos poderosos, no final desse s\u00e9culo. Dentre os poderosos senhores de escravos destacavam-se os c\u00f3negos da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, cujas casas e s\u00e9quitos constitu\u00edam verdadeiros potentados financeiros resultantes dos r\u00e9ditos das suas prebendas, da acumula\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos (ou igrejas afetas \u00e0 Colegiada) e dos benef\u00edcios que retiravam do seu exerc\u00edcio enquanto c\u00f3negos de uma das mais poderosas institui\u00e7\u00f5es religiosas do pa\u00eds. A administra\u00e7\u00e3o desta imensa riqueza pertencia-lhes!<\/p>\n<p class=\"indent\">Um destes poderosos c\u00f3negos foi o chantre Pedro Afonso, que, constituindo uma enorme riqueza em vida, legou-a em morte, \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que o tornara poss\u00edvel, o mesmo Cabido que integrava. Pese embora o afirme mais do que uma vez que a sua riqueza apenas a ele se deve, seria impens\u00e1vel antev\u00ea-la, sem a liga\u00e7\u00e3o deste homem \u00e0 Colegiada.<\/p>\n<p class=\"indent\">Pertence-lhe, pois, uma das primeiras refer\u00eancias a escravos em Guimar\u00e3es. O seu escravo que deixa forro no testamento.<\/p>\n<p class=\"indent\">\u201c<em>Item, leixo o meu escravo preto for forro que far\u00e1 de sy ho que quiser por descarreguo de minha alma<\/em>\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_4732\" aria-describedby=\"caption-attachment-4732\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4732 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-1.gif\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"783\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4732\" class=\"wp-caption-text\">Testamento do c\u00f3nego Pedro Afonso 21-ago-1498<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"indent\">O descargo de sua alma, entenda-se \u201cde sua consci\u00eancia\u201d, levam este homem de Deus, a alforriar o seu escravo, procurando com esta atitude ser favorecido no momento do ju\u00edzo, aliviando o peso da sua alma pecadora.<\/p>\n<p class=\"indent\">Desconhecemos a quantidade de escravos negros que chegaram \u00e0 vila ap\u00f3s a primeira metade do s\u00e9culo XVI, mas \u00e9 indiscut\u00edvel que aqui chegaram. O caso do c\u00f3nego Pedro Afonso, ser\u00e1 apenas um exemplo, provavelmente repetido em casas de outros c\u00f3negos e cavaleiros fidalgos da vila, onde continuavam a encontrar-se escravatura moura. Um s\u00e9culo depois, essa mesma realidade repetia-se na casa do c\u00f3nego Ant\u00f3nio do Canto, que al\u00e9m de uma escrava moura, possu\u00eda tamb\u00e9m escravos negros, como adiante se ver\u00e1.<\/p>\n<p class=\"indent\">Reunindo os nossos dados, que, como se disse, resultam de uma an\u00e1lise de documentos diversos, entre 1540-1612, constatamos uma primeira e ineg\u00e1vel realidade que corrobora a liga\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es aos grandes fluxos do com\u00e9rcio mundial de escravos: a grande diversidade de origens:<\/p>\n<ol>\n<li>Africana: mu\u00e7ulmanos<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, berberes, et\u00edopes<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> e subsarianos;<\/li>\n<li>Americana: ind\u00edgenas<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>;<\/li>\n<li>Indiana: casta guzarate<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4717 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-2.png\" alt=\"\" width=\"1584\" height=\"826\" srcset=\"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-2.png 1584w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-2-300x156.png 300w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-2-1024x534.png 1024w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-2-768x400.png 768w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-2-1536x801.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1584px) 100vw, 1584px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"indent\">Relativamente \u00e0 tipologia de documentos consultados, aqueles que referem um maior n\u00famero de escravos s\u00e3o, como n\u00e3o poderiam deixar de ser, as cartas de alforria, com um total de 15 escravos, ou seja 27% do total observado. Seguem-se as vendas, com 9 escravos, 16%; dotes de casamento, com 8 escravos, 14% e procura\u00e7\u00f5es com 7 escravos, 13%. Relativamente a esta \u00faltima tipologia de documentos, merecem particular especifica\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do seu interesse. Embora a maioria destes documentos correspondam a procura\u00e7\u00f5es para recolha de heran\u00e7as que inclu\u00edam escravos<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>, ou para ca\u00e7ar escravos foragidos<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>, identifica-se algumas que atribuem ao escravo a\u00e7\u00f5es de responsabilidade na representa\u00e7\u00e3o do seu amo, o que n\u00e3o deixa de ser curioso pois estes n\u00e3o t\u00eam identidade jur\u00eddica. Nestes casos, sendo o escravo uma propriedade, o amo acabava por se representar a si pr\u00f3prio atrav\u00e9s de um seu bem. Diogo Gon\u00e7alves da \u00cdndia, abastado cavaleiro mercador, tornado \u00e0 terra da \u00cdndia onde fez fortuna, passou uma procura\u00e7\u00e3o a 28 de julho de 1564 a \u201cAnt\u00f3nio Lopes ferreiro morador em Vila Real e a Pedro, ar\u00e1bico, escravo dele constituinte\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. A Senhora Catarina Francisca, dona vi\u00fava, de Manuel do Porto, passou uma procura\u00e7\u00e3o a seus filhos, genro e escravo, Mateus,\u201d para que em seu nome e de seus filhos menores requererem de sua justi\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>. Atos de responsabilidade maior que parecem subentender a possibilidade de estes escravos serem instru\u00eddos, muito provavelmente saberiam ler e escrever. A sua origem, Ar\u00e1bia e \u00cdndia, poder\u00e1 contribuir para perceber os papeis que lhe s\u00e3o atribu\u00eddos. Tratam-se de escravos provenientes de civiliza\u00e7\u00f5es com um n\u00edvel cultural que, em alguns aspetos, mereceram admira\u00e7\u00e3o dos ocidentais.<\/p>\n<p class=\"indent\">Na continuidade da an\u00e1lise do gr\u00e1fico seguem-se nove escravos nomeados em testamentos, dos quais cinco s\u00e3o identificados num \u00fanico testamento, o do c\u00f3nego Ant\u00f3nio do Canto, de que adiante trataremos, ou seja, 9% da observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"indent\">Por \u00faltimo, na categoria <em>outros <\/em>agregamos uma variedade consider\u00e1vel de documentos, representando um total de 12 escravos, 21% da observa\u00e7\u00e3o. Temos instrumentos de partilhas como o dos irm\u00e3os Rebelo de Macedo, dos Macedo de Souto, nos qual Fern\u00e3o Rebelo de Macedo, cavaleiro fidalgo, primog\u00e9nito, Bento de Macedo, estudante da Universidade de Coimbra e Francisco Rebelo de Macedo morador no casal da Costa, em Souto (S\u00e3o Salvador), todos filhos de Manuel Rebelo de Macedo e de Margarida Lopes Ferreira, partilham entre si os seis escravos herdados dos pais: Pedro, preto; Ana, parda; Domingas, mulata; Francisca, mulata; Lu\u00edsa e Manuel mulatos<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>. Instrumentos de perd\u00e3o, como o que d\u00e1 o fidalgo Est\u00eav\u00e3o Louren\u00e7o de Miranda a Belchior Fernandes, morador na Rua de Santa Luzia, sobre certo ferimento que este fizera a seus escravos Manuel e Paulo<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>. Instrumento de quita\u00e7\u00e3o no qual o cirurgi\u00e3o Miguel Torres e sua mulher Madalena da Silva d\u00e3o por quite o senhor Francisco Lamano, cavaleiro fidalgo e sua mulher a Senhora Maria Gon\u00e7alves, da cura que fizera \u00e0 senhora Maria Gon\u00e7alves num Bra\u00e7o e assim \u00e0 cura que fizera a sua escrava Ant\u00f3nia<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>. Como \u00faltimo exemplo da variedade de documento que elencamos sob a categoria de outros destacamos um instrumento de desist\u00eancia de demanda de via de transa\u00e7\u00e3o, Leonel Gon\u00e7alves, alfaiate, \u201calfaiate homem solteiro ferido e lan\u00e7ado em sua cama\u201d<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> desistia da demanda que tinha contra quem o ferira e, entre estes, encontramos a Pedro, escravo do c\u00f3nego Ant\u00f3nio do Canto, homem preto.<\/p>\n<p class=\"indent\">Inclu\u00edmos ainda neste rol um processo do Santo Of\u00edcio que envolve Gaspar Antunes, familiar da Inquisi\u00e7\u00e3o. Em 1599, durante o ano da terr\u00edvel peste, Gaspar Antunes, enquanto exercia o cargo de almotac\u00e9 no a\u00e7ougue da vila, espancou violentamente com recurso \u00e0 vara de almotac\u00e9 a Ant\u00f3nio, um escravo negro pertencente a Ant\u00f3nio da Costa Barcelos. O escravo acabou por morrer na cadeia da correi\u00e7\u00e3o, para onde foi levado ap\u00f3s o incidente. Ant\u00f3nio da Costa Barcelos levou o caso \u00e0 justi\u00e7a, exigindo ser compensado pela perda de seu escravo.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em sua defesa, Gaspar Antunes alegou que o escravo o teria agredido ao atirar-lhe um osso, e que a morte de Ant\u00f3nio n\u00e3o se deveu \u00e0s agress\u00f5es, mas sim \u00e0 peste que assolava a vila, causando a morte a muitos prisioneiros da cadeia. Sendo um familiar do Santo Of\u00edcio, o caso foi julgado pela Inquisi\u00e7\u00e3o de Coimbra, onde toda essa hist\u00f3ria foi documentada<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4718 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-3.png\" alt=\"\" width=\"1584\" height=\"918\" srcset=\"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-3.png 1584w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-3-300x174.png 300w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-3-1024x593.png 1024w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-3-768x445.png 768w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-3-1536x890.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1584px) 100vw, 1584px\" \/><\/p>\n<p class=\"indent\">Seguidamente, distribu\u00edmos o total de escravos por grupo socioecon\u00f3mico de perten\u00e7a. No imediato, perfilha-se uma estrutura social onde a nobreza representa o grupo social com maior n\u00famero de escravos. Nada que nos surpreenda e em perfeita sintonia com aquilo que era a realidade social na Idade Moderna. A seguir destaca-se a Igreja, com os poderosos c\u00f3negos da Colegiada a encabe\u00e7ar o rol; depois, v\u00eam os mercadores, alguns oficiais mec\u00e2nicos e, com um escravo encontramos um lavrador abastado da principalidade<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>. Trata-se de Pedro Martins, senhor do dom\u00ednio \u00fatil do casal de Silvares, por outro nome Golpilhais<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>, em Silvares (Santa Maria), que possu\u00eda um escravo que engravidou uma mulher solteira.<\/p>\n<p class=\"indent\">Esta realidade que, entendemos, seria incomum no s\u00e9culo XVI, ir\u00e1 difundir-se ao longo dos s\u00e9culos XVII e XVIII, tornando-se frequente identificar a presen\u00e7a de escravos em casas dos lavradores mais abastados das freguesias. As origens deste fen\u00f3meno, estavam intimamente ligadas \u00e0 di\u00e1spora portuguesa pelos territ\u00f3rios ultramarinos. Muitos foram aqueles que, sa\u00eddos da terra, alcan\u00e7aram o sucesso e enviavam escravos para a casa m\u00e3e, com a qual mantinham contato atrav\u00e9s de redes comerciais estabelecidas. Outros, regressavam com o objetivo de ascender aos patamares da nobreza, fazendo-se acompanhar do seu s\u00e9quito de escravos e com um objetivo em mente, adquirir a propriedade dos seus maiores. Desta forma, n\u00e3o seria dif\u00edcil deparar com um escravo negro na \u00e1rea rural de Guimar\u00e3es por este per\u00edodo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Os casos a analisar<\/h2>\n<p>Os casos que nos propomos destacar, espelham diferentes tipo de tratamento dados aos escravos, dos mais desumanos e vis, aos mais enternecedores. Refletem acima de tudo, a \u00edndole humana, mas n\u00e3o deixam de nos levar a uma viagem no tempo e criar empatias com estas almas sofredoras, num per\u00edodo em que a Europa Cat\u00f3lica mantinha uma amb\u00edgua e contradit\u00f3ria com a escravatura. Se por um lado, como vimos, a Igreja Cat\u00f3lica foi uma das benefici\u00e1rias da escravatura (por Guimar\u00e3es documenta-se que o Mosteiro de S\u00e3o Francisco e o Mosteiro da Costa eram propriet\u00e1rios de escravos<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>), por outro, alguns dos seus te\u00f3logos n\u00e3o deixaram de levantar cr\u00edticas morais contra o sistema, sobretudo no que dizia respeito ao tratamento desumano dado aos escravos.<\/p>\n<p class=\"indent\">Se para alguns, a escravid\u00e3o era uma forma justa de puni\u00e7\u00e3o \u00e0 vida de pecado dos escravos, enquanto pag\u00e3os; para outros, como Bartolom\u00e9 de Las Casas (no caso dos \u00edndios), a escravid\u00e3o era vista como uma contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 mensagem crist\u00e3 de igualdade e dignidade de todos os seres humanos; o que o levou a denunciar a brutalidade da escravatura, pedindo uma abordagem mais humana. Contra o tratamento dos ind\u00edgenas brasileiros levantou a voz o padre Ant\u00f3nio Vieira defendendo de forma veemente os direitos dos ind\u00edgenas, criticando o tratamento brutal a que eram submetidos pelos colonos. J\u00e1 relativamente \u00e1 escravatura africana, o mesmo n\u00e3o foi t\u00e3o vocal e cr\u00edtico, encarando-a como parte da ordem social e econ\u00f3mica da \u00e9poca, sem questionar profundamente sua legitimidade. No entanto, Ant\u00f3nio Vieira insistia que os escravos africanos deviam ser tratados com dignidade crist\u00e3. Apesar de escravos, n\u00e3o deixavam de ser seres humanos dotados de alma, que precisavam de ser evangelizados e tratados com uma certa compaix\u00e3o, mesmo no seio de um regime escravocrata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Boas a\u00e7\u00f5es e m\u00e1s a\u00e7\u00f5es\u2026<\/h3>\n<h3>O caso de Sebasti\u00e3o Zambrocas Pl\u00ednos<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1587 o Mosteiro de S\u00e3o Francisco de Guimar\u00e3es tinha um escravo. Nada que constitu\u00edsse uma surpresa no s\u00e9culo XVI. Chamava-se Sebasti\u00e3o Zambrocas Plinos. Era diligente no seu servi\u00e7o para evitar os castigos dos frades e, em particular, os do s\u00edndico. Certo dia, Zambrocas, sofreu um aleij\u00e3o que, desgra\u00e7adamente, o incapacitou para o servi\u00e7o. Seria de esperar que os modestos franciscanos cuidassem de amparar o seu escravo face a esta adversidade. Bem, esta seria a hist\u00f3ria romanceada&#8230; Na realidade, o s\u00edndico<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>, homem de neg\u00f3cios, dominado pela necessidade do lucro, tratou de convencer os frades a vender o escravo de forma minimizar as perdas do Mosteiro, \u00ab<em>por sentir que o dinheiro do dito escravo ser\u00e1 mais servi\u00e7o de Deus gastar-se em obras pagas do dito Mosteiro<\/em>\u00bb<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>. E l\u00e1 se mandou Zambrocas a vender ao Porto por se cuidar a\u00ed haveriam mais compradores.<\/p>\n<p class=\"indent\">O tratamento dado a Zambrocas revela uma profunda desumaniza\u00e7\u00e3o, onde o escravo, ao perder a capacidade de trabalho, perde tamb\u00e9m o seu valor. A venda de Zambrocas no Porto, para garantir maior retorno financeiro, exemplifica a brutalidade de um sistema que via os escravos apenas como instrumentos de lucro, sem espa\u00e7o para compaix\u00e3o ou solidariedade. Este epis\u00f3dio mostra como a escravatura era conduzida com frieza e desprezo pelos valores humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>A alforria de Bartolomeu Afonso Caneiros<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bartolomeu Afonso Caneiros, natural de Ferment\u00f5es (Santa Eul\u00e1lia) foi mercador de grosso trato, cremos ter vivido na Cidade de Sevilha parente em grau desconhecido de Diogo Afonso Caneiros, tamb\u00e9m mercador, senhor da quinta de Caneiros na mesma freguesia.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 15 de abril de 1570, no seu casal da Ponte, em Ferment\u00f5es (Santa Eul\u00e1lia), afetado j\u00e1 pelo passar dos anos \u201caleijado da m\u00e3o direita de paralisia\u201d alforria sua escrava Maria\u2026<\/p>\n<blockquote><p>\u00ab(\u2026) estando ele Bartolomeu Afonso presente disse perante mim tabeli\u00e3o p\u00fablico e das testemunhas ao diante nomeadas que vendo ele o muito bom servi\u00e7o que Maria mulata sua escrava lhe tinha feito a qual ele criara desde o dia de seu nascimento em sua casa e a vontade amor e limpeza com que ela o servira sempre e tinha nela confian\u00e7a que enquanto vivesse o serviria e tamb\u00e9m por sentir assim ser servi\u00e7o de Deus Nosso Senhor e obra de miseric\u00f3rdia e que seria em desconto de seus pecados este bem que fazia e por outros justos e honestos respeitos que a isso o moviam lhe aprazia como aprouve de forrar e haver por forra e isenta de cativeiro a dita Maria sua escrava e bem assim a In\u00eas, Catarina, Gon\u00e7alo e Ant\u00f3nio todos filhos dela Maria para que como livres assim eles como a dita sua m\u00e3e Maria possam fazer de si o que quiserem e por bem tiverem e isto depois da morte dele Bartolomeu Afonso que enquanto viver servir\u00e3o com muito amor vontade limpeza e obedi\u00eancia e pede muito por merc\u00ea a todas as justi\u00e7as a que o conhecimento desta carta d\u2019alforria e isen\u00e7\u00e3o de cativeiro pertencer e tocar livremente hajam aos ditos Maria e In\u00eas e Catarina e Gon\u00e7alo e Ant\u00f3nio m\u00e3e e filhos por forros livres e isentos como que se tal sujei\u00e7\u00e3o de cativeiro nunca tiveram e os deixem entrar e passar por onde quiserem sem a eles nem em cada um lhe fazer mol\u00e9stia vexa\u00e7\u00e3o pens\u00e3o nem inquieta\u00e7\u00e3o alguma o que como dito \u00e9 seja depois da morte dele Bartolomeu Afonso [\u2026] e assim disse mais o dito Bartolomeu Afonso que era contente de dar \u00e0 dita Maria uma casa sobradada de um andar que est\u00e1 junto do forno \u00a7\u00a7 uma delas por serem duas para a dita Maria com seus filhos morem e vivam na dita casa e em vida dela somente contanto que viva bem e virtuosamente e por sua morte ou indo-se ela da dita casa fique outra vez ao casal e assim a cama que ela tem e tiver e se achar por morte dele e uma ou duas caixas \u00a7\u00a7 uma grande e outra pequena [\u2026]\u00bb<a href=\"#_edn30\" name=\"_ednref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4719\" aria-describedby=\"caption-attachment-4719\" style=\"width: 1584px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4719 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1584\" height=\"1240\" srcset=\"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-4.jpg 1584w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-4-300x235.jpg 300w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-4-1024x802.jpg 1024w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-4-768x601.jpg 768w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-4-1536x1202.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1584px) 100vw, 1584px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4719\" class=\"wp-caption-text\">Carta de Alforria de Bartolomeu Afonso Caneiros a sua escrava Maria e filhos. AMAP: Cota Nova 9-1-1-3-1<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4720\" aria-describedby=\"caption-attachment-4720\" style=\"width: 1584px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4720 size-full\" src=\"http:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-5.jpg\" alt=\"\" width=\"1584\" height=\"1240\" srcset=\"https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-5.jpg 1584w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-5-300x235.jpg 300w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-5-1024x802.jpg 1024w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-5-768x601.jpg 768w, https:\/\/veduta.aoficina.pt\/18\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/8-5-1536x1202.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1584px) 100vw, 1584px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4720\" class=\"wp-caption-text\">Carta de Alforria de Bartolomeu Afonso Caneiros a sua escrava Maria e filhos. AMAP: Cota Nova 9-1-1-3-1<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"indent\">Esta carta de alforria revela n\u00e3o apenas o desejo de libertar Maria e seus filhos do cativeiro, mas tamb\u00e9m um profundo v\u00ednculo de confian\u00e7a e respeito que se desenvolveu ao longo dos anos entre o amo e a escrava. O documento oferece-nos um vislumbre de humanidade e compaix\u00e3o que transcende a rela\u00e7\u00e3o t\u00edpica entre senhores e escravos da \u00e9poca, sugerindo que, em alguns casos, as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas podiam ser permeadas por sentimentos de afeto e gratid\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"indent\">O facto de a alforria ser assumida como descargo de consci\u00eancia, para \u201cdesconto de seus pecados\u201d, evidencia bem a quest\u00e3o humana ligada \u00e0 escravatura e a consci\u00eancia de que a liberdade era um princ\u00edpio do bem e a falta desta, um princ\u00edpio do mal. O facto de vincar que sempre os tratou como livres, permitindo-lhes circular sem nunca os tolher nem constranger, \u00e9 significativo quanto \u00e0 consci\u00eancia que tinha do tratamento que se davam aos escravos.\u00a0 Uma clara familiaridade parecem unir Maria a Bartolomeu Afonso, tanto assim que este a criou desde o dia de seu nascimento. Evidencia uma genu\u00edna preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro de Maria e seus filhos, garantindo-lhe casa e cama enquanto ela viver, entenda-se, honradamente.<\/p>\n<p class=\"indent\">Bartolomeu Afonso, j\u00e1 avan\u00e7ado em idade e debilitado por uma paralisia na m\u00e3o direita, fundamenta a sua decis\u00e3o de libertar Maria em dois importantes fatores:<\/p>\n<ol>\n<li>primeiro, menciona explicitamente o \u201cmuito bom servi\u00e7o\u201d que Maria lhe prestou durante toda a vida, destacando que foi criada desde o seu nascimento sob o seu teto, sugerindo um longo la\u00e7o de conviv\u00eancia;<\/li>\n<li>segundo, reconhece o \u201camor, limpeza e obedi\u00eancia\u201d com que Maria sempre o serviu, confiando que essa dedica\u00e7\u00e3o continuaria enquanto ele vivesse. Essa confian\u00e7a, e a certeza de que ela o serviria com o mesmo carinho, mostram que a rela\u00e7\u00e3o transcendeu os limites da servid\u00e3o e do cativeiro habitual, possivelmente transformando-se numa parceria baseada no respeito m\u00fatuo.<\/li>\n<\/ol>\n<p class=\"indent\">A preocupa\u00e7\u00e3o de lhe garantir um futuro ap\u00f3s a sua morte, \u00e9 tamb\u00e9m not\u00e1vel. Al\u00e9m de libert\u00e1-la, junto com os seus filhos, Bartolomeu Afonso providencia-lhe uma casa onde possa viver com dignidade e seguran\u00e7a, enquanto for viva. Esta doa\u00e7\u00e3o, juntamente com os m\u00f3veis, como a cama e as caixas, reflete uma preocupa\u00e7\u00e3o genu\u00edna com o bem-estar dela e dos filhos, garantindo-lhes condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"indent\">O documento destaca o desejo de Bartolomeu de que Maria viva \u201cbem e virtuosamente\u201d, o que revela o senso de responsabilidade e cuidado que sobre ela nutria se mant\u00e9m, mesmo ap\u00f3s lhe conceder a liberdade.\u00a0 Tal como uma boa crist\u00e3, era imperioso que Maria mantivesse uma conduta exemplar, o que refor\u00e7a a preocupa\u00e7\u00e3o moral do amo em rela\u00e7\u00e3o ao seu futuro.<\/p>\n<p class=\"indent\">Por \u00faltimo, ao solicitar \u00e0s autoridades que reconhe\u00e7am e respeitem a liberdade de Maria e dos seus filhos, Bartolomeu Afonso procura assegurar que a sua vontade seja cumprida, sem que eles sofram persegui\u00e7\u00f5es ou mol\u00e9stias ap\u00f3s a sua morte. Este ato final denota um senso de prote\u00e7\u00e3o que ele estende a Maria, mesmo al\u00e9m do seu tempo de vida, completando assim um gesto que vai al\u00e9m das meras formalidades de uma alforria.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em suma, Bartolomeu Afonso demonstra uma faceta de humanidade, compaix\u00e3o e cuidado com sua escrava Maria e seus filhos, que poder\u00e1 levar-nos a equacionar a possibilidade de estes poderem ser seus filhos.<\/p>\n<p class=\"indent\">No contraponto entre estes dois documentos, constatamos que o caso de Zambrocas exp\u00f5e o lado impiedoso e comercial do sistema esclavagista, onde a utilidade e o lucro suplantavam qualquer preocupa\u00e7\u00e3o moral ou religiosa. J\u00e1 o caso de Bartolomeu Afonso e sua escrava revela, se assim se poder\u00e1 dizer, uma \u201cdimens\u00e3o humana da escravatura\u201d onde o afeto e a responsabilidade pelo escravo prevalecem.<\/p>\n<p class=\"indent\">Por \u00faltimo, e ainda relativamente \u00e0s cartas de alforria, o documento mais representado na nossa amostra, \u00e9 poss\u00edvel identificar curiosas determina\u00e7\u00f5es dos senhores de escravos ap\u00f3s a concess\u00e3o da sua liberdade. Registamos aqui dois casos;<\/p>\n<p class=\"indent\">Carta de alforria que deu Marcos Fernandes, cavaleiro-fidalgo, a seu escravo Lu\u00eds.<\/p>\n<p class=\"indent\">\u00ab[\u2026] a qual alforria lhe faziam contanto que ele Lu\u00eds ser\u00e1 obrigado a acompanhar para a Igreja a ela senhora Catarina Mendes e Maria Vieira sua filha todos os Domingos e dias Santos estando na terra e n\u00e3o estando na terra n\u00e3o ser\u00e1 a isso obrigado [\u2026]\u00bb<a href=\"#_edn31\" name=\"_ednref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a><\/p>\n<p class=\"indent\">Carta de alforria que fez Gaspar Gomes a Isabel sua escrava, mulher ba\u00e7a,<\/p>\n<p class=\"indent\">\u00ab[\u2026] para que ela de hoje em diante fa\u00e7a de si o que quiser contanto que o sirva por tempo de um ano e por um ano depois da sua morte ir em Romaria a todas as festas e feiras [\u2026]\u00bb<a href=\"#_edn32\" name=\"_ednref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p class=\"indent\">A an\u00e1lise destas duas cartas de alforria revela que, mesmo ap\u00f3s ser concedida a liberdade, o escravo perpetua a condi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o \u00e0 determina\u00e7\u00f5es do seu senhor, no primeiro caso, sempre que se aproximar da terra, no segundo, uma obriga\u00e7\u00e3o p\u00f3s-morte do senhor que conserva o v\u00ednculo da servid\u00e3o al\u00e9m da morte do senhor. Embora os senhores os liberassem da servid\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es impostas nas alforrias demonstram uma tentativa de manter algum grau de controle ou depend\u00eancia sobre os libertos, mesmo ap\u00f3s a emiss\u00e3o do documento legal que lhes concedia a liberdade.<\/p>\n<p class=\"indent\">No primeiro exemplo, Marcos Fernandes, ao libertar Lu\u00eds, imp\u00f5e a obriga\u00e7\u00e3o deste acompanhar sua esposa e filha \u00e0 igreja em dias espec\u00edficos, mas com uma exce\u00e7\u00e3o territorial (n\u00e3o estando na terra, Lu\u00eds estaria dispensado). Mesmo liberto, Lu\u00eds continua ligado \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o anterior, mantendo uma depend\u00eancia simb\u00f3lica e pr\u00e1tica \u00e0 vida familiar e \u00e0s observ\u00e2ncias religiosas da casa. Podemos olhar esta atitude de Marcos Fernandes, como uma demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de dom\u00ednio sobre o ex-escravo, escolhendo a igreja como o espa\u00e7o comunit\u00e1rio de reafirma\u00e7\u00e3o do seu status, onde torna vis\u00edvel essa rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica; al\u00e9m de cuidar do necess\u00e1rio recato aos membros femininos do agregado.<\/p>\n<p class=\"indent\">Na segunda carta, o v\u00ednculo de servid\u00e3o que unia Gaspar Gomes e Isabel n\u00e3o \u00e9 totalmente rompido; este continua, mesmo que temporariamente, ap\u00f3s a morte do senhor. Essa determina\u00e7\u00e3o prolonga o dom\u00ednio sobre Isabel, ao transform\u00e1-la numa servidora da mem\u00f3ria e da honra do ex-senhor, mesmo depois de sua morte.<\/p>\n<p class=\"indent\">Essas condi\u00e7\u00f5es, embora aparentemente secund\u00e1rias, mostram que a liberdade concedida n\u00e3o era plena, mas condicionada e, em certo grau, limitada. Os ex-escravos, mesmo libertos, encontravam-se vinculados a determinadas obriga\u00e7\u00f5es que perpetuavam a hierarquia social e o dom\u00ednio senhorial.<\/p>\n<p class=\"indent\">Destas determina\u00e7\u00f5es pode concluir-se que, a concess\u00e3o de alforrias, n\u00e3o era um ato puramente benevolente ou uma rutura completa com o passado de servid\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, estas cartas mostram como os senhores tentavam preservar a sua influ\u00eancia e o controle social sobre os escravos al\u00e9m da alforria, perpetuando um legado de submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O escravo face \u00e0 velhice<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>O c\u00f3nego Ant\u00f3nio do Canto<\/h3>\n<p>O c\u00f3nego Ant\u00f3nio Canto, arcipreste da Colegiada era filho de Jo\u00e3o Anes do Canto e de sua primeira mulher Francisca da Silva Nasceu na rua das Mostardeiras, Guimar\u00e3es cerca de 1500. Foi criado por seu irm\u00e3o Pedro Anes do Canto, que lhe deixou a leg\u00edtima de seus pais e o seu of\u00edcio de escriv\u00e3o do Mestrado da Ordem de Cristo e Bispado do Funchal, <em>\u00abo que tudo fiz por afei\u00e7\u00e3o que lhe tinha por que o criei comigo na corte de moso de nove annos\u00bb<\/em>. Serviu como criado de D. Diogo Pinheiro, vig\u00e1rio de Tomar e Prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. Foi o primeiro arcipreste da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e foi senhor da Quinta de Vila Verde em Urgeses (Santo Est\u00eav\u00e3o), Guimar\u00e3es, al\u00e9m de muitas outras propriedades. Teve a merc\u00ea da administra\u00e7\u00e3o da capela institu\u00edda na Madeira por Gon\u00e7alo Camelo e sua mulher.<\/p>\n<p class=\"indent\">Redigiu o seu testamento em 1555, e dele consta ser senhor de cinco escravos:\u00a0 Pedro, da Guin\u00e9, Jo\u00e3o, mouro, Beatriz, moura, e Fernando (filho de Beatriz) e Jorge. Estas s\u00e3o as determina\u00e7\u00f5es que deixa em testamento relativamente aos seus escravos:<\/p>\n<ul>\n<li>Todos deveriam ser alforriados exceto Jorge.<\/li>\n<li>A Pedro e Jo\u00e3o ensinem o of\u00edcio de tosadores ou alfaiates \u00e0 custa da fazenda de seu amo.<\/li>\n<li>A Fernando, habilitem a cl\u00e9rigo, \u201cpara que rogue a Deus por minha alma pecadora\u201d<\/li>\n<li>A Beatriz, casem e agasalhem com seu filho Fernando, caso n\u00e3o queira casar.<\/li>\n<li>Todos devem ser perfeitamente vestidos e cal\u00e7ados.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Raz\u00e3o pela qual Jorge n\u00e3o \u00e9 alforriado<\/h3>\n<p>\u00ab(\u2026) n\u00e3o forro Jorge porque \u00e9 muito velho e tem mais necessidade de ter quem lhe d\u00ea com cativeiro e repairo que d\u2019alforria mando a minha filha que o tenha em casa e lhe d\u00ea bom cativeiro e o tratem bem e repaire e com isso me far\u00e1 a vontade e haver\u00e1 a minha ben\u00e7\u00e3o e eu ei que isto \u00e9 melhor que alforria e mando que nunca seja vendido nem dado salvo o tenha a dita minha filha Mab\u00edlia do Canto, e estas despesas atr\u00e1s que se fizerem com estes meus escravos sobreditos mando que se fa\u00e7\u00e3o do monte mor de toda minha fazenda (\u2026)\u00bb<\/p>\n<p class=\"indent\">Mais de um s\u00e9culo depois outros senhores de escravos, adotam uma atitude completamente diferente face \u00e0 velhice dos seus escravos. Tratam-se dos senhores da casa dos Coutos, atual Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o. Ant\u00f3nio do Couto Ribeiro, mercador, familiar do Santo Of\u00edcio, sargento-mor da comarca e fidalgo casa real, e sua mulher Dona Lu\u00edsa Joaquina de Abreu.<\/p>\n<p class=\"indent\">Em 21 de agosto de 1762, o sargento-mor e a sua esposa decidem, atrav\u00e9s de um procurador, alforriar Mateus e Ant\u00f3nia, pretos, seus escravos, o motivo \u00e9 expresso na carta de alforria; al\u00e9m da improdutividade, a velhice impossibilitava os castigos que se impunham aos escravos desobedientes de que resultaria por certo a sua morte. Citam-se alguns excertos:<\/p>\n<blockquote><p>\u00ab(\u2026) eles constituintes eram senhores e possuidores de muitos anos a esta parte sem contradi\u00e7\u00e3o alguma de dois pretos seus escravos a saber Mateus e Ant\u00f3nia, ambos casados recebidos um com o outro, e por atenderem que estes j\u00e1 se achavam em idade decrepita, pelo qual os n\u00e3o1 podiam servir com aquela prontid\u00e3o que deviam e al\u00e9m do referido o que mais era, o dito seu escravo Mateus, na aus\u00eancia o dito seu senhor, ser menos obediente, a sua mulher dele, Ant\u00f3nio do Couto Ribeiro e mais pessoas de sua casa, como tamb\u00e9m ter atrevimento de descompor, e arremeter a seu cunhado Manuel de Meireles Freire a quem na sua aus\u00eancia havia cometido \u00e0 administra\u00e7\u00e3o dos ditos pretos, por cujos motivos e outras circunst\u00e2ncias, n\u00e3o era de sua vontade, daqui em diante mais usar da servid\u00e3o dos ditos escravos; mas antes por se condoer, de lhe dar rigorosos castigos para sua emenda e satisfa\u00e7\u00e3o de semelhantes absurdos, como se costuma fazer a semelhantes escravos, desobedientes, atendendo a estarem adiantados em anos; os queriam por isentos da sua escravid\u00e3o [\u2026] e por esta raz\u00e3o lhe davam carta de alforria (\u2026)\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"indent\">A liberdade \u00e9 concedida sob a condi\u00e7\u00e3o de que os escravos \u00ab(\u2026) n\u00e3o tornariam mais a esta vila de Guimar\u00e3es, e menos quinze l\u00e9guas de sua dist\u00e2ncia, s\u00f3 o que excedesse a elas em redondo, sob pena de que fazendo o contr\u00e1rio, serem presos e lhe n\u00e3o valer a presente carta de alforria mas antes ficarem sujeitos aos ditos seus constituintes como escravos que at\u00e9 ao presente foram e lhe darem ou mandarem dar os castigos que merecem (\u2026)\u00bb<\/p>\n<p class=\"indent\">Um escravo velho n\u00e3o tinha qualquer serventia. Com o avan\u00e7ar da idade e das limita\u00e7\u00f5es da\u00ed decorrentes, o escravo deixava de ser produtivo, transformando-se num oneroso fardo para o seu senhor.<\/p>\n<p class=\"indent\">Mat\u00e1-los pesava demasiado \u00e0 consci\u00eancia crist\u00e3, da\u00ed que, uma das alternativas para resolver o problema seria alforri\u00e1-los e deix\u00e1-los entregues \u00e0 sua liberdade, ou seja, ao abandono. Deambulavam ent\u00e3o que nem c\u00e3es vadios pelas ruas, at\u00e9 que fome os tombasse, ou fossem validos por uma das v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de caridade de ent\u00e3o. Mas esta \u201cliberdade\u201d a ser gozada deveria acontecer longe, vedada aos olhos dos vimaranenses, noutra terra, para que se escondesse das melhores consci\u00eancias o definhar dos corpos desvalidos, al\u00e9m de impedir que, como homens livres, usassem da palavra junto da comunidade para ventilar podres que conheceriam de seus senhores ap\u00f3s d\u00e9cadas de escravatura em suas casas.<\/p>\n<p class=\"indent\">Os dois documentos revelam comportamentos diametralmente opostos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 velhice dos seus escravos. Estas diferen\u00e7a de atitudes revela sobretudo uma distin\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter. Enquanto o c\u00f3nego Ant\u00f3nio do Canto demonstra um senso de responsabilidade e humanidade ao garantir cuidados a Jorge, os Couto Ribeiro evidenciam uma atitude pragm\u00e1tica e impiedosa, onde a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos \u00e9 mais um ato de conveni\u00eancia do que de compaix\u00e3o. A compara\u00e7\u00e3o entre estas duas atitudes revela como o car\u00e1ter pessoal e a moralidade dos senhores influenciaram diretamente o tratamento dos escravos idosos, destacando a complexidade e a diversidade das rela\u00e7\u00f5es de compaix\u00e3o e poder na sociedade escravocrata.<\/p>\n<p class=\"indent\">Esta reflex\u00e3o pretendeu, com base num conjunto diversificado de fontes, proporcionar uma vis\u00e3o abrangente da escravatura em Guimar\u00e3es, visando abrir novas linhas de investiga\u00e7\u00e3o sobre essa realidade a n\u00edvel local. Foi elaborada com o objetivo de ser apresentada e debatida numa mesa redonda sobre o tema \u201capelidos das comunidades \u00e0 margem\u201d. Todavia, como dela se pode depreender, pouco ou nada oferecemos relativamente aos apelidos dos escravos! Uma realidade reveladora. A identidade do escravo era fortemente cerceada ao ponto de lhe ser obliterada. Raramente os nomes dos escravos s\u00e3o mencionados na documenta\u00e7\u00e3o; geralmente, a \u00eanfase recai sobre sua condi\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o de posse, com destaque para o nome do senhor. Isto ilustra bem a situa\u00e7\u00e3o dos escravos. Dos v\u00e1rios casos analisados, apenas tr\u00eas mencionam um apelido: Sebasti\u00e3o Zambrocas Pl\u00ednos, Jo\u00e3o Fa\u00e7anha e Jo\u00e3o Coutinho. Deste, somente o \u00faltimo pode ser relacionado diretamente ao seu amo, Fern\u00e3o Coutinho, Comendador de Brito. Esta ser\u00e1 talvez a \u00fanica linearidade relativamente \u00e0 ado\u00e7\u00e3o dos apelidos dos escravos. Quando o apelido \u00e9 adotado, evidencia a liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca \u00e0 casa de seu senhor, funcionando como uma marca de posse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escravatura \u00e9 t\u00e3o antiga quando as sociedades humanas. 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