As artes integradas na arquitectura moderna, um património a [re]descobrir – o caso do Café Milenário
Nos anos do imediato pós-Guerra e, sobretudo durante as décadas de 1950 e de 1960 o discurso disciplinar em torno da arquitectura moderna sofreu profundas transformações na procura de caminhos de aproximação ao homem e da sua comunidade. Os efeitos traumáticos da guerra terão motivado a re-examinação da ortodoxia funcionalista preconizada nos primeiros Congrés Internationaux d’Architecture Moderne [CIAM] e a busca por valores universais assentes na colaboração e na humanização da arquitectura. Uma das vias para alcançar a desejada humanização estava projecção de uma Nova Monumentalidade assente na colaboração e no exercício da Síntese das Artes1, um programa arquitectónico e artístico que preconizava a integração de obra plástica, de pintura e de escultura, na arquitectura moderna.
Propagado internacionalmente, do movimento da Síntese das Artes resultou na edificação de um património de acrescido valor artístico e de características próprias, claramente identificáveis. Este património é também sintomático de uma época em que os Cursos de Arquitectura, Pintura e Escultura eram leccionados nas mesmas Escolas de Belas-Artes sendo as colaborações o resultado natural desses anos formativos e das relações profissionais aí iniciadas.
No entanto, apesar de consagrado pelo Movimento Moderno2, este património não tem sido objecto de estudo e atenção. Consequentemente, também, as artes plásticas integradas nesta tipologia de obra tendem a ser ignoradas, estando praticamente omissas dos estudos de arquitectura e arte e, invisíveis para quem diariamente com elas convive. Esta generalizada desatenção tem vindo a resultar na sua gradual descaracterização, alteração ou até mesmo destruição3.
Como exemplo deste movimento internacional4 destaca-se em Guimarães, o Café Milenário projectado pelo arquitecto Fernando Doutel da Silva (1919-1959), com a colaboração dos pintores Gouveia Portuense (1907-1976) e Francisco Maia (1912-1979) e do escultor Hernâni Moreira, inaugurado no Largo do Toural a 14 de Novembro de 1953.
Apesar das obras de escultura e de pintura nele integradas terem sido reconhecidas e noticiadas à época da inauguração do estabelecimento5, sete décadas depois, o trabalho realizado em colaboração por este grupo, a identidade dos autores e as obras que individualmente realizaram especificamente para este local são praticamente desconhecidas, sendo omitidas da bibliografia geral sobre escultura ou específica sobre este café6.
Este breve artigo pretende motivar a curiosidade sobre esta tipologia patrimonial e sobre as intervenções artísticas que integram este emblemático espaço de ócio e lazer. Ao mesmo tempo, pretende valorizar o Café Milenário, ao posicioná-lo como um dos mais visitados exemplos desta corrente arquitectónica e artística do Movimento Moderno Internacional, em Guimarães.
I. O Café Milenário e a equipa de projecto
O Café Milenário resulta de uma encomenda do comerciante Manuel Fernandes Braga (da empresa Braga & Carvalho)7 ao arquitecto Fernando Doutel da Silva, no ano de 1953. O nome Milenário terá sido escolhido para evocar o milenário da fundação de Guimarães celebrado nesse mesmo ano, e que foi assinalado com a realização de várias festividades e eventos8.
Localizado numa das principais praças da cidade, o Milenário viria rapidamente a tornar-se um dos principais locais dedicados ao lazer e ao convívio em Guimarães9, condição que mantém até hoje [fig. 1 e 2].
fig.1Café Milenário
Vista desde a Praça do Toural
© Miguel Oliveira, 2025
fig.1Café Milenário
Vista interior
© Miguel Oliveira, 2025
De acordo com o projecto original, passível de analisar pelas fotografias realizadas à época da abertura do café10 uma vez que não foi possível localizar a respectiva Licença de Obras11, o Milenário organizava-se em dois pisos, e à semelhança de muitos cafés desta época, na sala principal, ao nível térreo, localizava-se um quiosque e um bar12. Os pilares e os espaços entre os vãos são revestidos a mármore e, grandes superfícies espelhadas ampliam o espaço criando interessantes efeitos perspéticos [fig. 3]. O pavimento é revestido a marmorite com inclusão de motivos decorativos em latão e o mobiliário é constituído por cadeiras em tábuas de madeira e mesas com tampos em vidro. A iluminação difusa encontra-se inserida nas sancas do tecto, enquanto alguns focos e apliques concentram pontos de luz em locais específicos. Alguns destes elementos terão sido desenhados pelo próprio arquitecto, como era habitual nesta época em que os arquitectos, pensando na globalidade da obra, desenhavam muitos dos equipamentos que a integravam.
Café Milenário
Vista interior
© Foto Beleza, 1953
Ao lado do bar e rematando-o à direita posicionava-se um mural cerâmico de grandes dimensões realizado pelo pintor Gouveia Portuense. Sinalizando a zona de bar marcava também, com uma viva nota de cor, o acesso ao piso inferior. Ainda na sala principal, a todo o comprimento situava-se uma pintura a fresco de Francisco Maia [fig. 4 e 5] e, junto ao bar, um relevo com o ex-libris do Café Milenário [fig. 3]. O piso inferior possuía uma decoração menos exuberante. Incluindo mobiliário semelhante ao da sala principal incluía numa das paredes, um baixo-relevo representando o nascimento de Vénus realizada pelo escultor Hernâni Moreira [fig. 6].
fig.4Café Milenário
Vista interior integrando pintura mural de Francisco Maia, bar e painel cerâmico de Gouveia Portuense
© Foto Beleza, 1953
fig.5Café Milenário
Vista interior integrando pintura mural de Francisco Maia, bar e ex-libris
© Foto Beleza, 1953
Café Milenário
Vista do piso -1 integrando relevo de Hernâni Moreira
© Foto Beleza, 1953
A decoração e o design de mobiliário e dos equipamentos assim como as obras de arte concorriam para a configuração de um ambiente único, moderno e sofisticado [fig. 7].
Café Milenário
Vista do piso -1 integrando relevo de Hernâni Moreira
© Foto Beleza, 1953
Café Milenário
Vista geral
© Miguel Oliveira, 2025
Quanto aos artistas que integraram o programa artístico do Café Milenário pouco é conhecido e, na investigação realizada no âmbito deste trabalho, não foi encontrada documentação que informe sobre a natureza das relações entre os Donos da Obra, o Arquitecto e os Artistas.
O arquiteto Fernando Doutel da Silva tinha formação em Arquitectura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Enquanto aluno desta instituição de ensino foi aluno de, entre outros, dos arquitectos David Moreira da Silva e João Andresen. De entre os seus colegas e contemporâneos contam-se Luís Pádua Ramos, Siza Vieira e Alfredo Matos Ferreira, alunos do Curso de Arquitectura, Adelino de Souza Felgueiras e António Quadros do Curso de Pintura e Gustavo Bastos, Irene Vilar e Dario Boaventura do Curso de Esculturas13. Quando projectou o Café Milenário frequentava a ESBAP, não tendo ainda efetuado o tirocínio obrigatório à apresentação da prova final do Curso de Arquitectura, o Concurso para a Obtenção de Diploma de Arquitecto [CODA]14.
Gouveia Portuense, pseudónimo de Manuel de Gouveia Coutinho de Távora e Melo era o artista mais destacado deste grupo. Também oriundo da Escola de Belas-Artes do Porto15, era conhecido sobretudo pelo seu trabalho de desenho, pinturas e iluminuras integrado em publicações sobre heráldica e brasonário de Portugal ou sobre temas específicos associados à cidade do Porto16.
Francisco Maia, artista oriundo de Aveiro e residente em Guimarães, era professor de Desenho na Escola Industrial e Comercial da mesma cidade17. Quanto ao escultor Hernâni Moreira, apesar de localizada uma referência18 que o identifica como professor na Escola Industrial e Comercial Fernando Caldeira em Aveiro, não foi possível aferir com rigor a sua identidade.
Todos ficariam ligados a esta obra e à cidade de Guimarães por intermédio do arquitecto Fernando Doutel da Silva e dos Donos da Obra.
II. Uma via poética da modernidade
A integração das artes na arquitectura, a Síntese das Artes, é dos temas centrais da revisão crítica do Movimento Moderno no século XX19. A Síntese das Artes projectou-se internacionalmente nos anos do segundo pós-Guerra no contexto da reconstrução europeia, constituindo uma plataforma favorável à reflexão critica do Movimento Moderno. Esta reflexão sustentou-se no desejo de humanização da arquitectura por via do discurso da Nova Monumentalidade20 cuja proposta critica defendia a inclusão de valor lírico e humano na arquitetura moderna, entendida como excessivamente funcionalista.
A reconstrução da arquitectura das cidades abarcava, pois, uma proposta mais ampla que, além de procurar colmatar as extremas necessidades do património material, ambicionava também responder às necessidades anímicas, psíquicas e simbólicas do cidadão comum. Caberia à acção conjunta entre arquitectos, urbanistas e artistas o papel fundamental na criação dos símbolos de representação nesta nova estrutura urbana e social, aspectos que não constavam da Carta de Atenas21.
Para além do humanismo se concretizar numa atenção redobrada à escala humana e ao sentido de comunidade, atenção ao contexto e a valores vernaculares locais22, à realização de uma arquitectura menos “abstracta”, orgânica ou expressionista, encontraria também, como forma de concretização, a integração da expressão simbólica por via da Síntese das Artes. Respondendo ao apelo humano, a integração das artes na arquitectura moderna constitui, neste sentido e simultaneamente, uma via de atenuação dos seus efeitos adversos e um recurso para a sua harmonização. Enriquecendo a arquitectura moderna de valor emocional e lírico aproximava-a ao homem comum, desencadeando a transformação da sua vivência quotidiana na relação com a cidade, a comunidade e o espaço público, pela presença permanente de símbolos e expressões de reconhecimento colectivo.
Estes ideais universais foram discutidos em congressos internacionais de arquitectura e arte, entre os quais, os CIAM e propagados nas principais revistas da especialidade como a Arquitectura e a L’Architecture d’Aujourd’hui, assinadas por muitos arquitectos em Portugal.
As ideias que corriam internacionalmente, alicerçadas na renovação da prática disciplinar pela via humanista, também eram defendidas pela comunidade artística portuguesa. Embora distanciados geograficamente da Guerra e das políticas de reconstrução urbana que ditavam a reflexão internacional, os arquitectos portugueses estavam activamente envolvidos nos temas em debate e igualmente comprometidos em lançar as bases de uma arquitectura moderna, reinventando o seu papel na sociedade. Os valores da humanização, a acentuada politização de arquitectos e de artistas e a adesão aos valores ideológicos trazidos pelo neo-realismo impelia-os na procura de valores universais e na definição de um programa de base social e política23.
Nas Escolas de Belas-Artes a colaboração entre os alunos dos diferentes Cursos era incentivada, mesmo antes da implementação da Reforma do Ensino Artístico em 1957 e da introdução da disciplina “Conjugação das Três Artes”, que como o nome claramente reflecte, estava vocacionada para a colaboração. De facto, já dentro do sistema de matriz clássica Beaux-Arts na qual se formou o arquitecto Fernando Doutel24, a disciplina “Composição Decorativa” também designada de “Concurso das Três Artes” que integrava o Curso Superior de Arquitectura (4ª cadeira, 4ª parte) era lançada anualmente sendo aberta aos alunos de dois ou dos três Cursos. A ideia era justamente colocar os alunos de arquitectura em parcerias directas com os de Pintura e de Escultura em contexto escolar, algo que anteciparia a vida profissional activa.
A Escola de Belas-Artes do Porto onde Doutel estudou entre 1946 e 1959, era caracterizada por uma grande abertura pedagógica abrigada na docência e acompanhamento esclarecidos de Carlos Ramos na área da Arquitectura, Dordio Gomes na Pintura e Salvador Barata Feyo na Escultura. Todos contavam com realizações de obra integrada de grande visibilidade em várias localidades do país e, particularmente no Porto. A colaboração entre as artes era fortemente incentivada, neste contexto escolar tanto pelo programa curricular como pela acção de Carlos Ramos, primeiro como professor e depois como director da Escola.
Fernando Doutel da Silva, assim como os arquitectos da sua geração, estava actualizado com o discurso disciplinar internacional. De facto, em Setembro de 1953, justamente no mesmo ano do projecto e abertura do Café Milenário, o arquitecto participou no III Congresso da União Internacional dos Arquitectos realizado em Lisboa. Com organização de Carlos Ramos25, director da ESBAP, este congresso foi particularmente importante para o debate e para a prática da Síntese das Artes já que incluiu um grupo de trabalho totalmente dedicado a este tema. As resoluções deste congresso teriam consequências imediatas ao nível das realizações26.
Sendo aprendido e incentivado nos anos formativos dos futuros arquitectos e artistas nas Escolas de Belas-Artes, o programa preconizado pela Síntese das Artes era também um aspecto cultural profusamente difundido para o qual a sociedade civil estava sintonizada e por isso, no campo operativo, era mantida em várias tipologias e escalas. Sobre este particular aspecto importa referir que os cafés, restaurantes e espaços de lazer são exemplos muito representativos desta tipologia colaborativa justamente pela criatividade e liberdade temática que proporcionavam. A criação de estabelecimentos comerciais com ambientes únicos e diferenciados era, pois, uma estratégia utilizada como forma de captar a atenção dos clientes pela projecção de uma imagem inovadora. Os artistas recebiam encomendas para intervir em espaços comerciais, sendo-lhes solicitadas participações que se concretizavam, entre outros, em pinturas murais, painéis de azulejo, baixos-relevos ou integração de esculturas. Apesar das distintas escalas de concretização e visibilidade, a integração de elementos de arte em estabelecimentos comerciais, que pela sua condição têm ampla visibilidade no espaço público, constituía uma mais valia na transmissão de valores culturais e de transformação do gosto num contexto de modernidade27. Por esse motivo, também conotava os seus proprietários com um espírito progressista, propício ao negócio.
É neste contexto teórico e prático nacional e internacional que se inscreve o projecto de Fernando Doutel da Silva para o Café Milenário.
III. As intervenções plásticas
Apesar de actualmente existirem no local três peças de escultura, a notícia publicada à época da inauguração do café Milenário28 indica a existência de quatro: uma pintura mural, um painel cerâmico, e dois relevos escultóricos.
O relevo cerâmico de Gouveia Portuense localiza-se junto à escada de acesso ao piso inferior. Este constitui a intervenção plástica mais viva e dinâmica da sala principal, com maior dimensão e visibilidade [fig. 8]. Sobre ela é referido na imprensa à data da inauguração do café:
Café Milenário
Vista interior integrando painel cerâmico de Gouveia Portuense
© Miguel Oliveira, 2025
Café Milenário
Vista interior integrando painel cerâmico de Gouveia Portuense
© Miguel Oliveira, 2025
“Numa outra parede, parte da qual guarnecida a grandes espelhos, um painel em cerâmica representa a fundação da nacionalidade, com seu berço em Guimarães e, bem representada nas caravelas, a expansão de Portugal com as descobertas e o aparecimento do café. Na última fase da cerâmica, admiram-se a fauna e a flora tropical, com a mariposa, as orquídeas, os clímanes e, ainda, como elemento central, a flor do café e flores portuguesas.”29
Esta proposta plástica reúne diferentes motivos e elementos que procuram correspondências simbólicas com os temas e a função relacionados com este estabelecimento: a cidade de Guimarães e o milénio da nacionalidade e, a venda de café. A representação da muralha da cidade, de uma caravela dos Descobrimentos portugueses, de grãos de café e, de flora e fauna exóticas simbolizam, justamente, essa intenção. Concentrando uma exuberante expressividade plástica reforçada nos contornos sinuosos dos diferentes elementos, o painel integra, pois, um forte sentido de movimento, evidenciado sobretudo na forte ondulação inscrita no mar revolto. A policromia é também intensa e varia entre escalas de verde, azul, amarelo e rosa. Pelo cromatismo e intensidade plástica, esta intervenção tem uma presença destacada no café.
Alguns anos após a abertura do Milenário, Gouveia Portuense participaria no programa artístico do Mercado Municipal de Santa Maria da Feira (1953-1959) projectado por Fernando Távora (1923-2005), considerado uma das obras fundamentais do movimento moderno em Portugal30. Para este equipamento, o pintor Gouveia Portuense trabalhou em proximidade com o arquitecto Álvaro Siza Vieira na realização de seis painéis em mosaico que integram o pavimento do mercado e que sinalizam as diferentes secções de venda31.
A pintura mural a fresco realizada por Francisco Maia ocupava a quase totalidade da parede do café Milenário, a nascente. Localizava-se por cima de um sofá e abrangia o espaço parietal entre o quiosque e o bar. [fig. 4 e 5] Sobre ela foi referido na notícia de abertura do café:
“Na parte principal e ocupando uma das paredes, em pintura moderna e cheia de vida pode admirar-se um trabalho de muito merecimento. Representa ele a criação do mundo, com a sua fauna e flora, a necessidade de viver e, consequentemente, de caçar e encerra ainda um pequeno pormenor alusivo à elegância da mulher, expressa no cisne.”
Após o escândalo que terá suscitado a representação de figuras femininas despidas, o que conduziria à alteração da pintura pela inclusão de vestes para tapar a referida nudez², a pintura seria destruída seis anos após a abertura do café, aquando de obras de ampliação da sala principal33 que assim passaria a ocupar o espaço de uma mercearia que lhe era contigua, entretanto encerrada. Da mesma remodelação terá resultado a eliminação do quiosque. Apesar de já não existir, é, como mencionado, possível observar a referida intervenção mural através da documentação fotográfica reunida no âmbito deste artigo.
A pintura representa, como é referenciado acima, uma cena de natureza, com integração de flora e fauna exóticas com integração de pássaros e veados em movimento e a inclusão de grupos de caçadoras sobre cavalos e à direita de um grupo de amazonas.
Sobre as restantes esculturas é sinteticamente referido:
“Em outras esculturas vêem-se, também, o nascimento de Vénus, pomba e ex-libris do café.”
O relevo alusivo ao nascimento de Vénus, inicialmente localizado na sala do piso inferior, está actualmente na sala principal. Tem como única protagonista uma figura feminina sentada, posicionando-se de perfil e reclinada sobre um fundo ligeiramente curvo e ondulado em forma de amiba. A escultura terá, entretanto, sido objecto de pintura em tom de bronze, diferenciando-se do aspecto original, em branco, indicativo do material de que a escultura é composta, o gesso [fig. 9].
Café Milenário
Vista interior integrando relevo de Hernâni Moreira
© Miguel Oliveira, 2025
Quanto ao ex-libris que a notícia refere, trata-se de um relevo em gesso que integra uma figura masculina levemente ajoelhada sobre uma fita que inclui a inscrição Milenário. Trata-se de um elemento escultórico que pretende reforçar a marca identitária do espaço. Actualmente posiciona-se junto a uma das portas em vidro, voltado ao exterior.
IV. Artes integradas, um património a [re]descobrir e valorizar
Mais do que pelo reconhecimento do percurso artístico individual de cada participante ou pelas intervenções especificas que cada membro da equipa projectista realizou neste espaço, o Café Milenário possui um valor de conjunto que importa destacar. O programa arquitectonico e artístico que integra em alinhamento com os valores da Nova Monumentalidade, conferem-lhe um estatuto de singular representatividade na adesão do sector terciário ligado ao lazer às directrizes do Movimento Moderno.
Enquanto muitos estabelecimentos comerciais da mesma tipologia foram desaparecendo, pela sua tendencial exposição às oscilações de mercado, pressão imobiliária e pelos regulares imperativos de renovação, a [feliz] longevidade do Café Milenário traz até à actualidade o Zeitgeist e o sentido de comunidade, identidade local e valor do momento histórico da sua produção. Pela sua permanência e frequência, este emblemático espaço é, pois, uma lição contínua dos valores líricos, simbólicos e colectivos que o originaram e que, na sua [inexorável] temporalidade são intemporais.
[Para uma justa e acrescida valorização deste património, espero que este breve artigo suscite curiosidade e, nesse sentido, desencadeie a procura por mais informações sobre este projecto, o arquitecto, as obras plásticas que o integram e os seus autores].
A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.
Agradecimentos
António Mota Prego
Dulce Oliveira
Isabel Barroso
Jaime Machado
Miguel Oliveira
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Tostões, Ana. Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50. FAUP Publicações, 1997.
Notas de Fim
1 Sónia Moura, «Síntese das Artes - Pensamento e Prática em Portugal (1944-1979)» (Tese de Doutoramento, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2025).
2 Reyner Banham, «This is Tomorrow», October, 2011, https://doi.org/10.1162/OCTO_a_00036.
3 Em várias geografias, muitos exemplos foram alterados e destruídos. Em Guimarães destaca-se a destruição das pinturas e esculturas do Café Oriental, também localizado no Largo do Toural.
4 Cf. Joan Ockman, «A Plastic Epic: The Synthesis of the Arts Discourse in France in the Mid-Twentieth Century», em Architecture + Art — New Visions, New Strategies, ed. Eeva-Liisa Pelkonen e Esa Laaksonen (Alvar Aalto Academy / Alvar Aalto Foundation, 2007), p. 48.
5 n.a., «O novo Café Milenário», Notícias de Guimarães (Guimarães), 15 de novembro de 1953, Casa de Sarmento.
6 Veja-se, por exemplo, Samuel Alemão, «Café Milenário», em Cafés Portugueses — Tertúlias e Tradição (Lisboa: Clube do Coleccionador dos CTT, 2017); e José Pastor, Roteiro de Arte Pública, Oficinadasedições e Associação Século d’Escolhas (Guimarães, 2024).
7 Referência à firma Carvalho, Fernandes & Oliveira.
8 No mesmo ano foi também comemorado o centenário da cidade, promulgado em 1853 pela Rainha D. Maria II. Cf. https://jornaldeguimaraes.pt/opiniao/artigo-agosto-1953-alvaro-nunes/.
9 É de assinalar a inauguração da Confeitaria Clarinha, poucos meses antes, também no Largo do Toural.
10 Fotografias pertencentes ao arquivo da Foto Beleza, Guimarães.
11 O processo inicial do Milenário (1953), com responsabilidade técnica do arquitecto Fernando Doutel da Silva, não foi localizado no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, onde se encontram apenas os aditamentos.
12 Descrição de acordo com as imagens do café à data da inauguração. A imagem atual do Milenário resulta de obras de remodelação de 1985, projetadas pelos arquitetos Eduardo Ribeiro e Manuel Antunes. Cf. Álvaro Fernandes de Oliveira, «Processo de Obras LO 755/85», 1985, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.
13 Cf. Escola Superior de Belas-Artes do Porto, IV Exposição Magna da Escola Superior de Belas-Artes do Porto (Porto, 1955).
14 Fernando Doutel da Silva ingressou no Curso Especial de Arquitectura da Escola de Belas-Artes do Porto em 1946, concluindo o Curso Superior em 1959 com o CODA «Um Centro Internacional de Campismo», classificado com 19 valores. Cf. Processo Individual do aluno no Arquivo da FBAUP. CODA disponível em: https://www.arquivo.up.pt/descriptions/204801.
15 Frequentou o Curso Especial de Pintura entre 1930 e 1932. Em 1944 expôs *Aguarelas e Desenhos* no Salão Silva Porto, Porto. Em 1957 participou na I Exposição de Artes Plásticas da FCG.
16 Nomeadamente Portas e Casas Brasonadas do Porto e seu termo (Porto: Edição de Autor, 1949), Costumes e Mesteres do Porto de hoje (Porto: Marânus, 1946), e diversas ilustrações para roteiros do Porto.
17 Informações biográficas de Francisco Maia cedidas por António Mota Prego.
19 Cf. Moura, «Síntese das Artes - Pensamento e Prática em Portugal (1944-1979)».
20 Veja-se, por exemplo, Sigfried Giedion et al., «Nine Points on Monumentality», em Architecture You & Me — The Diary of a Development (Harvard University Press, 1943), pp. 48–51.
21 Documento-manifesto redigido após o IV Congresso CIAM (Atenas, 1933), que estabelece os princípios do urbanismo moderno.
22 Kenneth Frampton, «Foreword», em The CIAM Discourse on Urbanism, 1928–1960 (Massachusetts: MIT Press, 2002).
23 Bárbara Coutinho, «A arquitectura sob os ventos do neo-realismo», em Batalha pelo conteúdo — Exposição Documental Movimento Neo-realista Português, Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira, 2007), pp. 208–219.
24 Sobre a passagem do sistema de ensino Beaux-Arts para o moderno, veja-se Gonçalo Canto Moniz, «O Ensino Moderno da Arquitectura — A Reforma de 57 e as Escolas de Belas-Artes em Portugal (1931–69)» (Tese de Doutoramento, FCT–UC, 2011).
25 Lista dos participantes do congresso em Inês Andrade Marques, «Arte e habitação em Lisboa 1945–1965 — cruzamentos entre desenho urbano, arquitectura e arte pública» (Tese de Doutoramento, Universitat de Barcelona, 2012).
26 Cf. Moura, «Síntese das Artes - Pensamento e Prática em Portugal (1944-1979)».
27 Ana Tostões, «Desenho moderno e obra global: arquitectura e design nos anos 50», em Arquitectura Moderna e Obra Global a partir de 1900, vol. 16, *Arte Portuguesa da Pré-História ao Século XX* (Fubu Editores S.A., 2009), p. 61.
28 n.a., «O novo Café Milenário», pp. 1–2.
29 Ibid.
30 Veja-se, por exemplo, Ana Tostões, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50 (Porto: FAUP Publicações, 1997); e Nuno Portas, «A Evolução da Arquitectura Moderna em Portugal: uma interpretação», em História da Arquitectura Moderna (Lisboa: Arcádia, 1970).
31 Nomeadamente as secções de Talho, Peixaria, Legumes, Aves, Flores e Comércio.
32 Agradeço a conversa com Dulce Oliveira, atual co-proprietária do Café Milenário.
33 «… será demolida a parede que contém o fresco, o que francamente lamentamos, não porque o possamos considerar como uma autêntica obra de arte, mas porque se reconhece o seu interesse como elemento decorativo do seu actual ambiente.» José Maria Gomes Alves em Carvalho, Fernandes & Oliveira, «Processo de Obras LO 427/60 — Café Milenário», 1960, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.