A Arte Pública, Eu e a Fotografia de Autor – Olhar para as Cidades sem Ver o Todo
Aproveito este momento que a Veduta me proporciona para sintetizar a minha atitude e motivação nos momentos em que estou a fotografar os Espaços ou Territórios Urbanos e Elementos Artísticos Público-Urbanos.
Em cada projecto Editorial assumi o compromisso do acto fotográfico como Prática e como Conceito...
Em cada texto abordo circunstancialmente os meus compromissos ideológicos e praxis fotográficas, sociais e culturais...
Monserrate, um Mar Inquietante de Rostos Próprios
(MONSERRATE é uma freguesia da cidade de Viana e fica situada na zona ribeirinha. É urbana e piscatória...)
Permita-me, caro leitor, uma confissão esclarecedoramente íntima e, por extensão, ponderadamente comedida e absolutamente irredimível. Sem relativismos e sem mais vai assim:
Sou Pastor por misteriosa predestinação parental e, em sentido metafórico, sou circunstancialmente por inspiração subliminar de Italo Calvino colector de imagens exclamativas, secretas e síncronas.
Tanto por dever de memória como por ocultação indistinta sou, importa-me sublinhar, essas duas coisas – ou, tal como os deuses as conhecem, transmudadas condições essenciais. Ambas irreprimíveis.
Talvez por isso – quem sabe se só por isso –, ano após ano de forasteiras e rescaldadas danças e contradanças alienígenas, a fotografia foi dando origem além do devido a novas formas de perscrutar e de olhar, até aí reservadas, ao relato espontâneo, instintivo e mecânico da vida quotidiana.
Com efeito fui aprofundando directamente, contra a profusão e a proliferação alienígena de imagens orais e escritas, o conhecimento da comunidade monserranense por onde o meu olhar intermediado mas enigmático, secreto mas detalhado, obediente mas voraz e deleitoso, foi colhendo por detrás da câmara enigmática contínuos fragmentos e deslumbramentos, deslindados, é certo, com conformação histórica, sociológica e pouco método – durante muito tempo Monserrate não passou, digo-o com algum exagero incontido, de uma exígua extensão ripícola e de um acanhado centro ribeirinho.
Mas a ronca e o elegante farol contudo, mesmo nos dias de inesquecíveis agonias, já não me instigavam ao medo. Caminhei assim muitas vezes a fio em busca do que me fugia ou, a todos, nos fugia. Apontei assim
becos, ruas, pátios, largos e vielas. Tentei perscrutar os piíssimos naturais e residentes e, em simultâneo, sentir o que nos queriam dizer os diversos autores com as suas expressões públicas. Tentei ainda entender sem esmorecimento as diversas propostas, algumas claramente surpreendentes, dos diferentes arquitectos e artistas.
Ademais revisitei, necessariamente como gato em telhado de zinco quente, muita das estremecidas e redescobertas práticas culturais de natureza exclamativamente tradicional. Tal como os aventais e, apenas dois escassos exemplos, os bordados em «ponto richelieu».
E no final tentei agregar e harmonizar, numa perspectiva limitadamente antropológica, o espaço de todos os monserranenses e, por que não, vianenses. Transformei em livro o que senti e entendi, renegando o que por acréscimo amorfo e uniformizador não importava. Tentei, perseguindo outra vertente fotográfica, marcar o colectivo com rostos vincadamente próprios, personalizados e singulares: vinquei-lhes os afectos e os olhares por trás da Câmara Clara como nos legou, entre outros, o inesquecível Roland Barthes.
E não poucas vezes, numa feliz composição alquímica, intrometi os instantes no meu inconformado discurso fotográfico.
Carreço, Ano da Graça de 2024
Arte Pública – Guimarães
“...Em todas as cidades do império cada um dos edifícios é diferente e disposto segundo uma diferente ordem: mas assim que o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar para o meio daquela pilha de pagodes e trapeiras e celeiros, seguindo os gatafunhos de canais, hortas, lixeiras, distingue logo quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a estalagem, a prisão, a judiaria.
Assim – há quem diga – confirma-se a hipótese de que cada homem traz na mente uma cidade feita só de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, e são as cidades particulares que a preenchem.”
Ao re-visitar a minha cidade de berço, quis vê-la não me importando o todo, os conjuntos urbanistícos ou históricos. Não quis perceber porque motivo se colocaram as diferentes esculturas ou intervenções artísticas em cada local. Não me apeteceu entrar em pesquisas mais ou menos explicativas das suas diferentes implantações, aceitando desde logo que terá havido motivos, casuísticos ou não, para as suas colocações. Não me preocuparam essas questões, nem tão pouco desejei perceber o singular que coexiste com os vários “todos” da cidade.
Importou-me e inquietou-me, isso sim, entender e mostrar cada Elemento Escultórico ou Artístico que cohabita sobretudo com os vivos. E sobretudo ver o essencial de cada escultura como se de uma visão macro se tratasse. Perceber o escultor, o artista e entender o que nos propõe de cada personagem ou tema tratados. Aceitar a obra de arte no seu corpo global, como objecto público, nas suas emoções internas e retirar “a parte” como se fora um parágrafo.
Por isso, obriguei-me a não ver a cidade nem a permitir que a memória me atraísse e traísse para os velhos olhares. Foquei os olhos como se fosse uma tele-objectiva com uma profundidade de campo exígua.
“... — Viajas para reviver o teu passado? – era agora a pergunta do Imperador Kublai Kan, que também podia ser formulada assim: — Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco Polo: — O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.”
Este livro é uma viagem do detalhe, do pormenor onde falo das mortes, das vidas vividas, das mais antigas às mais recentes. Falarei de uns, os que ainda vivem pela imagem e que estão no nosso centro cívico. Do que foram, do que já passou, do que já não existe, ...aliás um discurso e uma conduta da fotografia documental. Aqui a Fotografia ajuda à aproximação desses personagens aos cidadãos comuns.
Curiosa a diferença com os Retratos dos cemitérios, a cidade dos mortos. A outra cidade em que cada um tem nome próprio mas dormindo fora do convívio com os vivos. A imagem de cada cidadão é aqui pessoal, familiar e talvez por isso tende a ser vista como a sua fotografia. A fotografia “tipo-passe” das pessoas comuns, humanizadas. Quando nos deparamos com uma fotografia e talvez porque a Imagem Fotográfica aparenta rigor de representação inquestionável, aceitamo-las como verdadeiras, reais e por essa razão mais próximas, mais comuns. Representa aquele que já viveu.
Mas nas cidades temos as Estátuas, as Esculturas ou as Imagens dessas personagens que “vivem” connosco na urbe. As suas representações (que os escultores nos propõem) e talvez por isso se tornam mais longínquas para o cidadão porque talvez entendidas como personagens não comuns ao meio social e familiar. É-lhes atribuído, pelas Esculturas, Imagens ou Estátuas, uma importância e estatuto social incomum.
Ao contrário da fotografia temos com as esculturas uma maior distância e assumimos psicologicamente que são a Representação ou a Imagem de personagens / pessoas distantes de nós. De alguém que foi importante...
O meu propósito consistiu em transformar aquelas Representações, as Esculturas ou as Estátuas, em fotografias deles próprios como pessoas que o terão sido. Metamorfoseei-os, pela fotografia, em pessoas comuns. Iguais a todos nós, com família, amigos...como aquelas pessoas comuns das cidades dos mortos...os cemitérios.
Converti, fotograficamente falando, o detalhe em referente e assim tentei promover uma aproximação destas Representações com os habitantes da Cidade dos vivos. E deste modo, e com atrevimento fotográfico, tentei imputar-lhes intimidade e humanizá-los.
Assim apresento-vos este Roteiro de Arte Pública pela cidade que cada um de nós recria continuadamente.
Carreço 2025
Viana do Castelo, roteiro por algumas memórias
...debrucei-me sobre Viana como um imenso “mar arqueológico” e escavei como se de uma praia gigantesca se tratasse.
Escavações que me poderiam levar por mares e marés muito longínquas no tempo e na memória. Para tempos de Outros muito antigos navegantes. Para cemitérios de praias mortas ou citânias desmemoriadas...
Preferi apanhar as correntes mais suaves e aportar em lembranças mais próximas.
Desembarquei em praias sedutoras, edifícios elegantes, em ruas e praças com charme exagerado, e em personagens sofisticados, profundos e densos como o mar. Todavia sempre luminosos.
Trabalhei com todos como referências históricas, sociais e culturais, como ingredientes dum mar mais profundo. Mas nunca para os dissolver, reduzir ou enfraquecer, mas para os discernir e com isso tentar que este projecto que se chama “Viana, roteiro por algumas memórias” fosse o resultado das suas distintas e dialécticas relações. E deste modo, contribuir para que Viana do Castelo se possa assumir como uma Marca Cultural identitária e simultaneamente diferenciadora. É um propósito glorioso, mesmo uma herança, que temos de saber avocar.
Quanto mais pesado for o fardo, como diria Milan Kundera, mais próximo da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
E foi com esta atitude e com estes propósitos que fotografei o “Casco Velho”, as suas ruas, as praças e a da República também. Igrejas, palácios, casas comuns, espaços, o café Américo... Mas também os encantos das belíssimas e sublimes praias, em que precisei de atrevimento para as descobrir e re-fotografar. Por instantes fui atrás do tempo histórico. Por instantes recompus e registei espaços e lembraças distantes e oxidadas das memórias dos nossos mares e das suas viagens. Ou para além de tudo, apropriando-me do controverso heterónimo, Alberto Caeiro, direi:
“Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar”...
E claro, fui em busca daqueles Homens e Mulheres que pelas suas diversas e distintas expressões estéticas envolveram esta nossa Viana em mais encanto e aroma. Procurei entender o poder que o Olhar sobre o Mar lhes doou. E, mais importante, compreender as diversas vidas destes singulares personagens e as suas particulares formas de sentir o mundo.
Sem excessivo êxtase procurei reunir para memória futura o que em Viana é autêntico, inequívoco e ainda transporta.
Vanham-nos também os inebriantes testemunhos de Ruben A., Sarah Afonso, Pedro Homem de Mello, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, José Rodrigues, José de Brito, Couto Viana, Manuel Granjeio Crespo, Alfredo Margarido, Álvaro Salema, Álvaro Feijó, Abel Viana, António Pedro, Carlos Eurico da Costa, Amadeu Costa, Carolino Ramos, Fernando Passos, Rocha Páris, Luis de Lima. E, por adição de partes, acresço a passagem de Ana Plácido que não foi só a companheira de Camilo, mas também uma escritora com alma própria.
Este projecto é um singelo contributo para que cada vez mais nos conheçamos e possamos asumir como uma cidade alternativa, um território diferenciador e desta forma possamos construir Culturalmente uma alternativa quotidiana.
Cabedelo 2024