Editorial

Mónica Faria

Pensar em Escultura e, mais precisamente, em escultura pública que habita o espaço físico de Guimarães, foi uma possibilidade para voltar a pensar na prática artística inserida na experiência de escultora iniciada nas Belas Artes no início do século XXI. Este repensar assente na prática da escultura é dar de cara com modos de ensinar e aprender sobre volumes e escalas, representações clássicas, monumentalidades, técnicas pesadas, manualidades de força e movimentos firmes e simultaneamente leves. É transportar-me para lugares com forte carga simbólica, estóica talvez, é reencontrar ancestrais históricos que alimentam a nossa herança cultural, estética, artística: se de Brancusi não nos separamos, também de Afonso Henrique nos alimentamos (seja qual for a cidade que da História de Portugal se fale, ou se conte).

Surge então como uma brisa, uma lufada de ar fresco, encontrar Irene Vilar e Mumadona. E surge, como quem pensa com os seus botões, numa praça com obra de Ana Jotta, uma vontade de conversar com os amigos sobre algumas possíveis inquietações. Assim acontece, entre encontros e desencontros, que um conjunto de especialistas e, se me permitem a ousadia, interessados sobre o assunto, se juntam para pensar para além da Arte, das autorias. Estas pessoas não vêm sozinhas, aparecem carregados de história e literatura, arquitetura e biologia, escultores e arquivistas, fotógrafos e biólogos, investigadores ou professores e estudantes… e perdendo-nos nestes títulos e categorias, ficamos nesta panóplia de pensamentos, onde a riqueza da interdisciplinaridade, nos cruzamentos entre a memória e o vivido nos permita alguma opção na orientação, mais do que na segurança, dos que decidimos transportar connosco, ou na dúvida dos que ficam e os que vão, dos representados e dos que representam, e dos que a presença se torna subtil ou invisível, ou quase. Que identidade é esta hoje, até onde nos pertence? Essa realidade, a que nos confrontamos todos os dias, a que nos alimenta, aquela habita o nosso imaginário e nos oferece possibilidades de futuros, serão a realidade que podemos anunciar na arte pública que ocupam as ruas da nossa cidade?

 

E, durante o ano de 2025, movemo-nos! As esculturas moveram-se! E, as pessoas pararam! Para sussurrar, ouvir, rabiscar, sonhar, representar, divagar…
As ruas, as praças, os campos, as salas e as mesas de Guimarães tornaram-se palco para que estátuas, esculturas, a arte pública — e, até a privada — fossem as protagonistas desta história. Transformámos momentos pontuais em prolongamentos de tempos para que encontros, passeios, reflexões, entendimentos e questionamentos ganhassem predominância no olhar sobre um passado que nos trouxe aqui, o presente que se vislumbra e sobre a memória futura que estas obras nos contam sobre possíveis caminhos.
Nesta visão digital, fixamos alguns desses percursos: instantes colhidos no meio do concreto, dos muros, da pedra e do bronze, cheios de chuva e estaladiços pelo sol, cujos reflexos se projetaram para lá de si. Retido entre páginas e desdobramentos variados, damos voz ou prestamos ouvido.

Por José Pastor somos conduzidos por um itinerário fotográfico que procura humanizar a arte pública. Com um gesto simples e radical: olhar as esculturas como quem olha pessoas. Macrofotografar detalhes, remover o pedestal, aproximar-se da pedra para tocar a sua memória. Com Jorge Palinhos somos recordados que as estátuas — objeto aparentemente permanente e estável — são, afinal, móveis. Movem-se no espaço, no tempo e sobretudo no imaginário coletivo. Marta Lima abre-nos as portas de uma metodologia dupla — a do trabalho pessoal e a da criação em contexto público — revelando como cada peça nasce entre a liberdade criativa e os limites concretos da encomenda. Sónia Moura convida-nos a redescobrir um património tantas vezes invisível: as obras integradas na arquitetura moderna, para mostrar que a cidade é, também, síntese das artes. Mónica Guimarães lembra-nos que nada disto existe sem memória. Sem arquivo, não há história; sem registo, não há cidade. A arte pública é património, mas só permanece como tal quando cuidamos do seu contexto e da sua narrativa. Permanece um convite: a responsabilidade coletiva de guardar, descrever e compreender o património escultórico antes que se perca.

É nesse contexto que “Caminhos em Volta” das esculturas públicas de Guimarães (Mónica Faria) fecha este conjunto ou talvez o abra… Através de um roteiro, de um livro de artista e de uma ação performativa, a cidade transformou-se em corpo transponível e a escultura um acontecimento. Não se trata apenas de ver obras: trata-se de habitá-las, de lhes devolver voz através da participação cidadã. As estátuas deixaram de ser apenas objetos: tornaram-se interlocutores, companheiras de caminhada, matéria viva.