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Arranjo da Praça José Florêncio Soares (1ª Fafe)
(1955)
Fundo Câmara Municipal de Fafe - Arquivo Municipal de Fafe

Desafios e estratégias de preservação da memória da escultura nos Arquivos

Mónica Guimarães

A cidade não é um objeto estático, mas sim uma realidade em constante processo de construção e desconstrução, na qual a história é continuamente reeescrita, sobrepondo-se novos cenários aos anteriores. É, por consequência, um processo vivo. A cidade constrói-se dia a dia, onde inevitavelmente e por norma toda a construção se processa a par de uma destruição (Chueca Goitia, 2010).

No início do século XIX, a falta de espaço para novas edificações no centro cívico de Fafe obriga o burgo a expandir-se, continuando o processo de estruturação da malha urbana pelos terrenos livres, com mais condições de edificação urbana, com a abertura de novos arruamentos. Havia claramente uma coeva preocupação com a expansão do burgo, tendencionalmente direcionada para o prolongamento direto das partes já construídas, que servem de ponto de origem para o desenvolvimento posterior.

A construção de grandes edifícios públicos implicava importantes modificações no plano urbano, quer em termos formais, quer funcionais. As propostas de melhoramentos recaíam sobre a construção de novos arruamentos, mais amplos e retilíneos, mas também pela construção ou revitalização de praças e largos, assim como de espaços verdes, como são exemplo o Jardim Público e o Jardim da Queimada.

Nesses espaços são então muitas vezes projetadas/criadas obras de arte, importantes para a valorização do espaço público, com o objetivo de transmitir uma mensagem ou contar uma história. Não se trata apenas de uma expressão plástica, mas também uma manifestação cultural ligada a diferentes contextos sociais, históricos e simbólicos. Assim, a escultura é, ao mesmo tempo, um objeto material, artístico, cultural e simbólico, como também um documento histórico que reflete o seu propósito e impacto no contexto que se insere.

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Arranjo da Praça José Florêncio Soares (1ª Fafe)
(1955)
Fundo Câmara Municipal de Fafe - Arquivo Municipal de Fafe

Ao longo da história, as esculturas monumentais têm desempenhado um papel relevante na construção de memórias coletivas e na afirmação de valores culturais, políticos e religiosos, funcionando ainda como símbolos de poder, status e autoridade. No entanto, a escultura monumental não se limita à representação figurativa de personagens ou eventos. Com o desenvolvimento da arte moderna e contemporânea, particularmente a partir do século XX, observa-se uma crescente valorização de formas abstratas e composições geométricas em larga escala.

Claro que a escultura pode existir por si só ou estar integrada e ser parte de um outro espaço, seja este arquitetónico, urbano ou museológico. Seja uma escultura em baixo ou alto-relevo integrada num edifício ou um monumento num jardim público, “uma escultura é uma escultura” quando existe uma intenção artística de intervir na matéria e no espaço, criando significado para além da sua função.

A escultura desempenha, assim, uma parte fundamental na vida urbana e no desenvolvimento da identidade coletiva. As esculturas tornam-se símbolos da cidade. Elas funcionam como marcos culturais, contando a história do lugar e reforçando o sentimento de pertença.

Em Fafe, a presença da escultura é escassa e prende-se essencialmente com os edifícios de património histórico e religioso, com apontamentos esculturais integrados,

e com os monumentos públicos, na sua maioria esculturas públicas, como o Monumento à Justiça de Fafe de Eduardo Tavares ou até num tipo de escultura mais industrial como o Monumento aos Empresários, do escultor Carlos Costa.

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Almanaque Ilustrado de Fafe, 1983
Museu da Imprensa de Fafe

Mas que esculturas são estas que habitam nas nossas praças? E em espaços privados? Que desafios encontramos quando precisamos de documentar esse património?

A escultura pública desempenha um papel relevante na construção simbólica dos espaços urbanos e na formação da memória coletiva. No entanto, estas obras, frequentemente instaladas em praças e jardins públicos, estão sujeitas a deslocamentos, substituições ou remoções, muitas vezes sem que exista um registo que contextualize tais decisões. Essa mobilidade ameaça a integridade da memória urbana e dificulta o estudo e preservação da arte pública enquanto testemunho cultural e histórico.

As praças, como espaços de convívio, lazer e expressão cívica, são frequentemente alvo de transformações urbanísticas motivadas por fatores estéticos, funcionais ou políticos. Estas alterações, como a substituição de áreas verdes por zonas pavimentadas, ou a reorganização de monumentos e esculturas, impactam diretamente o significado das obras que nelas se inserem. Tal como sublinha Bastos (2013), a escultura pública não pode ser dissociada do espaço e do tempo em que é concebida. Quando descontextualizada, perde parte da sua força comunicativa e da sua função memorial.

Para o escultor, a memória opera como ferramenta criativa e referência simbólica. As obras criadas para o espaço público refletem não apenas intenções estéticas, mas também valores históricos, sociais e ideológicos do seu tempo. O apagamento ou deslocação destas obras, sem documentação ou explicação pública, compromete a relação entre a criação artística e a sua receção crítica e popular. Conforme defende Abreu (2006), a escultura pública em Portugal tem sido frequentemente sujeita a reinterpretações e deslocamentos, sem que exista um esforço sistemático de registo ou preservação.

Do ponto de vista do investigador, a ausência de documentação sobre a mobilidade das esculturas impede o acompanhamento da evolução da paisagem urbana e dos discursos simbólicos nela inscritos.

Que desafios/obstáculos enfrenta o investigador?

A falta de fontes documentais dificulta a atribuição da autoria das peças. Sem contratos, projetos ou qualquer outro tipo de registo torna-se difícil identificar o autor da obra, determinar datas de execução ou as condições em que foram encomendadas. Sabendo-se que a escultura não existe isolada, perde-se informação sobre a função original da obra, o local para onde foi criada e até o seu impacto à época.

Carecendo muitas vezes de organização e tratamento nas instituições e nas mãos de particulares – até do próprio autor ou da sua família – o desafio de encontrar elementos probatórios que justifiquem ou testemunhem o contexto em que aparece este tipo de arte torna-se num desafio hercúleo.

A falta de inventários atualizados, catálogos críticos ou registos institucionais dificulta a análise da escultura como expressão pública e política (Encarnação, 2022). A arte pública, neste contexto, transforma-se em fragmento desconectado da sua história e do seu lugar.

A multidisciplinaridade dos arquivos coloca desafios aos investigadores e aos técnicos que, desafiados em encontrar respostas, procuram ajudar, orientar, dentro e fora das suas próprias entidades. Os arquivistas tornam-se, simultaneamente aos investigadores – sejam eles historiadores ou o simples cidadão – detetives da memória, tentando juntar peças muitas vezes dispersas, culminando por vezes em caminhos sem saída.

Do ponto de vista arquivístico, esta lacuna compromete o entendimento do património escultórico como um todo integrado, dificultando a investigação académica, a intervenção técnica e a valorização cultural das obras. Quando não se documenta, não se preserva e aquilo que não é preservado está condenado ao esquecimento. Em Portugal tem-se defendido a normalização do inventário de escultura pública como parte de uma política mais ampla de salvaguarda do património (Património Cultural, I.P., 2004). Ainda assim, persistem lacunas significativas entre a produção artística, o espaço público e as estratégias de conservação.

É, portanto, essencial repensar a relação entre escultura, praça e memória. A mobilidade das obras pode ser inevitável em contextos de transformação urbana, mas não pode ocorrer sem reflexão crítica e, sobretudo, sem registo. A escultura pública deve ser reconhecida como património vivo — simultaneamente histórico, artístico e social — cuja preservação exige responsabilidade institucional e valorização cultural. Sem memória, perde-se não apenas a arte, mas também a cidade que ela ajuda a construir.

Que perspetivas de investigação? Que formas e de que modo podemos abordar o estudo sobre a escultura?

O escultor, enquanto produtor dos desenhos, esboços, maquetes que desencadearam a criação da escultura, deverá ter consciência de que detém um património único. É da responsabilidade dos Arquivos enquanto guardiões da memória a sensibilização destes produtores em doar ou depositar os seus acervos em instituições de memória, permitindo que o arquivista seja intermediário entre o arquivo e o público, permitindo a sua salvaguarda e a sua disponibilização/acesso, para evitar a perda da memória, mas também a dispersão dos documentos, perdendo a sua integridade.

Hoje em dia a disponibilização online dos fundos e coleções permite recuperar à distância de um clique fontes que outrora exigiam ao investigador tempo para se deslocar às entidades que supunha deter algum elemento probatório da atividade do escultor.

O interesse que vai surgindo por parte dos investigadores (da área da História, da Arquitetura, Artes Plásticas,…) ou por interesse meramente pessoal, instiga os arquivos a recolher, descrever e tornar disponíveis fontes que povoam vários tipos de coleções e fundos arquivísticos que de forma articulada compõem a história da escultura e do seu autor. Além dos arquivos pessoais ou familiares, os Arquivos custodiam um vasto manancial de informação fotográfica, onde a escultura pode estar integrada na rede viária (ruas, praças, ornato), nos espaços verdes, mas também no património artístico (monumentos), tornando, assim, o papel do arquivista preponderante para a recuperação da informação.

O Portal Português de Arquivos (https://portal.arquivos.pt/) , um serviço da Rede Portuguesa de Arquivos, que coleta e reúne informação proveniente dos repositórios das instituições pertencentes à Rede, é responsável pela disseminação de milhares de conteúdos de informação arquivística, tornando-se uma das maiores fontes de pesquisa.

Além dos Arquivos, os museus são detentores de coleções valiosas de esculturas, que coabitam com outras coleções (gravuras, imprensa, cartazes, entre outras), tornando-se eles próprios uma fonte de investigação.

Não há receitas feitas nem soluções perfeitas. O desafio passa por entender a relação entre a sua história e o espaço!

Referências Bibliográficas

 

ABREU, José Guilherme Ribeiro Pinto de. Escultura pública e monumentalidade em Portugal (19481998): estudo transdisciplinar de História da Arte e fenomenologia genética. 2006. Dissertação (Mestrado em História da Arte) — Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2006. Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/31390 (Acedido em: 01 Outubro 2025).

Cultura Cascais (sem data) Património Arquitetónico. Disponível em: https://cultura.cascais.pt/patrimonio/patrimonio-arquitetonico?section=2 (Acedido em: 3 Setembro 2025).

Fundação Calouste Gulbenkian (sem data) Biblioteca de Arte. Disponível em: https://gulbenkian.pt/biblioteca-arte/noticias/mihares-de-imagens-de-coleçoes (Acedido em: 3 Setembro 2025).

Portal Português de Arquivos (sem data). Disponível em: https://portal.arquivos.pt/ (Acedido em 7 Setembro 2025).

BASTOS, Margarida Acciaiuoli. Arte pública: entre monumento e lugar. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.

CARVALHO, Raquel Henriques de; GOMES, Ana Paula. Património artístico: conservação e restauro. Lisboa: Caleidoscópio, 2015.

ENCARNAÇÃO, José Luís de. Escultura pública e política urbana: leituras contemporâneas do espaço simbólico. Lisboa: Edições Colibri, 2022.

GOITIA, Fernando Chuega. Breve História do Urbanismo, Editorial Presença, 8ª edição, 2010.

PORTUGAL. Instituto do Património Cultural. Normas para o Inventário Nacional da Escultura Pública. Lisboa: Instituto do Património Cultural, 2004.

ROSA, Maria de Lurdes; NÓVOA, Rita Sampaio (coords.). Arquivos de Família: Memórias Habitadas: Guia para salvaguarda e estudo de um património em risco. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, 2014.

SILVA, Margareth da. O arquivo e o lugar: custódia arquivística e a responsabilidade pela proteção aos arquivos. Niterói: Eduff.