Abertura
A Veduta chega à sua 19.ª edição com a maturidade serena — e simultaneamente inquieta — de quem olha para o próprio percurso e reconhece nele uma linha contínua de curiosidade, rigor e abertura ao território de Guimarães e aos olhares externos. Desde o seu início, esta revista nasceu do desejo de fixar, não apenas acontecimentos, mas modos de ver: os gestos que constroem a imagem de uma cidade, as relações que se desenham entre práticas artísticas, memória colectiva e vivências quotidianas. Ao longo destes anos, caminhámos entre arquivos e ruas, entre processos criativos e modos de habitar, procurando sempre um equilíbrio entre a análise crítica e a sensibilidade atenta ao que, por vezes, passa despercebido.
Esta edição propõe-se aprofundar essa vocação, tomando como eixo a relação entre pessoas e escultura pública no contexto urbano de Guimarães. Não se trata apenas de reconhecer o valor estético ou patrimonial das obras, mas antes de pensar a forma como estas intervêm silenciosamente na vida da cidade: como orientam passos, marcam encontros, sugerem memórias, provocam reflexão ou confronto. Muitas destas esculturas, disseminadas por praças, jardins e arruamentos, foram sendo integradas no quotidiano de tal modo que parecem quase invisíveis — e, no entanto, continuam a ser presenças determinantes na paisagem simbólica e emocional da comunidade.
O tema emerge num momento particularmente significativo, em que a discussão pública sobre o papel da escultura urbana se intensifica e se diversifica. Fala-se da necessidade de preservar, de documentar, de contextualizar; mas fala-se também da urgência de interrogar o que estas obras significam hoje, num tempo em que as cidades se fragmentam em múltiplos discursos e pertenças. Em Guimarães, onde a história convive com sucessivas camadas de renovação, a escultura pública assume-se como mediadora entre passado e presente, revelando tanto as permanências como as tensões do espaço comum.
A Veduta 19 procura, assim, dar tempo e pensamento a estas interacções subtis entre obra e cidadão. Não nos limitamos a mapear esculturas, mas a escutar os modos como elas são vividas: a familiaridade que se cria com uma figura estática ao longo de anos; o questionamento perante uma peça deslocada ou pouco compreendida; o impacto de uma nova instalação no imaginário da cidade; a forma como a arte pública modela percursos diários, mesmo sem que disso tenhamos plena consciência. Interessa-nos captar o espaço entre a obra e o olhar — esse intervalo onde se forma a experiência estética e, porventura, a experiência cívica.
Num tempo em que tantas vezes se discute o que é “público”, o que é “comum”, o que é “memória”, esta edição pretende contribuir para um debate mais amplo sobre o lugar da arte no tecido urbano e sobre a importância de preservar, não apenas as obras, mas também as histórias, afectos e debates que elas mobilizam. Se a escultura pública se move — física ou simbolicamente — também nós nos movemos com ela: interrogamo-la, interpretamo-la, redefinimo-la. E é justamente nessa reciprocidade que se constrói uma cidade mais consciente, mais crítica e mais sensível aos seus próprios sinais.
É esse movimento — feito de pedra, de bronze, de gestos humanos e de olhares atentos — que esta edição procura acompanhar e amplificar. Convidamos, pois, cada leitor a caminhar connosco por entre estas obras e a descobrir, ou redescobrir, as múltiplas formas como a escultura pública participa na vida de Guimarães. Porque, no fim, é sempre no diálogo entre pessoas e lugares que a cidade se revela plenamente.