Dupla visão da metodologia de trabalho do artista plástico, quer no desenvolvimento do seu trabalho pessoal, quer em projetos de intervenção no espaço público ou privado, por concurso ou encomenda – a minha perspetiva

Marta Lima

Este texto pretende ser uma reflexão sobre as premissas e modos de pensar e atuar perante o meu trabalho pessoal e o meu trabalho por encomenda. O que muda? Existem diferenças de atuação?

Desta feita, irei focar a apresentação do meu trabalho pessoal em obras recentes, fruto da minha investigação sobre as linhas e o crochet, e concentrar a apresentação do meu trabalho por encomenda em dois projectos de intervenção no espaço público distantes temporalmente, mas que me parecem exemplificar esta visão. O primeiro, a estação de metro do Lumiar, estação que desenvolvi com a minha equipa durante os anos de 2000 a 2004, que originou também a tese de mestrado em Design Urbano que defendi em Barcelona em 2007: “Arte no Metropolitano de Lisboa –Análise Crítica da Intervenção Plástica na Estação do Lumiar”, e o segundo, a peça de comemoração dos 50 anos da Universidade do Minho, inaugurada em 2024 no Campus de Gualtar, que penso condensarem em si todas as questões em reflexão neste documento.

 

Trabalho pessoal
· Liberdade total da criatividade
· Processo pessoal de criação centrado nas minhas ideias
· Liberdade condicionada pela minha capacidade económica para a produção
· Liberdade enquadrada pelos ambientes tecnológicos que investigo

 

Começo por clarificar o conceito de criatividade, tendo em conta o que escreveu John Cleese no seu livro “Criatividade – um guia prático e divertido”. Para Cleese (2021), a criatividade não é algo raro, misterioso e privilégio de alguns, mas é simplesmente uma forma diferente de pensar sobre as coisas. Cleese, para explicar melhor a mente de um criativo, apresenta a teoria formulada por Claxton através da dicotomia “Cérebro de Lebre, Mente de Tartaruga”. O cérebro de lebre é o nosso lado racional, o que somos mais instigados a desenvolver, que nos permite compreender questões, pesar prós e contras, elaborar argumentos e resolver problemas, num curto espaço de tempo. Por outro lado, a mente de tartaruga pensa mais lentamente, de modo menos intencional, mais lúdica e mais sonhadora. Provavelmente será o nosso lado sonhador que sustenta a criatividade. O autor recorda a importância do brincar. O ato de brincar amplia a curiosidade, induz-nos a ter prazer nas tarefas, ignora o medo de errar e minimiza os níveis de ansiedade. Brincar permite fluir a criatividade que há dentro de nós. Ele também destaca a importância de ter um espaço seguro, onde os erros sejam aceites e até mesmo incentivados, permitindo que as pessoas se sintam livres para arriscar e experimentar sem medo de julgamentos. Assim, no processo criativo, tal como Cleese nos propõe, terá que existir tempo para maturar as ideias, espaço para as desenvolver em liberdade e ser um momento prazeroso de brincadeira. Claro que tudo pode cair por terra quando chegam os condicionamentos económicos e de produção, quando precisamos de passar do plano das ideias ao plano do fazer, com tempos limitados de execução. Neste momento sobrepõe-se o nosso cérebro de lebre a “pôr os pontos nos is” e a condicionar as nossas ideias.

Lembro-me quando andava na faculdade de pensar as diferenças do meu ensino nas belas artes com outros amigos que frequentavam cursos nas engenharias, nas ciências e em outras áreas do saber. Para eles, era preciso estudar muito, decorar calhamaços, fazer exercícios e depois fazer as frequências e esperar pelas notas na pauta. O cérebro de lebre no seu expoente máximo. Nós, nas belas artes, passávamos tempo a conversar, a ler, a apanhar sol, tardes deitados na relva… a exercitar a nossa mente de tartaruga... porque os nossos trabalhos tinham que refletir um projeto pessoal, um deitar para fora o que tínhamos cá dentro, e depois, na avaliação, expormos e defendermos as nossas ideias. Provavelmente, foi aí que comecei a explorar mais profundamente a minha criatividade. E a verdade é que os meus temas, as minhas preocupações, são praticamente as mesmas que nos anos 90. A família, o brincar despreocupado, a memória, o jogo lúdico e despretensioso...

Cleese também dá vários conselhos para fomentar a criatividade, a partir da sua experiência como escritor, um deles é: escrever sobre o que se conhece. O meu trabalho pessoal é mesmo isso, uma tentativa de passar para imagens, formas e sons aquilo que sou.

Passo agora a apresentar o meu trabalho mais recente, feito em crochet.

fig.1
Imagens fiadas ao correr da linha [2022]
Crochet sobre tecido
Linha de algodão e veludo
400 X 280 cm

Inicio com o texto que fiz para acompanhar este trabalho:

“Longas tardes passadas durante as férias a fazer crochet. Família completa em afazeres à volta das linhas, para matar o tempo quente do exterior. Havia com certeza outras coisas mais interessantes para fazer, mas esta estadia à fresca, esperando que o dia chegasse ao fim e se pudesse correr lá fora sem morrer de calor, tinha o seu encanto.

2, 4, 6, 8, 10 mãos entretidas a construir com agulha e linha imagens organizadas em quadrículas, esperando ver o desenho final. Conversas fiadas ao correr das linhas.

O tempo passou, a vida foi-nos moldando, os sonhos foram-se alterando. Fomo-nos separando, o crochet ficou como que suspenso na memória. Restou a união familiar dessas longas tardes.

A vida tomou outros rumos e agora regresso de novo ao crochet, revisitando as memórias e os movimentos repetidos e decorados que nunca esquecem…

Na família procuro o mote, nas visões múltiplas que o trabalho remete. O que se vê ao longe não se vislumbra ao perto. Semicerro os olhos à procura das imagens. Às vezes encontro-as, outras vezes fogem e só encontro pastas e buracos distribuídos sem regra. Já não vejo grinaldas e desenhos das revistas. Agora encontro as nossas caras, o nosso sorriso.”

Todo este percurso nasce da relação entre a quadrícula do crochet e o píxel.

O pixel é o referente base das imagens produzidas pelos computadores, sendo a menor unidade de uma imagem digital. Sempre que fazemos um zoom de uma imagem, inevitavelmente veremos uma série de quadradinhos. Este trabalho pretende redescobrir o pixel, trazendo para a atualidade uma técnica manual produzida pelos nossos antepassados. Por um lado, a imagem digital e por outro o lavor manual. Podem ser reunidos numa experiência comum?

Para além disso, o regresso não muito longínquo ao quotidiano das nossas avós leva-nos a questionar o quanto evoluímos e destruímos o nosso meio ambiente em pequenos gestos que provavelmente deveríamos preservar. Os guardanapos de pano, as fraldas de pano… quem tem capacidade para voltar a esses modos de fazer e reutilizar? Quanto tempo poupamos com a nossa evolução e o que destruímos com essa mesma evolução? Voltar ao passado, e a um passado muito recente, cerca de 40 anos para trás, faz-nos pensar que o que se usava, porque não havia alternativas, será atualmente um caminho que temos que voltar a perspetivar, em prol do nosso planeta.

Fui abordada várias vezes por pessoas que ao ver este trabalho se recordaram da colcha da avó. Aquela colcha com a Cinderela, com os pavões e as flores. Conversa puxa conversa e estamos a falar de naperons nas mesas, nos sofás, nas chapeleiras dos automóveis, na máquina de lavar a roupa... Não pretendo voltar ao passado, mas pretendo puxar pelas memórias, pelos processos, pelas lógicas, unindo o passado com o presente, pensando o futuro.

fig. 2
Crochet Code [2024]
Crochet
Linha de algodão
90 X 145 cm
fig. 2
Crochet Code [2024]
Crochet
Linha de algodão
90 X 145 cm

O código Qr já era tema antigo, explorado na investigação que desenvolvi no ano curricular do doutoramento, através da relação entre a quadrícula do código e o formato do azulejo, tentando brincar com a dicotomia entre o que ele é física e graficamente, e para onde os links nos podem levar de informação extra, viajando para outros universos de som e imagem. Este código pode ser lido pela maioria dos dispositivos móveis actuais com câmara fotográfica, permitindo ao espectador/usuário converter a imagem [quadrícula preto e branco] num endereço URL, num número de telefone, numa localização georreferenciada, num e-mail, num contacto ou num SMS.

Nesta fase decidi explorar a relação entre os quadrados pretos e brancos que o compõe e perceber se conseguia reproduzir um código Qr em crochet que fosse legível pelos nossos telemóveis. E não é que consegui? Neste trabalho associei ao código Qr um pequeno texto sobre o crochet, de Bernardo Soares no Livro do Desassossego, que me tem acompanhado há já alguns anos, à espera do momento certo para ser apresentado:

“(...) Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço. Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochet das coisas... Intervalo... Nada... De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo.... Sim, crochet...”

fig. 3
QRochet Code I a X [2024]
Crochet
Linha de algodão e Macacaúba
30 X 30 cm
https://marta.folhadesala.pt/qrochet/

No trabalho seguinte, realizei uma série de 10 códigos Qr em crochet. Decidi ir ao fundo do baú de vários trabalhos que fui produzindo ao longo dos anos para criar os ambientes visuais e sonoros. Misturar desenhos que fiz na faculdade, com desenhos dos meus filhos e imagens em acetato de viagens e momentos com a família e amigos, com sons de um áudio que produzi para uma exposição em 2002 realizado com sons de músicas cantadas pela família, passeios pela cidade do Porto, sons de máquinas e ruídos do atelier, acrescentando ainda sons de músicas tocadas ao piano e guitarra pelos meus filhos. Tudo junto, amalgamado, misturado, representando 30 anos de histórias. As minhas histórias pessoais, cheias de memórias da família e amigos que nestes anos têm participado e preenchido o meu universo.

fig. 4
QRochet Code XI [2024]
Crochet
Linhas verde e crú
90 X 145 cm
https://marta.folhadesala.pt/peregrinos/11
fig. 4
QRochet Code XI [2024]
Crochet
Linhas verde e crú
90 X 145 cm
https://marta.folhadesala.pt/peregrinos/11
fig. 5
Não te esqueças [1999] Concurso de ideias para o tratamento plástico das futuras estações do metropolitano de Lisboa   Criação: Marta Lima, Rui Ferro e Susete Rebelo Participação: Alice Prata, Carlos Lima, Daniel Pires, Joana Caspurro e Pedro Machado

Neste último trabalho pessoal que apresento, decidi experimentar a junção do código Qr com uma imagem pixelizada dos meus pés. No pequeno texto que escrevi para o acompanhar lê-se: “Passos que caminham pelo mundo. Os meus passos. A minha história. Percursos partilhados com som, imagem e pixel. Longas horas passadas à volta das linhas. No passado. No presente. Aconchego-me nesta manta e descanso, que a caminhada vai dura. E sem nunca desistir, recomeço.”

Sobre estes trabalhos de maior escala em crochet, lembro-me do livro de Laura Esquivel, Como água para chocolate, onde se relata uma história de amor em torno da cozinha, onde se “cozem” amores e desamores, risos e prantos, mas onde se descreve a realização de uma manta. Fiquei sempre marcada por essa imagem. Lê-se no final do livro (2001) “Mas primeiro era preciso acalmar o frio congelante que começava a paralisá-la. Levantou-se, foi a correr buscar a enorme colcha que tinha feito pelas noites de solidão e insónia e deitou-a por cima. Com ela cobriu os três hectares que o rancho compreendia na sua totalidade.”

 

Trabalho por encomenda, em espaço público ou privado
· Convocar toda a liberdade dentro do enquadramento das premissas do concurso/convite
· Processo de criação centrado na discussão de ideias com equipa de trabalho
· Liberdade enquadrada pelo orçamento disponível para a produção e implementação
· Liberdade condicionada pela consciência da permanência da peça num espaço público utilizado/fruído por muitas pessoas diferentes e durante um longo período de tempo

 

Começo este momento com a convocação total da liberdade e da criatividade, tal como a defini anteriormente, baseada na visão de Cleese (2021). Ele destaca, a dado momento, a importância da colaboração e da diversidade de pensamento na estimulação da criatividade, argumentando que diferentes perspetivas e experiências podem enriquecer o processo criativo.

Apesar do enriquecimento advindo dos diferentes modos de ver do grupo de trabalho, este modelo interdisciplinar também acarreta dificuldades. Brandão (2oo6) afirma que elas nascem do seu carácter flexível, não codificado e experimental, que é a base e o método que as caracterizam, podendo originar problemas devido ao uso de dados, métodos e conceitos fora do contexto; da ilusão de certezas ou demasiada confiança numa nova perspectiva; da tendência para a recusa do contraditório e da dinâmica de grupo no trabalho em equipe. Neste sentido a prática da interdisciplinaridade requer uma aprendizagem recíproca e a construção de denominadores comuns de modo a resolver as crises de comunicação com a sua própria retórica, que terá sempre de se enraizar disciplinarmente.

Da minha experiência, todos os trabalhos que desenvolvi na área da arte pública e do design urbano, implicam a prática interdisciplinar, procurando, por um lado, a existência de um espaço comum entre todos os intervenientes e, por outro, uma abertura de pensamento, uma disponibilidade para arriscar e procurar novos caminhos em conjunto. Este ânimo para percorrer novos caminhos causa momentos de incerteza, de ansiedade, de dúvida constante, característica dos processos interdisciplinares, que se movimentam nos interstícios dos saberes seguros de cada disciplina, moldados às diversas personalidades e vontades de cada indivíduo implicado. Deste limbo nasce o produto final, em que dificilmente se consegue discernir autorias, sendo fruto do coletivo. Tudo isto realizado segundo as premissas conceptuais da encomenda ou concurso, enquadrada pelo tempo disponível para realização do projeto e da sua produção, condicionada pelo orçamento disponível para produção e toda a série de constrangimentos que são inevitáveis durante este processo. Acresce uma diferença abismal em relação ao meu trabalho pessoal, a noção de que a implementação destes trabalhos em espaços públicos, que normalmente são de carácter perene, acompanhando diferentes gerações e públicos muito heterogéneos, terá uma responsabilidade acrescida em relação à marca que deixa no espaço, tentando criar um elemento marcante, com múltiplas leituras, que consiga sobreviver ao tempo.

Passo agora a apresentar dois trabalhos de intervenção no espaço público, nomeadamente a estação de metro do Lumiar em Lisboa, que inaugurou em 2004, e a peça comemorativa dos 50 anos da Universidade do Minho, inaugurada em 2024 no Campus de Gualtar, trabalho desenvolvido em coletivo quer com a minha equipa de criação quer com as outras áreas intervenientes.

fig. 5
Não te esqueças [1999] Concurso de ideias para o tratamento plástico das futuras estações do metropolitano de Lisboa   Criação: Marta Lima, Rui Ferro e Susete Rebelo Participação: Alice Prata, Carlos Lima, Daniel Pires, Joana Caspurro e Pedro Machado

Esta aventura nasce com um concurso de ideias lançado pelo metropolitano de Lisboa em 1999, pela Administração presidida pelo Eng. António Martins, com a particularidade de ser o único concurso público para o tratamento plástico das estações lançado até à data, que se saiba. Porque foi o único? Porque não é o concurso público a primeira escolha no método de seleção dos artistas?

No caso do convite por atribuição direta, método normalmente usado pelo metro, pretende-se que o artista deixe uma marca do seu trabalho pessoal, transformando as estações de metro em galerias de arte que, pelo reconhecimento nacional e internacional do autor, prestigie a instituição. No caso do concurso de ideias, através da seleção de um júri, pretende-se sondar no mercado a capacidade de resposta dos artistas, com a intenção dos vencedores poderem integrar a equipa de criativos. Neste sentido o concurso será importante enquanto estímulo para a criatividade, para a implicação de novos pensamentos e soluções estéticas e tecnológicas, tendo um papel importante na criação de novos valores.

Na sua essência, quer um sistema quer outro ambiciona que a arte intervenha no espaço público, altera-se o risco, a procura de novos talentos e a transparência na escolha dos artistas.

No caso que agora apresento, o convite para a intervenção plástica da estação do Lumiar nasce deste concurso de ideias, do qual a minha equipa obteve o 3º lugar, tendo a particularidade de não ter sido atribuído o primeiro prémio, e que originou o posterior convite para realizar o ante-projecto e projecto da referida intervenção plástica. Este percurso que realizamos, desde o concurso até à conclusão da estação de metro do Lumiar será a demonstração da mais valia deste sistema. Faça-se mais concursos, pois daqui se depreendem as suas vantagens.

Os principais objetivos e resultados esperados deste concurso eram: criar uma intervenção com uma dimensão do quotidiano e não decorativa da arte, utilizar as novas tecnologias de modo a que as intervenções despertassem todos os sentidos e influenciassem os comportamentos das pessoas e contribuir para uma nova paisagem urbana. Com base nestas premissas e com a noção de que este concurso não implicava a realização de nenhuma estação específica, querendo simplesmente abrir espaço à criatividade com o mínimo de constrangimentos, lançamos mãos às ideias.

Ao nível do conceito, a nossa ideia foi transformar a rede de túneis do metro e as estações numa galeria de formigas, como se tudo se passasse num viveiro com paredes de vidro. Optamos por propor a impressão fotográfica digital de grande formato como tecnologia de aplicação das imagens. Transformou-se a estação numa espécie de caixa de vidro a partir da qual somos observados pelo bom gigante, o Lima. O seu mundo é em tudo semelhante àquele que os passageiros acabaram de deixar ou estão prestes a regressar: a casa. Esta, na sua simplicidade de referentes, funciona como evocação para o que se ambiciona pôr em evidência: não te esqueças! Não te esqueças de quem és!

Com esta forma aparentemente ligeira e brincalhona pretendemos, por um lado, animar e referenciar o espaço da estação e, por outro, refletir sobre a nossa existência. Quem somos nós no nosso atarefado deambular pela cidade? O que queremos ser ou o que nos é permitido ser?

fig. 6
Estação Lumiar [2000-2004]
CIRCUITO – intervenção plástica da estação do Lumiar do Metropolitano de Lisboa
Criação: Marta Lima, Rui Ferro e Susete Rebelo
Participação: Edgar Silva, Fernando Maia, Joana Caspurro e Pedro Machado

A carta convite para fazer a estação do Lumiar surge em Julho de 2000. As premissas da carta diziam que esta proposta não conferia o direito de qualquer pagamento, o metro reservava-se ao direito de rejeitar a proposta, e esta teria que se adequar ao projeto de arquitetura da estação do Lumiar. Se o concurso de ideias pretendia explorar o potencial de respostas fora da solução institucional, com incursão no inovador, dentro do realizável, nesta nova proposta, real, existe a necessidade de enquadramento às condicionantes do projeto, tendo em conta, não só, a qualidade estética da mesma, mas também a adequação e diálogo com o projeto de arquitetura e a viabilidade orçamental de produção e execução. E com estas premissas iniciamos trabalho.

O primeiro desafio da nossa equipa foi o de corresponder ao programa elaborado pelo arquiteto Dinis Gomes, autor do projeto de arquitetura da estação do Lumiar, no que concerne ao revestimento definido para a estação, neste caso, o azulejo. Foi o momento de nos enquadrarmos na proposta concebida pelo arq. Dinis Gomes e assumir o azulejo, material amplamente testado em 50 anos de uso nas estações do Metropolitano de Lisboa, como revestimento a pensar, renovar e utilizar.

Após a aprovação do projeto, os outros desafios foram a adequação à produção, que ficou a cargo da Fábrica Cerâmica Viúva Lamego e o acompanhamento da colocação em obra a cargo da Ferconsult, empresa de fiscalização das obras de metro. Foi um longo percurso, cheio de desafios, de desaires e vitórias, sempre defendendo as nossas ideias.

O fascínio e a necessidade do «novo», que nos levou à criação de uma imagem de contemporaneidade apoiada no uso das novas tecnologias e da imagem vídeo, acabou por nos conduzir também, numa redução ao essencial, à base da linguagem binária e à fisicalidade das placas de integrados que conduzem informação. Repensando o espaço da estação de metro, fez-se uma interpretação da sua realidade física em termos de sistema, associando-a à ideia de um circuito integrado, com toda a sua rede de canais, bifurcações, linhas de cores, por onde os indivíduos se movimentam segundo as suas opções. Assim, e voltando de novo à necessidade sentida de diálogo, ao esforço de humanização do espaço enquanto objeto de potenciais leituras a vários níveis, tentou-se recriar plasticamente, no suporte que são os azulejos, essa mesma imagem de circuito integrado, por onde o passageiro viaja, mas introduzindo nessa intervenção um elemento metafórico que é o da assimilação do conceito de circuito, de sistema, à própria vida humana e, mais concretamente, urbana.

Mas como traduzir isto tudo na prática, isto é, como concretizar, na matéria pré-definida do azulejo, esta imagem de sistema de unidades interdependentes, de circuito, de multiplicidade de escolhas, mas também de particularização do indivíduo? Como produzir o encontro entre o espírito do tempo contemporâneo e a matéria tradicional?

A proposta de intervenção plástica para a estação de metro do Lumiar, na sua aparência, assentou na criação de azulejos com relevo. As formas representadas nos azulejos pertencem ao universo físico dos circuitos integrados e foram compostas segundo as regras básicas e singulares da sua construção.

Os azulejos partem da escolha seletiva de "fragmentos" de uma placa de circuitos integrados que, justapostos, resultaram num padrão. Nestas condições, foi criado um conjunto de 14 módulos que são as unidades básicas de todo o revestimento da estação. Este conjunto subdivide-se em dois grupos distintos: um de 7 "originais", que designamos por "cegos/sem furos", e outro, dos restantes 7, que são cópias dos primeiros com o acréscimo de elementos, que designamos de "acesos/com furos".

Assim, organizámos uma composição básica de m2 que, repetida em progressão, define o efeito de padrão, mas com redução das hipóteses de, visualmente, desvendar a repetição dos módulos que lhe dão origem. Este m2 passa a ser a segunda unidade básica deste projeto.

O revestimento da estação adquire outra dimensão, para além do relevo e do padrão, a que chamamos de figuração, nas áreas das escadas de acesso aos cais, em pontos-chave dos átrios e dos cais, bem como nas bandeiras das escadas rolantes de acesso à estação. Estas figurações são imagens macro, de desenhos particulares, dos mesmos circuitos integrados que estão representados nos azulejos. Desenham-se na parede através de uma linha, que as limita como formas, correspondendo a cortes em unidades de azulejo.

Ao criarmos novos azulejos cerâmicos em vidrado transparente com uma característica específica de definição em dois níveis de profundidade, sentimos também a necessidade de utilizar um processo específico para a representação das figurações: o uso de cortes. Assim sendo, justificamos a sua utilização não só por questões óbvias relacionadas com a produção, visto a pintura cerâmica ser difícil de executar em dois níveis diferentes, mas também devido à nossa formação escultórica, que nos levou a criar, não planos de cor pintados, mas sim figurações obtidas por justaposição de diferentes planos de cor.

Para além da pele que as reveste, as paredes da estação também pensam. Por isso, têm o dom da palavra. Esta, incorporada como uma espécie de legenda paralela ao circuito representado, e gravada no espaço como é humano fazer-se desde tempos ancestrais, surge liberta de qualquer narratividade linear. As paredes não contam nenhuma história, falam. De quê? De tudo e de nada, de mim e de todos, de uma história da qual cada um dos passageiros pode ser protagonista.

Em cada azulejo integrámos três caracteres, incluindo espacejamentos, usando deste modo uma fonte monoespacejada de modo a que a largura de cada caractere seja sempre igual entre si. Em relação ao texto, importa referir ainda que, pela necessidade de lhe conferir uma leitura o mais abrangente possível, quer a nível de sentidos, quer de públicos, o desmultiplicámos assimetricamente em seis línguas: português, francês, espanhol, inglês, italiano e alemão.

A cor é uma dimensão do nosso projeto que foi resolvida na redução ao simples, sintético e subtil, não sendo por isso menosprezada na importância que adquire num ambiente subterrâneo. Queríamos para a estação do Lumiar um ambiente cintilante, fresco, alegre e luminoso, mas estável, coerente e global. Assim, reduzimos para três cores a nossa paleta: verde, amarelo e branco e com elas resolvemos todas as conjugações que necessitávamos para distinguir, eleger, significar ou compor os espaços da estação. A eleição destas três cores prende-se também com significações que lhes atribuímos: o verde, como referência aos espaços verdes do Lumiar; o branco, como referência à luz particular de Lisboa; o amarelo, como óbvia referência à linha amarela do metro de Lisboa e ao astro pai. A sua distribuição nas paredes da estação, para além da composição nas figurações, obedece a premissas: a cor verde é o fundo geral da estação; o amarelo marca áreas reservadas aos serviços do metro e referencia a linha amarela; o branco fica reservado para as áreas de serviço do utente, bem como para fundo das áreas de figuração.

fig. 7
Calçada para o Conhecimento [2024] Comemoração dos 50 Anos da Universidade do Minho – Campus de Gualtar Criação: Fernando Maia, Filipe Mendes, Marta Lima e Rui Ferro

A peça “Calçada para o Conhecimento” surgiu após o Open Call realizado pela zet gallery e pelo dstgroup para comemorar os 50 anos da Universidade do Minho, tendo como objectivo escolher propostas para a produção de duas obras de arte em espaço público, uma no Campus de Gualtar e outra no Campus de Azurém. As peças foram produzidas e cedidas pela zet gallery e pelo dstgroup à Universidade do Minho. Os locais de implementação das peças foram pré-definidos, e para a seleção das obras de arte o juri valorizou os seguintes itens: adequação do portfólio do candidato à proposta apresentada; originalidade e qualidade estética da proposta; materiais e recursos escolhidos para o desenvolvimento do projeto e as suas características ao nível da durabilidade e da manutenção da obra de arte; exequibilidade técnica e adequação da proposta ao espaço público. O juri selecionou para o campus de Gualtar a peça “Calçada para o Conhecimento”, que agora apresento, e para o campus de Azurém a peça “Common Home” do artista Volker Schnüttgen, estas duas obras foram selecionadas num universo de 68 concorrentes de Portugal e de outras partes do mundo.

Quando iniciamos discussão sobre o que propôr a concurso, reparamos que a base estrutural do símbolo da Universidade do Minho é um hexágono, um polígono de seis lados, que se encontra na natureza em construções típicas, como os favos de mel das abelhas melíferas, mas também, nas disjunções prismáticas de grandes massas de lava basáltica, cuja Calçada dos Gigantes (Giant's Causeway), na Irlanda do Norte ou a Rocha dos Bordões, na Ilha das Flores, nos Açores, serão exemplos maiores.

Estas relações foram importantes para a conceptualização do projeto. Pela ligação ao trabalho coletivo das abelhas, para manterem a sua comunidade e para manterem o seu importante papel no meio ambiente, onde se estabelecem. Pela necessária força disruptiva com que o conhecimento se deve estabelecer no seio de uma comunidade e a forma estruturada com que tem de acontecer, como um lajear os caminhos do conhecimento. Dessas diferentes visões, forjadas nas discussões entre indivíduos de diferentes almas, organizados nesta equipa, nasce a proposta para este concurso. Um campo que se pode percorrer com o nosso corpo. Espaços, cuja utilidade será, justamente, o apelo a participar nelas, a torná-los nossos. Espaços, onde, os corpos de todos, podem fazer sentido.

Assim, esta equipa propôs, para o Campus de Gualtar uma peça térrea, formada por 201 módulos hexagonais, cujo topo será marcado pelo símbolo da Universidade do Minho gravado e, em cinquenta unidades dispersas, existirão placas de latão polido, com espaço para a instituição ir gravando datas marcantes do seu futuro.

A dispersão dos módulos hexagonais, no terreno, parte de uma livre interpretação da presença e estruturação dos Jacintos, em campo de prata, que figuram no brasão da Universidade do Minho. Conforme podemos ler no site da universidade: “Essas flores brancas ou azuis, organizadas em cacho, gozam de uma estrutura geométrica clara que personifica as qualidades humanas da humildade científica, da simplicidade e do rigor.”

Termino agora, esperando ter contribuido para o melhor entendimento da metodologia de trabalho do/a artista plástico, segundo o trabalho pessoal ou o trabalho por encomenda. Se a concepção de um trabalho pessoal aparenta ser um ato de extrema liberdade criativa, o percurso que conduz a ideia inicial à concretização final da mesma, é fruto das relações entre prazos de realização, orçamento disponível e tecnologia que pretendo desenvolver, tudo interferindo no resultado final da peça apresentada. Mas será sempre o meu espaço de liberdade, onde exponho aos outros as minhas ideias, os meus sonhos e os meus fantasmas.

Em relação ao trabalho por encomenda, a criação nasce a partir das premissas do concurso/convite e no meu caso, este processo surge sempre num debate colectivo de ideias pois, tal como nos dois projectos que apresento, eles são sempre desenvolvidos por um grupo interdisciplinar. Surge depois a relação com as outras áreas que intervêm no processo. Será através das diversas restrições impostas, de carácter técnico, económico e humano, que se criam os limites e as barreiras que definem o projecto final. Resta relembrar que as intervenções no espaço público de carácter perene implicam a consciência da sua permanência durante muitos anos e a fruição por um público muito heterogéneo, tentando criar obras que tenham a capacidade de sobreviver ao tempo. Acreditando que a arte pública, mais do que uma mera intervenção artística localizada no espaço público, influencia e tem um papel preponderante na apropriação do espaço, sendo por isso criadora de identidade.

Porto, Setembro de 2025

fig. 7
Calçada para o Conhecimento [2024] Comemoração dos 50 Anos da Universidade do Minho – Campus de Gualtar Criação: Fernando Maia, Filipe Mendes, Marta Lima e Rui Ferro
Bibliografia

 

BRANDÃO, Pedro (2006) A Cidade entre Desenhos: Profissoes do desenho, ética e interdisciplinaridade, Livros Horizonte, Lisboa
CLEESE, John (2021) Criatividade: Um guia prático e divertido, Objectiva, Lisboa
ESQUIVEL, Laura (2001)Como água para chocolate, Edições Asa, Porto
PESSOA, Fernando (1990)Livro do Desassossego, Presença, Lisboa