“Caminhos em volta” das esculturas públicas em Guimarães

Mónica Faria

Para a realização do programa “Caminhos em Volta” das esculturas públicas em Guimarães foi projetado um conjunto de atividades: um roteiro para visitar arte pública, um livro de artista coletivo e uma performance para comer as estátuas.

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Capa e primeira página do livro de artista coletivo, após a caminhada “Caminhos em Volta”
Design gráfico: Maria Azevedo/ Desenhos: Alice Prata, Evandro Renan, Maria Azevedo, Mónica Faria/ Participantes: Manuel Fernandes, Danielly e Paulo

Passo a passo:
· Decidiu-se as obras de arte pública a visitar;
· Fez-se um livro de artista coletivo, com tiragem de 25, para orientar e mapear o caminho à volta da arte pública, a realizar-se no dia 19 de julho de 2025;
· No dia da caminhada, cada participante apresenta-se e recebe um livro de artista coletivo para se orientar. No local, a informação é partilhada e os sentidos ativados pela performance de Marta Lima com o título “Desta vez não quero edificar, quero partilhar. Outra vez…”;
· Após a caminhada, convidam-se os participantes a devolver a sua intervenção, ou experiência da vivência dos “Caminhos em Volta”, sem qualquer obrigatoriedade.

Um roteiro para visitar arte pública

O programa “Caminhos em Volta” é uma oportunidade para conhecer, passear, deambular, parar, pensar, recolher conhecimento dentro de um território físico, simbólico, material e imaterial pertencente a Guimarães. Faz parte da programação cultural d’A Oficina, Casa da Memória e este ano, com a participação de várias mãos e vozes foi criado um percurso capaz de narrar histórias mas também de serem comidas: tanto as histórias como as esculturas.

O périplo teve início na Casa da Memória de Guimarães, passou pelo Largo do Toural, Largo da Misericórdia, Jardim da Alameda de S. Dâmaso, Largo da Mumadona, Campo da Ataca e terminou na Penha.

As histórias circundam nomes como: Irene Vilar, Abel Salazar, Filipe Vilas Boas, Ana Jotta, artesãos vimaranenses da talha, do ferro, da estatuária, Maria Manuel Oliveira, Afonso Henriques, João Cutileiro, Hernâni Moreira, Fernando Doutel, Gomes Alves, Gouveia Portuense, Francisco Maia, Martins Sarmento, António Azevedo, Sequeira Braga, Gil Vicente, Álvaro Brée, Mumadona, Afonsinhos, Augusto Vasconcelos, José Luís Pina, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, S. Cristóvão, Pio IX, Pedro Afonso Pequito.

A motivação nos primeiros rascunhos para a coordenação desta atividade surgia vinda de algures, da memória numa frase, que tinha lido, “Divirto-me com as histórias que me contam sobre mim…”.

Obrigada, Irene Vilar.

Frase reencontrada na página 58 do catálogo da exposição “IRENE VILAR do gesto ao gesso”, Matosinhos, novembro de 2004 até 15 janeiro de 2005. Museu da Quinta de Santiago.

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Fotografia da Alice Prata. Mesa redonda de 8 de março de 2025.
Da esquerda para a direita: Jorge Palinhos, Marta Lima, Maria Manuel Oliveira, Mónica Faria, Fátima Ferreira

Movidas pelas primeiras emoções conversadas em torno de uma mesa - arriscaria dizer, uma escultura com forma de mesa - na Casa da Memória, desenhou-se para este encontro, realizado a 19 de julho, um conjunto de informações e ações passíveis de colocar em questionamento o lugar da arte pública do bronze e da pedra - estável, imutável - para a arte pública dos sentidos e da presença - efémera, falada, comunitária - ambas pertencentes à esfera da memória, da identidade, da partilha.

Primeiramente, que esculturas são estas, as que de Guimarães fazem moradia? Quem as conhece? Quem com elas fala? Que contam elas sobre mim, sobre o outro? Sobre o passado, ou sobre o tempo? Que tempo, e em quanto tempo?

Num segundo olhar, com quem converso sobre elas? Que público é este? É aquele que mora, ou o que distraído passa? É quem pára, ou aquele que curioso, espreita?

A partir da fala da arquiteta Maria Manuel Oliveira sobre a Requalificação Urbanística da Praça do Toural, Alameda de S. Dâmaso e Rua de Santo António, “se os objetos que colocamos no espaço produzem lugar, então não consigo vê-las como obras isoladas, mas antes como parte integrante do significado no espaço em geral”, e da historiadora Fátima Ferreira que nesta mesma conversa referia que “mais do que falar em contexto histórico, o importante é pensar em todas estas manifestações, incorporadas de ideologia, caso contrário, elas não fazem sentido. Mas isso tanto se coloca relativamente ao passado, como se coloca relativamente ao presente. Sem querer impor códigos nem regras, como é que é possível termos uma arte pública que nos permita viver melhor?” (Excertos retirados da conversa aquando da mesa redonda de 8 de março, convidando, a quem tiver curiosidade, a ouvir todas as apresentações em: https://arquivo.casadamemoria.pt/cdmg/repositorio/pesquisa.php)

Inquietou-se a multidão que se quis apropriar deste lugar, ou desta ideologia, ou por um misto de emoções quis forçar estas estátuas a moverem-se, foi em sonhos ou projetadas nas ideias? Nem que fosse pelo vislumbre de uma viagem no tempo, no elemento dos desejos, dos pensamentos, esta multidão envolveu-se manifestando-se e sendo parte integrante dos significados e simbologias. Renovando-as? Movendo-as? Para onde vão? É lícito ou ilícito destruir uma obra de arte, sendo ela pública? Podemos mudá-las? Quem são? Será possível comer, digerir, a memória e a identidade?

Um livro de artista coletivo

Para esta atividade, a dos Caminhos em Volta, o movimento é obrigatório. A proposta para percorrer as ruas e as praças por onde as esculturas se sentam, se alongam… entender quem são estas personae que estáticas mexem com o ritmo urbano, psicogeográfico, visual, simbólico… pensar nos locais onde estão colocadas, por baixo das árvores, numa fonte, ao lado do banco para se sentar… conhecer os seus autores: escultores, arquitetos, artistas, ceramistas, artesãos…

Fizemos o levantamento de possibilidades. Decidimos o roteiro, sabendo que quando escolhemos umas, deixamos de lado tantas outras. Acreditamos que essas ficam nos seus lugares à espera de outras visitas, noutros tempos, com outras vontades. A escultora Marta Lima estudou formas, sabores, escalas, temperos para nos convidar a comer estas esculturas.

Para não partirmos do nada ou do vazio, ou para não darmos um salto para o desconhecido, juntamos um grupo de intervenientes para apresentar o percurso que ía acontecer e algumas informações das esculturas que lá se encontravam. Nas páginas vazias, no espaço vazio à volta das informações que existiam, pretendia-se que as pessoas se juntassem a escrever, desenhar, pintar no calor do momento, no próprio dia. A Maria e o Evandro desenharam. A Alice e a Marta cozinharam. A Maria ainda fez o design gráfico.

Depois do dia 19 de julho, a Danielly, o Paulo e o Manuel devolveram os seus sentidos materializados em letras. Dessa forma, acrescentamos mais uma camada: de sentimentos, de pertenças e do que foi este encontro:

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Apontamentos partilhados por Danielly e Paulo

Foi tão prazeroso, que não podíamos deixar de partilhar os resultados visuais que esta experiência proporcionou. Esperamos que seja um deleite para quem vê.

Quem não foi conhecer, ainda pode ir, ouvir, ver, sentir, questionar, propor… pois a cidade move-se!

Quem quiser consultar o livro de artista coletivo pode fazê-lo procurando os autores, assim como quem quiser visitar as estátuas pode fazê-lo procurando-as na cidade… mas também pode ficar por aqui e acreditar no que vê.

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Arquivo de imagens, que constitui o livro de artista com tiragem de 25 exemplares

Uma performance para comer as estátuas

Sobre a performance, a arte pública contemporânea tem esta energia, a da efemeridade, da experiência, de provocar memórias, de participar na ação - não podemos convidar ninguém a saborear estas esculturas que foram visitadas, comidas e que compõem este conjunto de experiências. Mas fica aquele cheirinho sobre a obra autoral da escultora Marta Lima com a matéria do pão e um registo fotográfico da performatividade da obra “Desta vez não quero edificar, quero partilhar. Outra vez…” criada especificamente para esta atividade e que aconteceu ao longo deste “Caminhos em Volta” das Estátuas Públicas em Guimarães.

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Incluído no livro de artista, como póster de apresentação do trabalho autoral da escultora Marta Lima (frente e verso)
fig.6
Fotografias de Rui Costa, caminhada com a performance de Marta Lima (frente e verso)